Camila não gritou. Talvez tivesse sido mais fácil se gritasse. Ela apenas ficou olhando para Renato, com aquela expressão de quem tenta encontrar no rosto de alguém conhecido a confirmação de que acabou de ouvir uma mentira absurda. Meu filho continuava perto da mesa, os dedos apoiados nas chaves que havia colocado ali poucos minutos antes. A mala permanecia junto à porta. De repente, aquela mala já não parecia ser minha. Parecia uma prova. Uma evidência de até onde Renato estava disposto a chegar para impedir que o resto de sua vida desmoronasse.
— Que apartamento? — Camila perguntou.
Renato passou a mão pelo rosto.
— Não é o que você está pensando.
— Eu nem sei o que pensar, Renato. Eu acabei de descobrir que existe um apartamento que você perdeu e que agora quer vender a casa da sua mãe para recuperar. Então começa pelo início.
Ele olhou para mim. Havia raiva em seus olhos, mas havia algo maior: medo.
— Mãe, você não devia ter se metido nisso.
A frase me atingiu de uma maneira que eu não esperava. Durante anos, aquela casa havia servido de abrigo para ele. Quando perdeu o emprego, foi ali que voltou. Quando Camila engravidou e as contas apertaram, fui eu quem disse que poderiam ficar o tempo necessário. Nunca cobrei aluguel. Nunca fiz Renato se sentir um hóspede. E agora ele estava diante de mim dizendo que eu não deveria me meter na tentativa dele de vender a minha própria casa.
— Você colocou minha mala na porta — respondi. — Acho que foi você quem decidiu me meter nisso.
Camila puxou uma cadeira, mas não se sentou.
— Fala.
Renato caminhou até a janela. Lá fora, Curitiba estava coberta por aquele céu cinzento que parecia deixar tudo ainda mais pesado.
— O apartamento era um investimento.
Camila franziu a testa.
— Nós nunca tivemos dinheiro para comprar outro imóvel.
— Eu tive uma oportunidade.
— Com que dinheiro?
Ele demorou.
Foi então que percebi que a parte que eu conhecia talvez fosse menor do que imaginava.
Três dias antes, eu havia recebido por engano uma ligação destinada a Renato. Um homem chamado Marcelo perguntara quando ele pagaria o valor restante para impedir que “o imóvel fosse definitivamente transferido”. Quando expliquei que era a mãe dele, o homem ficou nervoso e encerrou a ligação. Renato jamais soube daquele telefonema. Depois, encontrei no lixo do escritório um envelope rasgado de uma administradora de imóveis. Juntei os pedaços. Havia endereço, cobrança atrasada e o nome do meu filho.
Mas nada dizia de onde viera o dinheiro.
Camila repetiu:
— Com que dinheiro, Renato?
— Eu fiz um empréstimo.
— Quanto?
— Camila...
— Quanto?
Ele finalmente se virou.
— Cento e oitenta mil.
Ela levou alguns segundos para reagir.
— Cento e oitenta mil reais?
Renato assentiu.
Camila soltou uma risada curta, sem humor.
— Nenhum banco emprestaria isso para você sem eu saber. Nós somos casados. Eu teria visto alguma coisa.
O silêncio dele respondeu antes das palavras.
Meu estômago apertou.
— Não foi banco — falei.
Renato fechou os olhos.
Camila me encarou.
— Então quem emprestou?
— Um conhecido — Renato respondeu rapidamente. — Era um negócio particular.
— Nome.
— Isso não importa.
— Se você está tentando expulsar sua mãe da própria casa para pagar esse homem, importa bastante.
Renato bateu a mão na mesa.
— Eu não estou expulsando ninguém!
A mala junto à porta tornou a frase quase grotesca.
Camila apontou para ela.
— Então o que é aquilo?
Meu filho não respondeu.
Foi a primeira vez que vi alguma coisa quebrar entre os dois. Não era apenas confiança. Era a percepção de Camila de que talvez não conhecesse o homem com quem dividia a vida.
Eu me aproximei da mesa e peguei minhas chaves.
— A casa não será vendida.
Renato levantou a cabeça.
— Mãe, você não entende. Se eu não resolver isso esta semana...
Ele parou.
Camila percebeu também.
— O que acontece esta semana?
— Nada.
— Renato.
Ele pegou o celular, enfiou-o no bolso e caminhou em direção à porta.
— Preciso sair.
Camila segurou seu braço.
— Você não vai embora no meio dessa conversa.
Renato soltou-se, sem violência, mas com uma urgência que me assustou.
— Eu preciso resolver uma coisa.
— Com Marcelo? — perguntei.
Ele congelou.
Foi apenas um segundo, mas bastou.
— Como você sabe esse nome?
Contei sobre a ligação. Não mencionei o envelope.
Renato ficou pálido.
— Se ele ligar de novo, não fale com ele.
— Por quê?
— Só não fale.
— Esse homem ameaçou você?
— Não.
A resposta veio rápido demais.
Renato abriu a porta. Antes de sair, porém, olhou para Camila.
— Eu vou explicar tudo quando voltar.
— Você já disse isso outras vezes — ela respondeu baixinho.
Ele pareceu querer perguntar o que ela queria dizer, mas desistiu. Saiu e fechou a porta.
Durante alguns segundos, ouvimos apenas os carros passando pela rua molhada.
Camila finalmente se sentou.
Eu esperava perguntas. Em vez disso, ela começou a chorar em silêncio.
— Camila...
— Não é só o apartamento.
Sentei-me diante dela.
— O que você sabe?
Ela enxugou o rosto.
— Há quase seis meses, Renato começou a tirar dinheiro da nossa conta. Valores pequenos. Dois mil, três mil, às vezes cinco. Sempre dizia que era para despesas do trabalho. Depois parou.
— Você perguntou?
— Perguntei. Ele mostrou extratos de outra conta e disse que estava devolvendo tudo. Eu acreditei.
Camila abriu a bolsa e retirou um envelope dobrado.
— Ontem encontrei isso dentro do carro.
Ela colocou o papel sobre a mesa.
Era uma notificação de cobrança. O valor não era cento e oitenta mil.
Era muito maior.
R$ 347.600.
Li duas vezes.
— Isso não pode ser só do apartamento.
— Foi exatamente o que pensei.
Então notei uma linha no final da página. Havia referência a uma garantia vinculada à dívida.
Meu coração acelerou.
— Camila... onde está a segunda folha?
— Não tinha segunda folha.
Levantei-me e fui até o pequeno escritório que Renato usava. Abri a gaveta onde dias antes encontrara o envelope rasgado. Os papéis haviam desaparecido.
Todos.
Mas, quando empurrei a gaveta até o fundo, alguma coisa impediu que ela fechasse. Passei a mão por baixo e encontrei um documento dobrado, preso entre a madeira e o trilho.
Trouxe-o para a sala.
Camila ficou ao meu lado enquanto eu abria.
No alto havia o nome de uma empresa que eu nunca tinha visto. Mais abaixo, o nome de Renato.
E então apareceu o endereço usado como garantia.
Era o meu.
Minha rua.
Meu número.
Aquela casa.
Senti as pernas perderem força.
— Ele não podia fazer isso — Camila murmurou. — A casa é sua.
— Exatamente.
Continuei lendo até encontrar uma cópia de assinatura anexada ao documento.
Meu nome estava escrito ali.
Helena Duarte.
Mas eu jamais havia assinado aquele papel.
Camila levou a mão à boca.
Antes que qualquer uma de nós dissesse alguma coisa, meu celular tocou sobre a mesa.
Número desconhecido.
Atendi.
— Dona Helena?
A voz masculina era calma.
— Quem está falando?
Houve uma breve pausa.
— Marcelo. Acho que está na hora de a senhora saber por que Renato precisava que saísse dessa casa antes de sexta-feira.







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