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Meu Marido Me Deu Um Tapa Pelo Jantar Atrasado — Então Eu Servi A Verdade Em Uma Bandeja De Prata

Mariana não disse nada por alguns segundos. Continuou olhando para a fotografia, para o menino sentado naquela cama de hospital, tentando encontrar naquele rosto alguma coisa que pudesse confirmar o impossível. O cabelo escuro, os olhos grandes, a pequena cicatriz acima da sobrancelha esquerda. Então ela percebeu. A mão direita do menino segurava um pequeno carrinho de madeira. Mariana conhecia aquele brinquedo. Tinha sido dela. Quando eram crianças, ela costumava dividir tudo com o irmão, inclusive aquele carrinho, que seu pai havia trazido de uma viagem. Ela se lembrava de ter chorado quando o perdera. Sua mãe dissera que provavelmente tinha sido jogado fora.

— Qual era o nome dele? — perguntou Mariana, quase sem voz.

Sua mãe fechou os olhos.

— Gabriel.

Mariana sentiu as pernas enfraquecerem.

— Gabriel...

O nome parecia estranho e familiar ao mesmo tempo, como uma palavra esquecida em algum lugar profundo da memória. Ela se sentou na cadeira mais próxima.

— Por que vocês disseram que ele morreu?

A mãe começou a chorar.

— Porque foi isso que fizeram todos acreditarem.


— Quem?

— Alberto.

Mariana olhou para Dr. Augusto.

— O filho dele disse que Alberto está morto.

— Está — respondeu o advogado.

— Então como ele fez isso?

Dr. Augusto hesitou.

— Alberto morreu há sete anos. Mas o que ele construiu continuou funcionando depois da morte dele.

Mariana levantou os olhos.

— Uma organização?


— Mais do que isso. Uma rede de pessoas que tinham dinheiro, influência e informações suficientes para manipular empresas, documentos e até testemunhas.

Sua mãe apertou os próprios braços.

— Quando seu pai descobriu o esquema, tentou sair. Quando percebeu que não conseguiria, decidiu proteger vocês dois.

— Mas Gabriel foi levado.

— Sim.

— E eu?

A mãe respirou fundo.

— Você ficou porque seu pai conseguiu esconder sua existência naquele momento. Eles acreditavam que você havia sido mandada para outra cidade com parentes. Gabriel estava conosco quando aconteceu.

Mariana sentiu as lágrimas escorrerem.

— Eu me lembro de uma noite.


Sua mãe a encarou.

— O que você lembra?

— Uma porta batendo. Você gritando. Meu pai dizendo para eu não sair do quarto.

Ela apertou as têmporas.

— Depois ouvi um carro.

A mãe cobriu o rosto.

— Eu tentei voltar para buscá-lo.

— Mas não voltou.

— Eu fui impedida.

— Por quem?


A mulher levantou os olhos.

— Pelo pai de Renato.

Mariana ficou imóvel.

Tudo começava a se conectar.

O homem que aparecia na fotografia. O acidente. A fuga da mãe. O desaparecimento de Gabriel. Os desvios financeiros. Renato.

Mas ainda faltava uma peça.

— E Renato?

Sua mãe demorou a responder.

— Renato sabia que Gabriel existia.

Mariana sentiu um vazio no estômago.


— Desde quando?

— Desde aquela noite.

A porta do arquivo se abriu novamente. Um dos investigadores apareceu.

— Desculpem interromper, mas encontramos algo no veículo de Camila.

Mariana levantou-se imediatamente.

— O quê?

— Um gravador.

Ele entregou um pequeno aparelho.

— Estava escondido sob o banco.

Mariana apertou o botão.


A voz de Camila surgiu, trêmula.

— Eu não quero continuar fazendo isso.

Outra voz respondeu:

— Você já está envolvida demais.

Mariana reconheceu imediatamente.

Era Renato.

— Meu irmão está preso — disse Camila na gravação. — Minha mãe está prestes a ser presa. E você ainda quer que eu vá atrás do cofre?

— Se o cofre for aberto, todos nós estamos acabados.

— E Mariana?

Houve um longo silêncio.


Então Renato respondeu:

— Mariana não pode descobrir quem colocou Gabriel naquele hospital.

A gravação terminou.

Mariana ficou olhando para o aparelho.

— Hospital.

O investigador assentiu.

— Já estamos verificando registros antigos.

Dr. Augusto pegou o telefone.

— Não precisamos verificar.

Todos olharam para ele.


— Eu sei onde ele esteve.

Mariana aproximou-se.

— Onde?

— Hospital Santa Clara.

— Ele está lá?

— Não. O hospital foi fechado há onze anos.

Mariana sentiu o coração acelerar.

— Então onde está o registro?

Dr. Augusto ficou em silêncio.

— Augusto.


— Nos arquivos de uma clínica particular.

— Qual?

Ele respirou fundo.

— A clínica onde Alberto mantinha pessoas sob nomes falsos.

Mariana sentiu um arrepio.

— Pessoas?

— Testemunhas.

Sua mãe segurou a mão dela.

— Gabriel não foi apenas escondido, Mariana.

— O que fizeram com ele?


A mãe não conseguiu responder.

Foi o investigador quem falou:

— Precisamos ir até essa clínica.

---

A antiga clínica ficava nos arredores da cidade, atrás de um terreno abandonado. As janelas estavam cobertas por tábuas e o letreiro havia desaparecido quase completamente. Uma equipe entrou primeiro, enquanto Mariana esperava do lado de fora com a mãe.

Depois de alguns minutos, um investigador apareceu na porta.

— Encontramos arquivos.

Mariana entrou.

O interior cheirava a mofo e papel velho. Havia dezenas de caixas empilhadas em uma sala subterrânea. Algumas tinham nomes. Outras, apenas números.

O investigador colocou uma caixa sobre a mesa.

Na tampa estava escrito:

**G-17.**

Mariana tocou a inscrição com a ponta dos dedos.

— Gabriel.

Dentro havia prontuários médicos, fotografias e relatórios.

Ela abriu o primeiro documento.

Nome: Gabriel Almeida.

Idade: oito anos.

Data de entrada: vinte e dois anos atrás.

Status: sobrevivente.

Mariana parou.

Sobrevivente.

Não desaparecido.

Não morto.

Sobrevivente.

Ela virou a página.

Havia uma observação manuscrita.

**“Paciente transferido por ordem de A.V. Não informar à família.”**

— A.V... Alberto Vasconcelos — murmurou Dr. Augusto.

Mariana continuou procurando.

Até encontrar uma fotografia mais recente.

Seu coração quase parou.

Gabriel aparecia com aproximadamente vinte e cinco anos.

Vivo.

Adulto.

E estava ao lado de alguém.

Mariana aproximou a fotografia da luz.

A pessoa ao lado dele era Renato.

Mas a data escrita no verso era de apenas seis meses atrás.

Mariana levantou os olhos lentamente.

— Renato encontrou Gabriel.

Sua mãe começou a chorar.

— Sim.

— E nunca me contou.

— Não.

Mariana virou a fotografia.

No verso havia uma mensagem.

**“Ele sabe toda a verdade sobre a noite do acidente.”**

Mariana sentiu o sangue gelar.

Então seu celular vibrou.

Uma mensagem de um número desconhecido apareceu na tela.

**“Você encontrou minha foto.”**

Mariana ficou imóvel.

Outra mensagem chegou.

**“Agora venha sozinha.”**

E, antes que pudesse responder, uma terceira apareceu:

**“Porque Renato não matou seu pai.”**

Mariana sentiu o coração parar.

A última mensagem chegou alguns segundos depois.

**“Foi sua mãe.”**

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