Por alguns segundos, ninguém na mesa pareceu saber o que dizer. O barulho dos talheres no restaurante tinha desaparecido da minha percepção, assim como a música baixa, as conversas nas mesas vizinhas e até o garçom que passou atrás de Marcelo carregando uma bandeja com taças. Eu só conseguia olhar para ele. Três meses. Durante três meses, meu marido acordava comigo, tomava café, reclamava do trânsito, colocava a pasta de couro debaixo do braço e saía de casa exatamente às sete e quarenta, como fazia desde que eu o conhecia. Às vezes mandava mensagem perto do almoço dizendo que estava numa reunião. Outras vezes chegava às nove da noite, afrouxava a gravata e dizia que o dia tinha sido infernal. E nada daquilo era verdade.
— Onde você estava? — perguntei.
Marcelo não respondeu imediatamente. Sentou-se outra vez, devagar, como se precisasse recuperar o controle da situação. O rosto dele ainda mostrava irritação, mas agora havia outra coisa ali. Medo.
— Isso não tem relação com o nosso casamento.
Soltei uma risada curta, sem humor.
— Você fingiu ir trabalhar durante três meses e está me entregando papéis de divórcio no aniversário da sua mãe. Claro que tem relação.
Célia mexeu no guardanapo sobre o colo.
— Fernanda, talvez vocês devam conversar em casa.
Olhei para ela.
— Engraçado. Quando seu filho decidiu me humilhar na frente da família inteira, você achou que era o momento perfeito. Agora que começam as perguntas, quer privacidade?
Ela desviou o olhar.
Aquilo me disse mais do que qualquer resposta.
Marcelo passou a mão pelo rosto.
— Eu ia contar tudo.
— Quando?
— Quando fosse a hora certa.
— Depois que eu assinasse?
Ele não respondeu.
Leandro baixou a cabeça. Eu percebi imediatamente.
— Você sabe mais.
— Fernanda...
— Você veio até mim dois dias atrás e perguntou se Marcelo estava estranho. Você não fez isso por acaso.
Marcelo virou-se para o irmão.
— O que exatamente você contou para ela?
Leandro ergueu os olhos.
— Ainda quase nada.
— Quase?
A voz de Marcelo subiu. Algumas pessoas nas mesas próximas começaram a olhar.
Leandro apertou os lábios.
— Eu vi você.
Marcelo congelou.
Foi uma mudança quase imperceptível, mas eu conhecia aquele homem havia onze anos. Conhecia a maneira como ele respirava quando estava mentindo. Conhecia o pequeno movimento que fazia com o maxilar quando estava tentando controlar o pânico.
— Onde? — perguntei.
Leandro olhou primeiro para mim, depois para o irmão.
— Num prédio comercial na Avenida Paulista.
Meu coração acelerou.
Marcelo morava praticamente no outro extremo da cidade quando se tratava da empresa onde trabalhava. Não havia motivo profissional para estar ali todos os dias.
— Quando?
— Algumas semanas atrás. Eu estava saindo de uma reunião e vi o carro dele entrando no estacionamento. Achei estranho. Depois vi de novo.
— Você estava me seguindo? — Marcelo perguntou.
— Não no começo.
A última palavra fez Célia fechar os olhos.
Eu virei para ela.
— Você também sabe sobre esse prédio?
— Não coloque minha mãe nisso! — Marcelo bateu a mão na mesa.
Dessa vez, várias pessoas olharam diretamente para nós.
Eu nem me mexi.
— Então para de protegê-la como se ela tivesse alguma coisa a esconder.
Célia se levantou.
— Eu não vou ficar aqui sendo interrogada.
— Senta, mãe — disse Leandro.
Ela o encarou, surpresa.
Nunca tinha ouvido Leandro falar daquela forma com ela.
Ele sempre fora o filho tranquilo. O que evitava brigas. O que mudava de assunto durante discussões familiares. Mas naquele momento sua expressão estava diferente.
— Já foi longe demais — continuou. — Ela tem direito de saber.
Marcelo ficou pálido.
— Leandro.
— Você queria que ela assinasse hoje sem explicar nada.
— Porque nosso casamento acabou.
— Não foi isso que você me disse.
Senti meu estômago se contrair.
— O que ele disse?
Leandro hesitou.
Marcelo se levantou outra vez.
— Se você abrir a boca, vai se arrepender.
A ameaça saiu baixa.
Calma.
E foi justamente por isso que me assustou mais.
Leandro também se levantou.
— Está vendo? É exatamente por isso que eu procurei a Fernanda.
Célia entrou entre os dois.
— Chega!
O restaurante inteiro parecia ter ficado pequeno demais.
Eu peguei os papéis do divórcio e folheei as primeiras páginas. Não entendia todos os termos jurídicos, mas havia algo que chamou minha atenção.
Uma data.
O documento tinha sido preparado quase um mês antes.
Marcelo vinha planejando aquilo.
Fechei a pasta.
— Não vou assinar.
— Fernanda...
— Não antes de entender o que está acontecendo.
Marcelo respirou fundo.
— Você está tornando isso mais difícil do que precisa.
— Não. Você tornou.
Levantei da cadeira.
Ele tentou pegar meu braço, mas recuei antes que me tocasse.
— Onde você vai?
— Descobrir o que meu marido tem feito há três meses.
Foi então que Leandro disse:
— Eu posso mostrar.
Marcelo virou-se para ele tão rápido que a cadeira atrás dele caiu.
— Não.
Leandro continuou olhando para mim.
— Eu tirei fotos.
O silêncio que veio depois foi diferente de todos os anteriores.
Célia ficou imóvel.
Marcelo não parecia mais irritado.
Parecia derrotado.
Leandro pegou o celular no bolso e desbloqueou a tela.
— Eu comecei a seguir o Marcelo depois da segunda vez que vi o carro dele naquele prédio.
Aproximei-me.
Ele abriu uma pasta de fotografias.
A primeira mostrava Marcelo entrando num edifício moderno de vidro.
A segunda mostrava o carro dele estacionado no mesmo lugar em outro dia.
A terceira fez minha respiração parar.
Marcelo estava saindo do prédio acompanhado de uma mulher.
Alta. Cabelos castanhos presos num coque. Elegante.
Ela segurava uma pasta de documentos.
Meu primeiro pensamento foi o óbvio.
Outra mulher.
Talvez aquela fosse toda a explicação.
Mas então Leandro deslizou para a fotografia seguinte.
A mulher entregava algo a Marcelo.
Um envelope.
Na imagem seguinte, ele estava assinando um documento sobre o capô do carro.
— Quem é ela? — perguntei.
Marcelo não respondeu.
— Eu descobri o nome — disse Leandro.
Célia segurou o braço dele.
— Não.
Leandro se soltou.
— Patrícia Menezes.
O nome não significava nada para mim.
Ainda.
— Quem é?
Leandro olhou para Marcelo antes de responder.
— Uma advogada especializada em reestruturação patrimonial.
Meu corpo ficou frio.
Olhei novamente para os papéis do divórcio.
Depois para Marcelo.
— Patrimônio de quem?
Ele permaneceu em silêncio.
Foi nesse momento que percebi outra coisa.
Nos documentos diante de mim havia uma cláusula mencionando uma empresa que eu nunca tinha ouvido falar: MCR Participações.
Apontei para o nome.
— O que é isso?
Marcelo arrancou os papéis da minha mão.
Rápido demais.
— Nada que diga respeito a você.
Foi o maior erro que ele poderia ter cometido.
Porque Leandro viu.
Eu vi.
E Célia também.
Meu cunhado ficou pálido.
— Marcelo... você colocou a empresa nos documentos?
Meu marido encarou o irmão.
— Cala a boca.
— Que empresa? — perguntei.
Leandro respirou fundo.
— Foi criada há dois meses.
Dois meses.
Um mês depois de Marcelo perder o emprego.
Meu coração começou a bater tão forte que senti a pulsação no pescoço.
— E de onde veio o dinheiro dessa empresa?
Leandro demorou alguns segundos para responder.
— É isso que eu ainda não consegui descobrir.
Marcelo pegou a pasta, colocou os documentos dentro e começou a sair.
— Acabou.
— Não acabou — eu disse.
Ele parou.
Virei para ele.
— Você passou três meses mentindo para mim. Criou uma empresa sem me contar. Contratou uma advogada especializada em patrimônio. E agora quer o divórcio com urgência.
Marcelo ficou de costas para mim.
— Algumas coisas são melhores quando você não sabe.
A frase me atingiu como um golpe.
Ele saiu do restaurante.
Célia foi atrás dele.
Eu fiquei parada, tentando entender o que acabara de ouvir.
Então Leandro tocou meu braço.
— Fernanda.
Olhei para ele.
A expressão dele tinha mudado outra vez.
— Tem mais uma coisa.
Ele abriu uma fotografia tirada de longe, aparentemente através do para-brisa do carro.
Marcelo estava diante de uma agência bancária.
Ao lado dele estava Patrícia.
Mas havia uma terceira pessoa na imagem.
Um homem mais velho de terno cinza.
— Quem é ele?
Leandro ampliou a fotografia.
— Não sei.
Olhei com atenção.
Havia algo familiar naquele rosto.
Demorei alguns segundos até lembrar.
Eu já tinha visto aquele homem.
Não pessoalmente.
Numa fotografia antiga guardada numa caixa na casa da minha mãe.
Era o advogado que cuidara do inventário do meu pai depois da morte dele, sete anos antes.
E naquele instante eu entendi que talvez o dinheiro escondido por Marcelo não tivesse começado quando ele perdeu o emprego.
Talvez tivesse começado comigo.







No comments yet