Mariana percebeu a mudança no rosto de Sônia antes mesmo de olhar novamente para a fotografia. A mulher, que durante anos havia conseguido manter uma postura impecável diante de qualquer situação, agora parecia ter envelhecido dez anos em poucos segundos. Seus dedos apertavam a borda da mesa com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Renato continuava parado diante das portas de vidro, olhando para os investigadores como se ainda estivesse tentando convencer a si mesmo de que aquilo era apenas um pesadelo do qual acordaria em alguns segundos. Camila, por outro lado, tinha parado de respirar normalmente. O celular que ela segurava tremia entre seus dedos.
— O que significa isso? — Mariana perguntou, sem tirar os olhos de Sônia.
Sônia não respondeu.
Mariana pegou a fotografia e virou-a novamente. Era uma imagem antiga, ligeiramente desbotada. Nela aparecia Sônia muito mais jovem, entrando em um prédio que Mariana reconheceu imediatamente. Era a antiga sede da empresa de seu pai, muitos anos antes de ela própria assumir os negócios da família. Ao lado de Sônia havia um homem que Mariana não conhecia.
— Quem é ele?
Sônia finalmente levantou os olhos.
— Você não deveria ter encontrado essa foto.
A resposta fez o estômago de Mariana se contrair. Não era uma negação. Era uma confirmação.
O advogado de Mariana, Dr. Augusto, aproximou-se calmamente da mesa e recolheu alguns documentos.
— Senhora Sônia, acredito que será melhor responder às perguntas quando estivermos em um ambiente apropriado.
— Você não sabe do que está falando — ela respondeu, recuperando parte da arrogância. — Isso tudo é uma armação.
Um dos investigadores abriu uma pasta.
— Temos extratos bancários, notas fiscais falsas, registros de transferência, imagens das câmeras internas e depoimentos. Não estamos aqui por causa de uma fotografia.
Renato finalmente se virou.
— Mariana, podemos conversar.
Ela quase riu.
— Conversar?
— Eu estava nervoso. Eu errei. O tapa...
— Não termine essa frase.
A firmeza de Mariana fez Renato parar.
— Você sempre faz isso — ela continuou. — Machuca alguém e depois tenta transformar o que fez em um acidente, em nervosismo, em um momento de raiva. Durante anos eu aceitei essas desculpas.
Ela tocou o canto da boca, onde ainda havia uma pequena marca do tapa.
— Hoje foi a última vez.
Renato baixou a cabeça por um instante. Então olhou para a antiga assistente de Mariana.
— Elisa, você sabe que está destruindo sua própria vida, não sabe?
Elisa empalideceu, mas não recuou.
— Foi exatamente isso que você me disse quando descobri as transferências.
Mariana olhou para ela.
— Transferências?
Elisa abriu a pasta que carregava e retirou algumas folhas.
— Eu encontrei os primeiros documentos há três anos. O dinheiro saía da empresa por meio de contratos falsos e acabava em duas contas diferentes. Uma estava ligada à empresa de fachada da Camila. A outra...
Ela parou.
Mariana sentiu o coração acelerar.
— A outra o quê?
Elisa olhou para Sônia.
— A outra estava no nome de uma pessoa que eu nunca tinha visto.
Sônia fechou os olhos.
Renato imediatamente interveio.
— Isso não significa nada.
— Então por que você me ameaçou quando eu perguntei? — Elisa rebateu.
O investigador tomou os documentos das mãos dela.
— Já verificamos essas contas. Há mais de uma década de movimentações suspeitas.
Mariana sentiu um frio percorrer as costas. Ela havia acreditado que estava descobrindo uma rede criada por Renato, Sônia e Camila nos últimos anos. De repente, percebeu que talvez tivesse cometido um erro ao imaginar que eles eram os responsáveis originais.
Talvez fossem apenas os últimos envolvidos.
Mariana voltou a olhar para a fotografia.
— Sônia, quem é o homem?
A sogra permaneceu em silêncio.
— Quem é ele?
— Meu irmão.
Mariana franziu a testa.
— Você nunca mencionou ter um irmão.
Sônia soltou uma risada fraca, amarga.
— Porque ele morreu.
— Quando?
— Vinte e dois anos atrás.
O investigador imediatamente anotou alguma coisa.
Mariana sentiu uma sensação estranha. Havia algo naquela resposta que não combinava.
— Então por que a fotografia diz “Seu marido não foi o primeiro”?
Sônia olhou diretamente para Mariana.
Dessa vez, não havia arrogância em seus olhos.
Havia medo.
— Porque Renato não foi o primeiro homem da nossa família a fazer isso.
A sala inteira ficou imóvel.
Camila levantou-se.
— Mãe, chega.
— Não! — Sônia respondeu, pela primeira vez gritando. — Você não entende. Ela precisa saber.
Renato ficou pálido.
— Mãe, cale a boca.
Mariana virou-se lentamente para ele.
— O que eu preciso saber?
Sônia respirou fundo.
— Seu pai não morreu como você pensa.
Mariana sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.
Seu pai havia morrido quando ela tinha dezenove anos. Pelo menos era isso que sempre lhe contaram. Um acidente de carro em uma estrada molhada. A família havia mostrado documentos, fotografias e até um relatório policial. Durante anos, aquela história nunca havia sido questionada.
— Não — Mariana murmurou. — Meu pai morreu em um acidente.
— Foi o que disseram.
— Quem disse?
Sônia não respondeu.
Mariana olhou para o advogado.
Dr. Augusto estava imóvel.
— O senhor sabia disso?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Eu suspeitava.
Mariana sentiu uma onda de indignação.
— Suspeitava?
— Seu pai deixou alguns documentos comigo muitos anos atrás. Eu não tinha provas suficientes para acusar ninguém.
— E nunca me contou?
— Porque você era jovem e porque havia pessoas que eu acreditava serem perigosas.
Mariana olhou para Sônia.
— Pessoas como você?
Sônia abaixou a cabeça.
— Pessoas como meu marido.
O silêncio que veio depois foi ainda mais pesado.
Sônia contou que, antes de se casar com o pai de Renato, havia se envolvido com um grupo que movimentava dinheiro por meio de empresas falsas. O irmão dela participava do esquema. Quando tentou sair, desapareceu. Pouco tempo depois, o pai de Mariana descobriu parte das operações e ameaçou denunciar todos.
— E então ele morreu? — Mariana perguntou.
Sônia não respondeu diretamente.
— Depois da morte dele, alguém assumiu as dívidas e os negócios que ele deixou. Seu marido entrou nessa estrutura anos depois. Mas Renato não sabia de tudo.
Mariana olhou para Renato.
— O que você sabia?
Ele parecia destruído.
— Eu sabia que havia dinheiro sendo movimentado. Sabia que minha mãe fazia algumas coisas que não eram legais. Mas eu não sabia sobre seu pai.
— Você sabia das agressões?
Renato baixou os olhos.
— Sim.
A resposta saiu quase inaudível.
Mariana sentiu lágrimas queimando seus olhos, mas não permitiu que caíssem.
— Então você sabia de tudo que eu precisava saber para me destruir e escolheu ficar calado.
Renato abriu a boca, mas não encontrou palavras.
Nesse momento, um dos investigadores recebeu uma ligação. Ele ouviu em silêncio durante alguns segundos e então olhou para Dr. Augusto.
— Encontramos outra coisa.
Mariana sentiu o coração acelerar.
— O quê?
O investigador colocou o telefone sobre a mesa.
— Há um compartimento secreto registrado na antiga propriedade do seu pai. A equipe encontrou documentos escondidos atrás de uma parede falsa.
Dr. Augusto empalideceu.
— Eles conseguiram abrir?
— Sim.
— E o que havia dentro?
O investigador olhou para Mariana.
— Uma gravação em vídeo.
Mariana ficou imóvel.
— De quando?
— Da noite do acidente.
Sônia começou a chorar.
Camila cobriu a boca com as mãos.
E Renato, pela primeira vez desde que os policiais haviam entrado, pareceu genuinamente apavorado.
Mariana percebeu.
Não era medo de ser preso.
Era medo de que ela finalmente descobrisse quem havia realmente matado a única pessoa que, segundo ele, sempre estivera morta por acidente.
O investigador retirou um pequeno dispositivo da pasta.
— A gravação mostra quem estava dentro do carro naquela noite.
Mariana estendeu a mão.
Mas antes que pudesse tocar no dispositivo, o celular de Renato vibrou sobre a mesa.
Uma única mensagem apareceu na tela.
**“Você prometeu que nunca deixaria Mariana descobrir a verdade.”**
Mariana leu.
Renato tentou pegar o aparelho.
Ela foi mais rápida.
E, antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa, chegou uma segunda mensagem.
**“Se ela viu a gravação, então você precisa contar a ela quem estava dirigindo.”**







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