Por alguns segundos, ninguém se mexeu. A voz de Talita permanecia do outro lado da porta, baixa e trêmula, tão diferente da mulher que havia atendido o telefone de Bruno naquela manhã. Eu olhei para Rafael, depois para meus filhos. Caio estava de pé, confuso, enquanto Mariana continuava segurando o desenho que havia feito no carro.
— Não abra — Rafael repetiu. — Se ela realmente sabe alguma coisa, pode falar daqui.
Talita soltou um suspiro.
— Eu não vim para machucar vocês. Eu vim porque Bruno está mentindo para todos. Inclusive para mim.
Aquilo me atingiu de uma maneira inesperada.
— Abra — falei.
— Sara...
— Abra.
Rafael hesitou, mas finalmente destrancou a porta. Talita entrou rapidamente e fechou atrás de si. Estava sem maquiagem, com os cabelos presos de qualquer maneira e os olhos vermelhos. Não parecia a mulher elegante que eu havia visto nas fotografias da imobiliária.
Ela olhou para Mariana.
Por um instante, seu rosto se desfez.
— Meu Deus...
— Não olhe para ela — falei, colocando Mariana atrás de mim. — Fale comigo.
Talita engoliu em seco.
— Bruno não sabe que estou aqui.
— Então por que veio?
Ela colocou uma pequena bolsa sobre a mesa e retirou um envelope.
— Porque descobri que ele nunca me contou toda a verdade.
— Sobre Mariana?
Ela assentiu.
— Sobre tudo.
Senti uma raiva tão profunda que precisei apertar os dedos contra a palma da mão.
— Você estava com ele enquanto eu ainda era casada.
— Eu sei.
— Você sabia que ele mentia para mim.
— Eu sabia que ele dizia que o casamento de vocês estava terminado havia muito tempo. Eu acreditei nele.
— E agora?
Talita abaixou os olhos.
— Agora sei que fui usada também.
Rafael pegou o envelope.
— O que tem aqui?
— Uma cópia de um contrato que Bruno assinou há cinco anos. E uma fotografia.
Ele abriu.
Era um documento de transferência patrimonial.
Meu nome aparecia nele.
Mas não era a minha assinatura.
— Essa assinatura é falsa — murmurei.
Talita assentiu.
— Bruno precisava retirar você de uma estrutura jurídica criada pelo seu pai. Ele descobriu que uma parte do patrimônio estava protegida em nome de Caio e Mariana. Só que havia uma condição.
— Qual?
Talita olhou diretamente para mim.
— O dinheiro só poderia ser administrado pelo pai biológico de Mariana até ela completar dezoito anos.
Senti minhas pernas enfraquecerem.
— Isso não faz sentido. Bruno é o pai dela.
Talita ficou em silêncio.
Foi um silêncio longo demais.
— Não — ela disse finalmente. — Bruno não é.
Mariana levantou os olhos.
— Mamãe?
Aproximei-me dela imediatamente.
— Está tudo bem, meu amor.
Mas minhas próprias palavras pareciam falsas.
Rafael encarou Talita.
— Você tem provas?
Ela abriu a bolsa novamente e retirou uma fotografia antiga.
Dessa vez, reconheci o local.
Era o hospital onde Mariana nasceu.
Na fotografia, eu estava sentada em uma cama, segurando minha filha recém-nascida. Ao meu lado estava meu pai.
Mas havia outra pessoa na imagem.
Um homem jovem.
Eu não o reconheci.
— Quem é ele?
Talita respirou fundo.
— O nome dele é Daniel Ferreira.
O nome não significava nada para mim.
— Onde ele está?
Talita demorou a responder.
— Morto.
O silêncio tomou conta da sala.
— Então como ele poderia ser o pai de Mariana?
— Porque ele morreu seis meses depois do nascimento dela.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Você está dizendo que meu pai sabia?
— Seu pai sabia de tudo.
Olhei para a gravação sobre a mesa.
De repente, as palavras dele ganharam outro significado.
“Mariana é a chave.”
— Como você descobriu?
Talita passou a mão pelo rosto.
— Há três semanas, Bruno recebeu uma carta. Eu o vi queimá-la. Depois ele começou a perguntar sobre os documentos antigos da sua família. Eu estranhei. Ontem, encontrei uma cópia escondida no escritório dele.
— E o que dizia?
Talita me encarou.
— Que, se Mariana deixasse o Brasil antes de completar determinada idade, o patrimônio seria congelado e uma investigação seria aberta.
Rafael ficou pálido.
— Então é por isso que ele está tentando impedir a viagem.
Talita assentiu.
— Não apenas pela guarda. Ele precisa de Mariana no Brasil.
— Para controlar o dinheiro?
— Não.
Ela respirou fundo.
— Para impedir que um teste de DNA seja realizado.
Meu corpo ficou completamente imóvel.
— Que teste?
Talita olhou para Mariana novamente.
— Um teste que pode provar quem realmente é o pai dela.
Antes que eu pudesse responder, ouvimos passos no corredor.
Rafael apagou imediatamente o computador.
Talita ficou branca.
Alguém parou diante da porta.
Então uma voz masculina disse:
— Sara, abra a porta.
Bruno.
Caio segurou minha mão.
Mariana se escondeu atrás de mim.
Bruno bateu novamente.
— Eu sei que a Talita está aí.
Talita fechou os olhos.
E, pela primeira vez, percebi que ela estava com mais medo de Bruno do que eu.







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