A comissária pareceu perceber que havia dito mais do que Augusto gostaria. O sorriso desapareceu devagar de seu rosto, e por alguns segundos ela ficou imóvel no corredor estreito, segurando uma bandeja vazia contra o corpo. Meu pai continuava olhando para as próprias mãos. Eu conhecia aquele silêncio. Era o mesmo que surgia sempre que alguém mencionava os anos em que minha mãe adoeceu, quando nossa casa foi vendida e nós nos mudamos para um apartamento pequeno na zona norte de São Paulo. Eu tinha vinte e dois anos naquela época e acreditava conhecer toda a história: a empresa enfrentara dificuldades, meu pai vendera sua participação, usara parte do dinheiro no tratamento da minha mãe e, depois da morte dela, decidira se aposentar. Era simples. Doloroso, mas simples. De repente, nada parecia simples.
— Pai — falei baixo. — O que ela quis dizer com “a parte dela”?
Augusto respirou fundo.
— Não é hora para isso, Paula.
A comissária deu um pequeno passo para trás.
— Desculpe, senhor Augusto. Eu achei que sua filha soubesse.
— Não precisa pedir desculpas, Camila.
Ele nem tinha perguntado o nome dela. Aquilo me fez olhar imediatamente para os dois.
Camila também percebeu.
— O senhor lembra de mim?
Meu pai finalmente levantou os olhos.
— Você tinha uns doze anos quando sua mãe levou você à fábrica num sábado. Ficou desenhando numa caixa de papelão enquanto ela terminava o inventário.
Camila levou a mão à boca, emocionada.
— O senhor lembra disso?
— Eu lembro de muita coisa.
Renato permanecia sentado ao lado, fingindo olhar o celular. A situação claramente o constrangia agora, mas eu já tinha esquecido que ele existia.
Inclinei-me na direção de meu pai.
— Então me explica.
— Depois que chegarmos a Salvador.
— Você sempre diz “depois” quando não quer falar de alguma coisa.
Ele virou o rosto para a janela.
A aeronave ainda estava no portão, e lá fora funcionários carregavam as últimas malas. Meu pai observou o movimento como se aquelas pessoas fossem infinitamente mais interessantes do que a própria filha.
Camila se preparava para seguir quando perguntou:
— Sua irmã ainda mora em Salvador?
Augusto virou-se rapidamente.
— Você conhece Helena?
A pergunta saiu diferente. Mais seca.
Camila hesitou.
— Minha mãe conhece.
Senti alguma coisa mudar no ar.
— Como? — perguntei.
Meu pai respondeu antes dela.
— Paula, chega.
Nunca ouvira aquele tom dirigido a mim.
Não era raiva.
Era medo.
Camila murmurou que precisava continuar o serviço e seguiu pelo corredor. Esperei até que desaparecesse atrás da cortina da cabine dianteira.
— O que a tia Helena tem a ver com sua antiga empresa?
— Nada.
— Então por que você ficou assim?
— Assim como?
— Como se ela tivesse acabado de dizer algo que não deveria.
Augusto soltou o cinto.
Por um instante achei que fosse levantar, mas ele apenas ajeitou a camisa e tornou a prendê-lo.
— Sua mãe dizia que você não largava um assunto até arrancar todas as respostas.
— E você dizia que isso era uma qualidade.
— Dependendo do assunto.
O aviso para desligarmos os aparelhos interrompeu a conversa. Renato finalmente guardou o celular. Alguns minutos depois, o avião começou a se mover.
Durante a decolagem, meu pai permaneceu em silêncio.
Eu também.
Mas minha cabeça estava cheia de datas.
Minha mãe, Teresa, adoeceu dezesseis anos antes. Na mesma época, meu pai deixou a empresa. Dois anos depois, ela morreu. Helena, irmã mais nova dele, mudou-se para Salvador poucos meses depois do funeral. Segundo os dois, a mudança aconteceu porque ela recebera uma oportunidade de trabalho.
Nunca me ocorrera ligar esses acontecimentos.
Até aquele momento.
Quando o sinal dos cintos foi desligado, Renato se inclinou discretamente na direção de meu pai.
— Senhor Augusto...
Meu pai olhou para ele.
— Eu lhe devo um pedido de desculpas.
— Não me deve nada.
— Eu julguei o senhor pela aparência.
Augusto sorriu de um jeito quase cansado.
— Então talvez deva alguma coisa a si mesmo.
Renato ficou vermelho.
Meu pai não falou com arrogância. Isso tornava a frase ainda mais pesada.
Pouco depois, Camila começou o serviço de bordo. Quando chegou até nós, colocou uma xícara de café diante de meu pai.
— Sem açúcar — disse.
Augusto franziu a testa.
— Sua mãe ainda lembra?
— De tudo.
Ela colocou outra xícara diante de mim e, quando meu pai virou-se para pegar os óculos na mochila, Camila deixou discretamente um guardanapo dobrado ao lado da minha mão.
Eu a encarei.
Ela apenas continuou pelo corredor.
Esperei alguns segundos antes de abrir.
Havia uma frase escrita à caneta:
“Pergunte ao seu pai sobre o dia 18 de novembro.”
Meu coração acelerou.
Peguei o celular e abri o calendário, embora soubesse que não encontraria nada de dezesseis anos atrás ali. Fiz a conta mentalmente.
— Pai, o que aconteceu em dezoito de novembro?
A mão dele parou no ar.
Foi uma reação mínima.
Mas suficiente.
— Quem falou essa data para você?
Não respondi.
Ele olhou para o guardanapo.
Depois procurou Camila pelo corredor.
— Paula, escuta. Existem coisas que eu escondi porque achei que estava protegendo vocês.
— Protegendo de quê?
Ele apertou os lábios.
— De uma decisão que sua mãe e eu tomamos juntos.
Aquilo me atingiu ainda mais.
— Minha mãe sabia?
— Sabia de quase tudo.
Quase.
Aquela palavra ficou entre nós.
— O que ela não sabia?
Augusto fechou os olhos por alguns segundos.
— Que eu descobri quem estava desviando dinheiro da empresa.
Meu estômago apertou.
— Foi por isso que você saiu?
— Foi por isso que precisei decidir o que fazer com ela.
— E você entregou aos funcionários?
Ele assentiu lentamente.
— Dividi minhas ações entre cento e vinte e três pessoas. Quem estava comigo havia anos ficou com uma participação proporcional ao tempo de trabalho. Eu não queria vender para um grupo que desmontaria tudo e mandaria metade das famílias embora.
Pela primeira vez, a história de Camila fazia sentido.
Mas ainda faltava a parte principal.
— Então por que mentiu para nós?
Augusto olhou para a janela.
— Porque oficialmente houve uma venda.
— Para quem?
Ele demorou tanto para responder que senti a resposta antes de ouvi-la.
— Para uma sociedade criada pelos funcionários.
— E o dinheiro?
Meu pai ficou em silêncio.
— Pai, onde foi parar o dinheiro da venda?
Ele virou-se para mim.
— Nunca existiu.
Fiquei encarando-o.
— Como assim?
— O valor registrado foi simbólico. Eu abri mão praticamente de tudo.
Senti uma mistura absurda de orgulho e indignação.
Naqueles anos, vi minha mãe calcular contas na mesa da cozinha. Vi meu pai vender nosso carro. Vi os dois discutirem baixinho sobre despesas médicas.
— Você deu a empresa enquanto a gente estava perdendo a casa?
— Paula...
— Enquanto a mamãe estava doente?
A culpa atravessou seu rosto.
— Foi mais complicado.
— Então me explica.
Antes que ele respondesse, Camila voltou.
Dessa vez, não trazia bandeja.
Trazia o próprio celular.
— Senhor Augusto, desculpe interromper, mas minha mãe acabou de responder minha mensagem.
Meu pai ficou pálido.
— Você contou que eu estava aqui?
Camila assentiu.
— Ela pediu para eu mostrar uma coisa à Paula.
Augusto levantou-se imediatamente.
— Não.
Alguns passageiros olharam.
Camila congelou.
Eu nunca tinha visto meu pai reagir daquela maneira.
— Pai, o que é?
Camila baixou os olhos para a tela.
— É uma fotografia.
— De quê?
Ela virou o celular lentamente para mim.
A imagem era antiga. Mostrava meu pai diante da fábrica, cercado por dezenas de funcionários. Reconheci Rosana pelo crachá.
Mas não foi ela que me fez perder o ar.
Ao lado de Augusto estava minha tia Helena.
Muito mais jovem.
Ela segurava uma pasta contra o peito.
Na pasta havia uma etiqueta suficientemente nítida para ser lida na fotografia:
“18 DE NOVEMBRO — TRANSFERÊNCIA”.
Olhei para meu pai.
— Você disse que a tia Helena não tinha nada a ver com isso.
Ele permaneceu imóvel.
Camila deslizou o dedo pela tela.
— Tem outra.
Na segunda fotografia, havia apenas três pessoas numa sala: meu pai, Helena e um homem que eu não conhecia.
Sobre a mesa estava o mesmo documento.
— Quem é ele? — perguntei.
Meu pai não respondeu.
Camila, porém, conhecia o nome.
— Minha mãe disse que ele era o contador responsável pela transferência.
Augusto finalmente voltou a sentar.
Parecia ter envelhecido vários anos em poucos minutos.
— Ele se chamava Roberto Ferraz.
— E por que isso importa?
Meu pai olhou diretamente para mim.
— Porque Roberto desapareceu três dias depois de assinar aqueles documentos.
Senti um arrepio percorrer meus braços.
— Desapareceu?
— Pediu demissão, fechou o apartamento e sumiu. Ninguém da empresa conseguiu encontrá-lo.
— E a tia Helena?
Meu pai demorou.
— Foi a última pessoa da família a falar com ele.
O barulho constante dos motores parecia subitamente distante.
— Quando?
Augusto olhou novamente para a fotografia.
— Na noite de dezoito de novembro.
Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, meu telefone vibrou.
Era uma mensagem de minha tia.
Helena sabia que nosso voo chegaria naquela tarde, mas o texto não falava sobre buscar-nos no aeroporto.
Havia apenas duas frases:
“Paula, quando pousar, não saia do aeroporto com seu pai. Preciso conversar com você sozinha antes que Augusto descubra o que encontrei.”
Logo abaixo, ela havia enviado a fotografia de um envelope amarelado.
No canto superior estava escrito, à mão, um nome que eu conhecia desde criança.
Teresa.
Minha mãe.







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