O grito de Bruno atravessou o teto como uma lâmina. Daniel ficou imóvel diante do cofre aberto, segurando a certidão com tanta força que o papel começou a dobrar em seus dedos. Rafael fechou rapidamente o envelope vermelho e guardou o pen drive no bolso interno do paletó.
— Ele sabia — murmurei.
Daniel me encarou.
— Sim.
— Desde quando?
— Não sei.
— Você sabia que ele estava atrás de você?
— Eu sabia que um dia ele descobriria.
— Isso não responde à minha pergunta.
Daniel desviou os olhos.
— Há três anos, seu pai me disse que Bruno tinha encontrado uma cópia do registro original. Depois disso, comecei a mudar de esconderijo.
Meu coração apertou.
— Três anos atrás?
— Sim.
— No mesmo ano em que meu pai morreu.
Daniel assentiu.
— Seu pai não morreu por acaso.
O silêncio que veio depois pareceu ainda mais pesado que os gritos de Bruno.
— Você está dizendo que ele foi assassinado?
— Estou dizendo que não acredito que tenha sido uma morte natural.
Rafael se aproximou.
— Temos que sair daqui agora.
Um barulho forte veio do andar superior.
Bruno estava procurando alguma coisa.
— A passagem termina onde? — perguntei.
Daniel apontou para uma porta pequena no fundo.
— Atrás da garagem. Há uma saída para a rua lateral.
Peguei Caio e Mariana pela mão.
— Vamos.
Avançamos pela passagem escura enquanto, acima de nós, portas eram abertas e móveis arrastados. Mariana começou a chorar silenciosamente.
— Mamãe, eu quero ir embora.
— Nós vamos.
— Com aquele homem?
Olhei para Daniel.
Ele estava alguns passos atrás, carregando o envelope vermelho.
— Com todos que estão tentando nos proteger.
Chegamos à saída. Daniel abriu a porta e fomos parar em um pequeno corredor entre duas casas. Rafael saiu primeiro para verificar se havia alguém. Quando fez sinal, atravessamos rapidamente.
Mas, antes de chegarmos ao carro, ouvimos uma voz atrás de nós.
— Sara!
Bruno.
Ele estava no final da rua.
Por alguns segundos, nossos olhos se encontraram.
Ele não parecia mais o homem confiante que havia se sentado diante da mediadora naquela manhã. O rosto estava tenso, a gravata torta, e havia algo quase desesperado em sua expressão.
— Pare! — gritou.
Eu continuei andando.
— Você não entende o que está fazendo!
Virei-me.
— Não. Pela primeira vez, Bruno, estou começando a entender.
Ele olhou para Daniel.
Seu rosto mudou completamente.
Ódio.
Medo.
E reconhecimento.
— Você deveria estar morto.
Daniel respondeu calmamente:
— E você deveria ter contado a verdade há oito anos.
Bruno ficou pálido.
— Sara, não acredite nele.
— Por quê?
— Porque ele quer tirar Mariana de você.
Eu ri sem humor.
— Você passou oito anos dizendo que ela era sua filha.
— Porque ela é minha filha legalmente!
A frase saiu rápido demais.
Daniel olhou para Rafael.
Rafael percebeu imediatamente.
— Obrigado — disse.
Bruno franziu a testa.
— Pelo quê?
— Pela confissão.
O rosto de Bruno endureceu.
— Não confessei nada.
— Acabou de admitir que sabia da diferença entre a paternidade biológica e o registro legal.
Bruno ficou em silêncio.
Foi a primeira vez que o vi sem uma resposta preparada.
Então ele fez algo inesperado.
Sorriu.
— Você acha que isso basta?
— Não — respondi. — Mas acho que é suficiente para começar.
Entramos no carro e saímos dali antes que ele pudesse se aproximar.
No escritório, Rafael conectou o pen drive encontrado no cofre a um computador isolado.
Havia apenas um arquivo.
Uma gravação de vídeo.
A imagem apareceu.
Meu pai estava sentado na mesma mesa onde eu havia passado tantas tardes fazendo lição de casa.
Ele parecia cansado.
Mas estava vivo.
— Sara, se você chegou até aqui, significa que Daniel conseguiu cumprir a promessa.
Comecei a chorar.
Meu pai continuou:
— Eu preciso que você saiba que Bruno não descobriu sozinho a existência do patrimônio. Alguém dentro da nossa própria família entregou os documentos a ele.
Talita levou a mão à boca.
— Alguém da família?
Meu pai olhou diretamente para a câmera.
— Bianca.
Meu coração parou.
A irmã de Bruno.
A mulher que havia rido naquela manhã.
A mulher que estivera presente durante meu divórcio.
— Não — murmurei.
O vídeo continuou.
— Bianca não fez isso apenas por dinheiro. Ela acreditava que Mariana nunca deveria receber aquilo que foi deixado para ela.
A gravação terminou.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Então Rafael recebeu uma mensagem.
Ele abriu.
Era uma fotografia tirada naquela manhã, dentro do escritório do divórcio.
Bianca aparecia ao lado de Bruno.
Mas, na mão dela, havia uma pasta.
A mesma pasta que Henrique me entregara.
Rafael ampliou a imagem.
No canto da fotografia, havia um reflexo em uma janela.
Talita reconheceu imediatamente.
— Meu Deus...
— O quê? — perguntei.
Ela apontou para o reflexo.
— Esse homem estava com Bianca naquela manhã.
Olhei para a tela.
Era um homem que eu nunca havia visto.
Mas Daniel ficou completamente imóvel.
— Eu conheço ele.
— Quem é?
Daniel demorou alguns segundos para responder.
— É o médico que assinou a autorização sobre você cinco anos atrás.
Meu sangue gelou.
Rafael voltou a olhar para o vídeo.
— Então o médico não estava trabalhando apenas para Bruno.
Daniel balançou a cabeça.
— Não.
Ele apontou para a tela.
— Ele trabalhava para meu pai.
Eu franzi a testa.
— Seu pai?
Daniel me encarou.
— Sim.
E então revelou a última coisa que meu pai havia deixado escondida:
— Sara, o patrimônio de Mariana não foi criado para protegê-la de Bruno.
Ele fez uma pausa.
— Foi criado para protegê-la de alguém muito mais poderoso.







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