Bruno bateu mais uma vez, agora com força suficiente para fazer a porta vibrar. Talita levou a mão à boca para conter a respiração, e Rafael fez um gesto para que ninguém falasse. Caio apertava meus dedos com tanta força que suas unhas quase machucavam minha pele. Mariana permanecia escondida atrás de mim, segurando o desenho da nossa antiga família contra o peito.
— Sara, eu não quero fazer uma cena aqui dentro — disse Bruno do outro lado. — Abra a porta e vamos conversar como adultos.
Eu conhecia aquele tom. Era o mesmo que ele usava quando queria parecer razoável enquanto fazia alguma ameaça parecer uma escolha.
Olhei para Rafael.
— Temos uma saída?
Ele apontou discretamente para uma segunda porta, quase escondida atrás de um painel de madeira.
— Corredor de serviço. Dá acesso à área de embarque.
Talita balançou a cabeça.
— Não adianta. Ele já deve ter colocado alguém ali.
— Como sabe?
Ela olhou para Bruno através da porta.
— Porque ele sempre pensa três passos à frente quando está com medo.
A frase me fez perceber uma coisa. Talita não estava apenas assustada. Ela conhecia Bruno de uma maneira que eu nunca havia conhecido. Talvez porque eu tivesse passado dez anos acreditando nas palavras dele, enquanto ela havia passado os últimos meses observando o homem que ele realmente era.
— Você vai comigo — falei.
Talita arregalou os olhos.
— O quê?
— Se você sabe onde estão os documentos, vai comigo.
— Sara, eu não posso simplesmente...
— Pode. Porque, se ficar aqui, ele vai transformar tudo em uma história na qual você será a única culpada.
Ela ficou em silêncio.
Rafael abriu a porta de serviço lentamente. Saímos em fila, primeiro ele, depois as crianças, Talita e eu. O corredor era estreito e silencioso. O som distante dos aviões chegava abafado pelas paredes. Caminhamos rapidamente até uma porta metálica.
Quando Rafael abriu, um segurança apareceu do outro lado.
— Senhora Almeida?
— Sim.
— Henrique mandou buscá-la.
Entramos em uma pequena sala de controle. Havia monitores mostrando diferentes áreas do aeroporto.
Um deles mostrava Bruno saindo da sala onde estávamos minutos antes.
Ele estava acompanhado de dois homens.
Meu estômago se apertou.
— Ele sabe que saímos — disse Rafael.
O segurança apontou para outro monitor.
— Há um carro esperando na saída norte.
— De quem?
Ele ampliou a imagem.
Era o mesmo Mercedes que havia nos buscado.
Mas agora havia alguém dentro.
Talita se aproximou da tela.
— Esse carro não é de Henrique.
— Tem certeza?
— Absoluta.
Rafael ficou sério.
— Então o carro que trouxe vocês até aqui pode ter sido rastreado.
Senti um arrepio.
Tudo havia sido planejado.
A pasta, o motorista, a sala, as mensagens.
Talvez até a nossa viagem para Londres.
— Precisamos sair do aeroporto — falei.
O segurança abriu uma porta lateral que dava para uma área restrita. Alguns minutos depois, estávamos em uma van de serviço, sem identificação. Caio e Mariana ficaram sentados entre mim e Rafael. Talita permanecia no banco da frente, olhando constantemente para trás.
Quando finalmente deixamos o aeroporto, Rafael recebeu uma ligação.
— Sim?
Ouvi apenas sua expressão mudar.
— Quando?
Ele ficou em silêncio.
— Entendi.
Desligou.
— O que aconteceu? — perguntei.
— O voo para Londres foi bloqueado judicialmente.
Meu coração afundou.
— Bruno conseguiu?
— Não sabemos. A ordem saiu em nome de uma empresa que não aparece nos documentos do divórcio.
— Qual empresa?
Rafael olhou para mim.
— Almeida & Vasconcelos Participações.
A empresa cujo nome estava nos extratos.
A empresa que meu pai teria criado.
A empresa que deveria proteger meus filhos.
— Mas se essa empresa pertence aos meus filhos, por que ela está impedindo a viagem?
Rafael respondeu:
— Porque alguém está usando a estrutura jurídica dela contra você.
Talita virou-se do banco da frente.
— Bruno.
— Não necessariamente — Rafael disse. — Ele pode estar apenas seguindo instruções de outra pessoa.
— Quem?
Ninguém respondeu.
Chegamos a um pequeno escritório jurídico no centro de Guarulhos. Assim que entramos, Rafael trancou a porta e colocou os documentos sobre uma mesa.
— Precisamos encontrar o documento original mencionado pelo pai da Sara — disse ele.
— A casa antiga — falei.
— Ela foi vendida.
— Eu sei.
— Então onde pode estar?
Fechei os olhos.
Minha infância.
A casa.
O jardim.
Meu quarto.
E então me lembrei.
— A caixa de música.
Rafael franziu a testa.
— Que caixa?
— Meu pai tinha uma caixa de madeira escondida no antigo quarto dele. Depois que ele morreu, eu procurei documentos naquela casa, mas nunca encontrei a chave.
Talita se levantou.
— Você ainda tem a caixa?
— Não sei.
Rafael abriu o computador.
— Vou procurar o registro da venda do imóvel.
Alguns minutos depois, ele ficou imóvel diante da tela.
— Sara...
— O quê?
— A casa não foi vendida.
Senti um frio atravessar meu corpo.
— Como assim?
Ele girou o computador para mim.
O registro imobiliário mostrava que o imóvel continuava pertencendo à mesma pessoa.
**Henrique Almeida.**
Meu pai.
A data da última atualização era de apenas quatro meses atrás.
Meu pai estava morto havia três anos.
— Isso é impossível — sussurrei.
Talita se aproximou.
— Talvez ele tenha deixado alguém administrando.
Rafael balançou a cabeça.
— Não.
Ele ampliou o documento.
— A assinatura mais recente não pertence a Henrique.
Olhei para o nome registrado abaixo.
Era o nome de uma pessoa que eu nunca esperava ver.
**Bruno Almeida.**
Antes que eu conseguisse falar, meu celular vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Havia apenas uma fotografia.
A casa da minha infância.
E, diante do portão, estava um homem de costas.
A legenda dizia:
**“Chegue sozinha, Sara. Se trouxer as crianças, Bruno nunca contará o que aconteceu naquela noite.”**
Olhei para Talita.
Ela estava encarando a fotografia.
E então sussurrou:
— Eu conheço esse homem.
— Quem é?
Ela demorou alguns segundos.
— Daniel Ferreira.
O homem que, segundo ela, estava morto havia oito anos.







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