Na sala de emergência, meu marido assinou primeiro o termo de consentimento para a amiga dele e disse ao médico: “Cuide dela primeiro. Minha esposa pode esperar.” Então, com a mão tremendo, assinei a autorização para a minha própria cirurgia, tirei a aliança depois de três anos de casamento e, quando ele voltou cinco horas atrasado, uma carta de um advogado já estava esperando por ele.
PARTE 1
“Se tiver que escolher, doutor, opere a Mariana primeiro. Minha esposa pode esperar.”
Essas foram as últimas palavras que ouvi antes de perceber que meu casamento não tinha se despedaçado naquele acidente. Ele já estava quebrado havia muito tempo.
O acidente aconteceu numa sexta-feira à tarde, na Marginal Pinheiros, quando voltávamos de um almoço em família no Morumbi, em São Paulo. Alexandre Monteiro estava dirigindo. Mariana Lemos, amiga dele desde a infância, estava sentada ao lado, chorando porque dizia estar sentindo tontura. Eu estava no banco de trás, apertando a bolsa contra o peito, ainda engasgada com a discussão que não tínhamos terminado.
Um caminhão freou de repente. Nosso carro bateu com força. Depois disso, tudo virou metal retorcido, vidro quebrado e o cheiro forte de combustível.
No hospital, na região de Pinheiros, Mariana e eu demos entrada praticamente ao mesmo tempo. Ela foi colocada numa maca perto das portas do pronto-socorro. Eu fiquei em outra, com a perna direita gravemente machucada e uma dor profunda no abdômen que fazia minha visão ficar turva.
Uma enfermeira gritou:
“A pressão da senhora Sofia está caindo! Precisamos de uma sala de cirurgia!”
Procurei Alexandre com os olhos. Ele estava a poucos passos de distância, com a camisa manchada, assinando um documento com a mão trêmula.
“Levem a Mariana primeiro”, disse ele ao médico. “Ela sempre foi frágil. Tem histórico de problema cardíaco. Ela não pode esperar.”
A enfermeira se virou para ele.
“Senhor Monteiro, sua esposa está em estado mais grave. Precisamos da autorização para operá-la.”
Alexandre olhou para mim por apenas um segundo. Não vi medo nos olhos dele. Vi irritação.
“Ela está consciente, não está? Então deixa ela assinar. A Mariana vai primeiro.”
Alguma coisa dentro de mim ficou em silêncio.
Estávamos casados havia três anos. Três anos aprendendo a não reclamar, a não questionar, a não perguntar por que Mariana sempre vinha em primeiro lugar. Se Mariana estava com dor de cabeça, Alexandre cancelava compromissos. Se ela brigava com o namorado, ele saía de casa no meio da madrugada. Se ela dizia: “A Sofia me olhou de um jeito estranho”, Alexandre me ignorava até que eu pedisse desculpas.
A mãe dele, dona Teresa, sempre dizia a mesma coisa.
“Minha querida, a esposa de um Monteiro precisa ter maturidade. Mariana é praticamente da família. Não fique com ciúme.”
Mas, deitada naquela maca, com sangue escorrendo pela minha mão e um médico pressionando meu abdômen, finalmente entendi. Ter “maturidade” significava desaparecer.
O doutor Ricardo se inclinou sobre mim.
“Senhora Sofia, precisamos da sua assinatura. É uma cirurgia de emergência.”
Minha mão direita não se mexia. Com a esquerda, peguei a caneta. A enfermeira tentou me ajudar, mas balancei a cabeça. Eu queria fazer aquilo sozinha. Se meu marido não era capaz de assinar um papel para salvar minha vida, então eu mesma faria isso.
Meu nome saiu torto.
Sofia Ribeiro.
Antes de me levarem para a cirurgia, ouvi Mariana falando na outra sala.
“Alê, vai ficar com a Sofia… Eu não quero que ela fique brava comigo.”
A voz dela parecia fraca, mas eu a conhecia. Mariana sempre soube dizer a coisa certa e parecer inocente.
Alexandre respondeu baixinho:
“Não fala. Você é o que importa agora.”
Tive vontade de rir, mas a dor roubou meu fôlego.
Quando as luzes da sala de cirurgia se acenderam sobre mim, levantei a mão esquerda e toquei minha aliança. Ela estava presa por causa do sangue seco. Puxei até meu dedo doer.
A enfermeira se assustou.
“Senhora, o que está fazendo?”
Coloquei a aliança sobre a bandeja de metal.
“Guarde isso”, sussurrei.
“É importante?”
Olhei para aquele círculo frio, símbolo de uma vida em que eu sempre havia ficado em segundo lugar.
“Não mais.”
A anestesia me envolveu como uma onda escura. A última coisa que ouvi foi alguém do lado de fora dizendo:
“A senhorita Mariana está estável.”
Então ouvi a voz aliviada de Alexandre:
“Graças a Deus.”
Afundei na escuridão com um único pensamento muito claro.
Se eu sobrevivesse, nunca mais esperaria que ele me escolhesse.
Quando acordei, o quarto estava vazio. Nenhuma flor. Nenhum familiar. Nenhum marido. Apenas o som dos aparelhos e uma dor tão forte que me fez chorar em silêncio.
O doutor Ricardo me explicou que a cirurgia tinha corrido bem, mas que minha recuperação seria longa. Minha perna havia sido gravemente lesionada, eu tivera uma hemorragia interna e ainda havia risco de infecção. Talvez precisasse passar por outra cirurgia.
“E a Mariana?”, perguntei, embora já soubesse a resposta.
“Concussão leve e alguns hematomas superficiais. Ela está estável.”
Fechei os olhos.
“O Alexandre veio aqui?”
A enfermeira abaixou os olhos. O médico foi mais sincero.
“Não. Ele está com a senhorita Lemos.”
Entregaram meu celular. A tela estava rachada, mas ainda funcionava. Não havia nenhuma ligação de Alexandre. Em vez disso, havia cinco mensagens de voz de dona Teresa.
A primeira dizia:
“Sofia, quando acordar, vá ver a Mariana. Coitada, ela está traumatizada. Não torne as coisas ainda mais difíceis para o Alexandre.”
A segunda dizia:
“Não faça escândalo só porque ele assinou primeiro pela Mariana. Você sabe que ela é frágil.”
A terceira foi pior.
“Uma esposa decente não compete com uma mulher doente. Saiba se comportar.”
Desliguei o celular e fiquei olhando para o teto.
Eu quase tinha morrido e, de alguma forma, para eles, o verdadeiro problema era a minha atitude.
Respirei fundo e liguei para a única pessoa que ainda poderia me ajudar a escapar daquela família: Clara, a melhor amiga da minha mãe, que morava em Belo Horizonte e administrava uma clínica de reabilitação.
Quando ela atendeu, eu mal conseguia falar.
“Clara… eu quero ir embora.”
Ela não fez nenhuma pergunta.
“Me mande seus prontuários. Vou tirar você daí ainda hoje.”
Naquela tarde, assinei os documentos da minha transferência. Mais uma vez com a mão esquerda. Mais uma vez sozinha.
Quando a equipe médica chegou para me levar, Artur, assistente de Alexandre, entrou no quarto.
“Senhora Monteiro, o senhor Alexandre me pediu para vir saber se a senhora já tinha acordado.”
“Sofia Ribeiro”, corrigi. “Diga a ele que eu cansei de esperar.”
Peguei a aliança de uma pequena sacola e a coloquei na mão dele.
“Entregue isso a ele.”
Artur empalideceu.
“Senhora…”
“Se você não pegar, eu jogo fora.”
Começaram a empurrar minha maca pelo corredor. Quando passamos pelo quarto de Mariana, ouvi o choro dela.
“Alê, a Sofia está brava comigo?”
Alexandre respondeu:
“Ela entende. Descansa.”
A maca continuou avançando. Pela porta entreaberta, vi as costas dele. As mesmas costas que eu tinha visto no meu casamento, dentro da minha casa e durante todo o meu casamento.
Quando as portas do elevador se fecharam, meu celular vibrou.
Era Alexandre.
“Você acordou. Vai ver a Mariana. Ela não para de chorar.”
Bloqueei o número dele.
Eu não fazia ideia do que estava prestes a acontecer depois…







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