Fiquei olhando para a fotografia até meus olhos começarem a arder.
—Não é possível.
Henrique não tentou me tranquilizar. Talvez porque soubesse que qualquer frase naquele momento pareceria vazia.
—A imagem foi registrada às 20h47 — disse ele. — A credencial usada para entrar estava vinculada a Augusto. O código não era utilizado desde a morte dele.
—A fotografia mostra o rosto?
—Temos outros ângulos.
Meu coração bateu mais forte.
—Mostre.
Henrique abriu o celular. Na segunda imagem, o homem estava de perfil. A qualidade continuava ruim, mas havia detalhes suficientes para destruir qualquer esperança absurda antes que ela crescesse dentro de mim.
Não era Augusto.
Senti alívio.
E imediatamente depois, medo.
Porque eu conhecia aquele homem.
—César.
Henrique assentiu.
César Monteiro estava vivo.
E enquanto nós desmontávamos a rede financeira dos Ribeiro diante de duzentas pessoas, ele entrava justamente no único arquivo capaz de revelar como tudo começara.
—O que ele levou?
—Ainda estamos verificando.
—Então vamos agora.
—Mariana está internada.
Olhei através do vidro do quarto. Minha filha dormia de lado, uma mão repousando sobre a barriga.
Eu não queria deixá-la.
Mas também compreendi que César não escolhera aquela noite por acaso.
Liguei para minha irmã, Teresa, e pedi que viesse ficar com Mariana. Quando ela chegou, pouco depois das onze, saí com Henrique.
O prédio da antiga Almeida Participações ficava a vinte minutos do hospital. Augusto o comprara quando nossa empresa ainda ocupava duas salas pequenas. Depois de sua morte, eu mantivera o arquivo fechado.
Encontramos a porta interna aberta.
Nenhuma gaveta havia sido revirada.
Nenhum papel estava espalhado.
Aquilo me assustou ainda mais.
César sabia exatamente o que procurava.
Henrique apontou para um armário de aço.
—Aqui.
A fechadura tinha sido aberta sem violência.
Dentro havia várias caixas numeradas.
Uma posição estava vazia.
C-9.
Meu sangue gelou.
Retirei do bolso a fotografia que fizera da carta de Sônia.
17-04 / C-9 / A.A.
—Ele veio buscar o que estava indicado no verso da carta.
Henrique aproximou-se.
—Então alguém sabia que você teria acesso àquele documento hoje.
A conclusão caiu sobre mim lentamente.
A carta não havia aparecido por acaso.
Talvez Sônia tivesse sido levada a mostrá-la.
—Precisamos encontrar César.
—Já estamos tentando.
Meu celular tocou.
Mariana.
Atendi imediatamente.
—Filha?
Nenhuma resposta.
—Mariana?
Então ouvi a voz de Bruno.
—Margarida.
Meu corpo inteiro ficou rígido.
—Onde está Mariana?
—No quarto. Está bem.
—O que você está fazendo com o telefone dela?
—Ela pediu para eu vir.
Não acreditei.
—Passe para ela.
Alguns segundos depois, Mariana falou.
—Mãe, está tudo bem. Eu mandei chamá-lo.
Fechei os olhos.
—Por quê?
—Porque preciso ouvir o que ele sabe.
Voltei ao hospital.
Quando entrei no quarto, Bruno estava sentado longe da cama. Mariana parecia cansada, mas havia algo novo em sua expressão.
Controle.
Ela apontou para uma cadeira.
—Senta, mãe.
Obedeci.
Bruno colocou sobre a mesa um pequeno dispositivo USB.
—César me deu isso há seis meses.
—O que tem aí?
—Não sei.
Quase ri.
—Você espera que eu acredite?
—Ele é criptografado. Tentei abrir.
—Por que nunca entregou às autoridades?
Bruno baixou os olhos.
—Porque César disse que, se eu entregasse, minha mãe seria presa.
Mariana ficou imóvel.
—Então você protegeu Sônia.
—No começo, sim.
—E depois?
Ele demorou a responder.
—Depois descobri que havia dinheiro sendo movimentado no meu nome.
—Quanto?
—Quase seis milhões.
O silêncio pesou.
—Você usou esse dinheiro? — perguntou Mariana.
—Parte dele.
Ela fechou os olhos.
Bruno continuou:
—Eu achei que fossem dividendos legítimos. Quando percebi que não eram, já estava envolvido.
—E decidiu esconder de mim.
—Eu estava tentando devolver.
—Mentindo?
Ele não conseguiu responder.
Peguei o dispositivo.
—Qual é a senha?
—César só me deu uma pista: “o dia em que Augusto percebeu”.
Meu pensamento voltou à sequência.
17-04.
—Dezessete de abril.
Bruno assentiu.
Henrique conseguiu um notebook isolado. Digitamos a data.
Nada.
Tentamos formatos diferentes.
Na terceira tentativa, a unidade abriu.
Havia três pastas.
RIBEIRO.
ALMEIDA.
E uma terceira:
MARIANA.
Minha filha ficou pálida.
Abri primeiro a pasta Ribeiro.
Planilhas, transferências, empresas de fachada. Era suficiente para provar que Sônia conhecia parte das operações muito antes do que afirmara.
Depois abrimos Almeida.
Havia documentos assinados por Augusto, mas também relatórios mostrando que ele começara a investigar desvios semanas antes de morrer.
A carta de Sônia assumia outro significado.
Talvez Augusto não estivesse entregando a operação a Bruno.
Talvez estivesse preparando uma armadilha.
Então Mariana apontou para a tela.
—Abre a minha.
Hesitei.
—Mãe.
Cliquei.
Só havia um arquivo.
Um vídeo.
Data: 14 de maio, um dia antes da morte de Augusto.
A imagem começou tremida. Meu marido apareceu sentado no escritório que eu conhecia tão bem.
Mais magro. Cansado.
Mas vivo.
Augusto olhou diretamente para a câmera.
—Se Mariana estiver assistindo a isto, significa que eu não consegui impedir o que começou.
Minha filha levou a mão à boca.
Augusto respirou fundo.
—Mariana, há uma coisa que você precisa saber antes de confiar em qualquer documento com minha assinatura. Nem todas são minhas.
Bruno empalideceu.
Eu me inclinei para a tela.
—Há alguém dentro da nossa estrutura alterando autorizações — continuou Augusto. — Eu descobri quem é.
Então o vídeo falhou.
A imagem congelou.
Quando voltou, alguns segundos haviam desaparecido.
Augusto estava dizendo outra frase.
—...e Margarida não pode descobrir antes que eu tenha provas, porque ela conhece essa pessoa.
O vídeo terminou.
Henrique verificou o arquivo.
—Foi editado.
—Por quem?
—Não dá para saber daqui.
Nesse instante, meu telefone recebeu uma mensagem de um número desconhecido.
Havia apenas uma fotografia.
César Monteiro estava sentado diante de uma mesa, segurando a caixa desaparecida C-9.
Abaixo da imagem, uma frase:
“Se quiser saber quem Augusto descobriu em 17 de abril, venha sozinha.”
E então apareceu o endereço.
Reconheci imediatamente.
Era a casa de campo onde Augusto e eu passamos nossa última noite juntos antes de ele ser internado.







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