Dr. Augusto não respondeu. O silêncio dele foi mais perturbador do que qualquer confissão. Mariana continuou segurando a fotografia, esperando que ele dissesse alguma coisa que tornasse aquilo menos absurdo. Talvez uma explicação simples. Talvez fosse outro homem. Talvez a fotografia tivesse sido tirada em uma data diferente da que ela imaginava. Mas o rosto era inconfundível. Era ele, muito mais jovem, parado alguns metros atrás de seu pai e de sua mãe, usando o mesmo olhar sério que Mariana conhecia havia anos.
— Eu quero uma resposta — disse ela.
Dr. Augusto desviou os olhos para a mãe de Mariana.
— Você prometeu que nunca contaria.
A mulher fechou os olhos.
— Eu não contei. Ela encontrou sozinha.
Mariana sentiu uma pontada no peito.
— Encontrou o quê?
O advogado respirou profundamente.
— Seu pai me procurou antes do acidente.
— Você já disse isso.
— Não. Eu disse que conhecia seu pai. É diferente.
Ele aproximou-se lentamente da mesa de arquivos.
— Naquela época, eu não era advogado. Eu trabalhava para uma empresa de auditoria contratada para investigar movimentações financeiras de um grupo de empresários. Seu pai descobriu que algumas contas estavam sendo usadas para desviar dinheiro e lavar valores através de empresas aparentemente legítimas.
Mariana apertou a fotografia.
— E a família de Renato estava envolvida.
— Sim.
— Então por que você passou vinte e dois anos fingindo que não sabia de nada?
Dr. Augusto abaixou a cabeça.
— Porque seu pai me pediu.
Mariana ficou imóvel.
— Pediu para você mentir para mim?
— Pediu para eu proteger você.
A mãe de Mariana se aproximou.
— Seu pai sabia que, se os documentos fossem encontrados, você seria usada como pressão contra ele.
— E vocês acharam que me esconder a verdade seria melhor?
— Naquela época, você tinha oito anos.
— Eu tinha oito anos quando você desapareceu — disse Mariana, olhando para a mãe. — Eu tinha dezenove quando meu pai morreu. Depois me casei com Renato. E durante todos esses anos vocês continuaram decidindo o que eu podia ou não saber.
Sua mãe chorava em silêncio.
— Eu errei.
Mariana respirou fundo.
— Todos vocês erraram.
Ela voltou os olhos para a caixa.
— Mas alguma coisa ainda não faz sentido.
Retirou o gravador antigo.
— Por que meu pai deixou isso aqui?
Dr. Augusto ficou tenso.
— Porque ele sabia que talvez não tivesse outra oportunidade.
Mariana apertou o botão.
O aparelho chiou durante alguns segundos. Depois, uma voz masculina preencheu o pequeno depósito.
A voz de seu pai.
Mariana levou a mão à boca.
— Se você está ouvindo isso, significa que alguma coisa aconteceu comigo.
A gravação continuou.
— Eu não sei em quem confiar. Nem mesmo nas pessoas que estão próximas de mim. Mas existe uma coisa que preciso deixar clara: os desvios não começaram com Sônia, nem com Renato. Eles começaram muito antes.
Mariana olhou para a mãe.
A voz prosseguiu:
— Existe uma pessoa que está usando todos eles como peças. Essa pessoa conhece meus negócios, conhece minha família e sabe exatamente como destruir qualquer testemunha. Se eu desaparecer, não procure apenas pelos documentos financeiros. Procure pelo nome que está escondido atrás de todas as empresas.
A gravação fez uma pausa.
Então veio a frase que mudou completamente a expressão de Dr. Augusto.
— O nome é Alberto Vasconcelos.
O advogado ficou branco.
Mariana desligou o aparelho.
— Quem é Alberto Vasconcelos?
Dr. Augusto não respondeu.
— Quem é ele?
— Um empresário.
— Só isso?
— Não.
— Então fale.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Alberto era o homem que financiava as empresas usadas pelo grupo.
A mãe de Mariana interrompeu:
— Não era apenas isso.
Mariana virou-se para ela.
— O que você sabe?
A mulher respirou fundo.
— Alberto era o homem com quem seu pai estava negociando quando descobriu os desvios.
Mariana sentiu um arrepio.
— E onde ele está agora?
Dr. Augusto respondeu:
— Morto.
— Quando?
— Há sete anos.
Mariana estreitou os olhos.
— Então por que meu pai fala dele como se ainda estivesse vivo?
Ninguém respondeu.
Foi então que o telefone de Dr. Augusto tocou.
Ele olhou para a tela e não atendeu.
Mariana percebeu.
— Quem é?
— Número desconhecido.
— Atenda.
— Não.
— Atenda.
Dr. Augusto hesitou, mas finalmente colocou o telefone no viva-voz.
Uma voz masculina surgiu do outro lado.
— Você demorou, Augusto.
O rosto do advogado perdeu completamente a cor.
Mariana aproximou-se.
— Quem está falando?
A voz riu.
— Então Mariana finalmente está ouvindo.
Sua mãe levou a mão ao peito.
— Não...
Mariana sentiu o sangue gelar.
— Quem é você?
— Alguém que seu pai tentou destruir.
— Alberto?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Alberto está morto.
Mariana olhou para Dr. Augusto.
— Então quem é você?
A voz respondeu calmamente:
— O filho dele.
O telefone ficou em silêncio.
Então a voz acrescentou:
— E tenho algo que pertence à sua família.
A ligação caiu.
Mariana ficou olhando para o aparelho.
— O que ele quis dizer?
Dr. Augusto não respondeu.
Sua mãe, porém, começou a chorar.
— O que ele tem? — Mariana perguntou.
— Seu irmão.
Mariana congelou.
— Meu irmão?
A mãe levou alguns segundos para conseguir falar.
— Você não era filha única.
A frase atingiu Mariana como um golpe.
— Eu tinha um irmão?
— Tinha.
— Onde ele está?
A mãe olhou para o chão.
— Foi levado quando você tinha oito anos.
Mariana ficou sem voz.
— Por quem?
A mulher levantou os olhos.
— Pela mesma pessoa que fez todos nós acreditarmos que ele estava morto.
Antes que Mariana pudesse perguntar mais alguma coisa, ouviu-se um barulho vindo do corredor do arquivo.
Passos.
Lentos.
Aproximando-se.
Dr. Augusto imediatamente apagou a luz.
— Não faça barulho.
Mariana segurou a mão da mãe.
Os passos pararam diante da porta.
Uma sombra apareceu sob a fresta.
Então alguém colocou um envelope no chão.
A pessoa do outro lado não entrou.
Apenas disse:
— Mariana, abra quando estiver sozinha.
Os passos começaram a se afastar.
Dr. Augusto correu até a porta, mas quando a abriu, o corredor estava vazio.
Mariana pegou o envelope.
Havia uma fotografia dentro.
Ela abriu.
Era uma criança de aproximadamente oito anos, sentada em uma cama de hospital.
No verso havia uma data.
A mesma data em que Mariana acreditava que seu irmão havia morrido.
Mas, abaixo dela, alguém escrevera uma única frase:
**“Ele sobreviveu.”**
Mariana levantou os olhos para a mãe.
E, pela expressão daquela mulher, percebeu que ainda havia uma parte daquela história que ela não tinha coragem de contar.







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