Depois de um terrível acidente de carro, fui levada às pressas direto para o hospital. Meu marido entrou no meu quarto furioso.
— Já chega desse teatro! — gritou. — Levanta dessa cama. Eu não vou continuar jogando meu dinheiro fora com você!
Ele me agarrou e tentou me arrancar do colchão. Quando tentei resistir, mesmo sem forças, ele fechou os punhos e os acertou com violência contra a minha barriga.
O que aconteceu depois foi muito além de qualquer coisa que eu pudesse imaginar...
O quarto do hospital tinha cheiro de antisséptico, café velho e plástico de uma embalagem recém-aberta de ataduras. O monitor ao lado da minha cama continuava apitando num ritmo calmo, quase ofensivo, enquanto a lâmpada fluorescente acima de mim zumbia como um inseto preso.
Minhas duas pernas estavam imobilizadas em gesso, das coxas até os pés. Pareciam pesadas como concreto, e qualquer movimento mínimo fazia o lençol raspar nos hematomas das minhas costelas.
Três semanas antes, um carro em alta velocidade tinha transformado uma tarde comum em vidro quebrado, luzes de ambulância e uma ficha de internação marcada com o horário das 18h42.
Durante vinte e um dias, esperei que Carlos entrasse naquele quarto como meu marido.
Ele entrou como um homem vindo cobrar uma dívida.
— Para com esse drama, Renata — disparou ele, parado aos pés da minha cama. A camisa social estava perfeitamente passada, os sapatos brilhavam, e seu rosto estava tão duro que parecia deixar o quarto inteiro mais frio. — Levanta. Nós vamos embora.
Olhei para ele através da névoa dos remédios.
— Carlos, eu não consigo.
O maxilar dele travou.
— Nem começa.
— Minhas pernas estão quebradas.
— Eu ouvi os médicos. — Ele se inclinou por cima da grade da cama, perto o bastante para eu sentir o cheiro de chiclete de menta por baixo do perfume. — E também ouvi o pessoal da internação perguntando de novo sobre o pagamento. Estou cansado de jogar dinheiro fora nesse seu teatro.
Aquela palavra me atingiu com mais força do que o próprio acidente.
Teatro.
Eu não tinha fingido as costelas trincadas. Não tinha fingido os pontos escondidos sob meu cabelo. Não tinha fingido a pulseira do hospital apertando meu pulso inchado, nem o prontuário preso do lado de fora da porta com o nome Renata Almeida impresso em letras pretas.
Mas Carlos sempre foi muito bom em transformar a minha dor em um incômodo para ele.
Nós estávamos casados havia onze anos.
Eu tinha deixado meu emprego na contabilidade quando Helena ainda era pequena, porque Carlos dizia que nossa filha precisava de pelo menos um dos pais sempre presente em casa. Eu preparava o lanche da escola, atendia às ligações da secretaria, ia sozinha às reuniões de pais e mestres, pagava as contas na mesa da cozinha e aprendi quais silêncios mantinham nossa casa em paz.
Uma mulher pode confundir por muito tempo o esforço de manter a paz com amor.
Até que um dia ela para de se mexer, e todo mundo percebe que a tratava como se fosse parte da mobília.
— Eu abri mão de tudo por essa família — falei, quase mais baixo que o som do monitor. — Você é meu marido. Era para estar me ajudando.
Os olhos dele não ficaram mais gentis.
Ficaram estreitos.
— Ajudar você? — repetiu. — Você é um peso.
O quarto pareceu parar.
Não uma mulher machucada.
Não a esposa dele.
Não a mãe da filha dele.
Um peso.
Ele puxou primeiro o cobertor, arrancando-o de cima de mim como se pudesse levar embora o último pedaço da minha dignidade com uma única mão. Depois, seus dedos se fecharam com força ao redor do meu braço.
Tentei me apoiar no colchão, mas minhas mãos tremiam tanto que minha aliança bateu contra a grade metálica da cama.
— Carlos, para — sussurrei.
Ele puxou com mais força.
A dor atravessou minhas costelas e subiu direto para a garganta. Meus gessos arrastaram alguns centímetros sobre o lençol, e o ritmo do monitor mudou, ficando mais rápido, com pequenos alarmes agudos se acumulando uns sobre os outros.
— Sai dessa cama — ele rosnou. — Eu não vou pagar por uma esposa que nem consegue mais ser útil.
Alguma coisa quente e amarga cresceu dentro de mim.
Eu não dei um tapa nele.
Não gritei todas as frases que tinha engolido durante onze anos.
Não disse que tipo de homem fica fazendo conta de hospital enquanto a própria esposa está deitada diante dele sem conseguir ficar em pé.
Apenas segurei a grade com as duas mãos e disse:
— Não.
Por um segundo, Carlos pareceu chocado, como se a própria cama tivesse falado.
Então ele fechou os dois punhos e os golpeou com força contra a minha barriga.
A dor ficou branca.
Meu ar desapareceu.
Meu corpo inteiro se dobrou o máximo que os gessos permitiam, e o som que saiu de mim não parecia humano. Parecia alguém preso a dois quartos de distância.
O monitor disparou num alarme frenético.
Carlos se inclinou sobre mim, com o rosto vermelho, uma das mãos ainda torcida no cobertor e o outro punho já se erguendo de novo.
— Você não tem o direito de responder para mim desse jeito — disse ele. — Entendeu?
Olhei para além dele, em direção à porta do quarto.
O corredor do lado de fora estava iluminado, limpo e dolorosamente normal.
Em algum lugar, uma roda de carrinho rangia.
Perto do posto de enfermagem, alguém ria baixinho.
Em algum lugar, minha filha Helena provavelmente ainda acreditava que o pai tinha vindo ao hospital para saber como eu estava.
Mas dentro daquele quarto, a sombra de Carlos cobria a cama inteira.
A ficha de visitantes do lado de fora tinha o nome dele.
O prontuário tinha o meu.
E o monitor gritava por nós dois.
Então, exatamente no momento em que Carlos puxou o punho para trás mais uma vez, a maçaneta prateada da porta do meu quarto começou a girar...
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