Mariana releu a mensagem tantas vezes que as palavras começaram a perder o sentido. “Foi sua mãe.” Seus olhos se levantaram lentamente da tela e encontraram o rosto da mulher que estava diante dela. A mãe percebeu imediatamente que alguma coisa havia acontecido.
— O que ele disse?
Mariana não respondeu.
— Mariana?
Ela virou o celular e mostrou a mensagem.
Sua mãe levou a mão ao peito.
— Não.
Foi apenas uma palavra, mas havia tanta dor nela que Mariana sentiu o próprio coração apertar.
— É verdade?
— Não da maneira como ele está dizendo.
— Então me explique.
— Eu não posso.
Mariana deu um passo para trás.
— Você acabou de dizer que não podia. Depois de vinte e dois anos escondida. Depois de eu descobrir que Gabriel está vivo. Depois de descobrir que meu pai não morreu no acidente como me contaram. E agora alguém diz que foi você quem matou meu pai.
— Eu não matei seu pai.
— Então por que ele diz isso?
A mãe começou a chorar.
— Porque ele quer que você duvide de mim.
— Quem é ele?
Antes que a mulher pudesse responder, o celular de Mariana vibrou novamente.
**“Sua mãe está mentindo.”**
Outra mensagem apareceu.
**“Pergunte a ela sobre a chave.”**
Mariana olhou para a pequena chave que ainda estava em sua mão desde o cofre.
— Que chave é essa?
Sua mãe ficou imóvel.
Mariana percebeu imediatamente.
— Você sabia.
— Eu sabia que seu pai tinha uma chave.
— Não. Você sabia exatamente para que ela servia.
A mulher fechou os olhos.
— Seu pai tinha dois cofres.
Mariana sentiu um arrepio.
— Dois?
— O primeiro continha os documentos financeiros. O segundo continha algo muito mais perigoso.
— O quê?
— A gravação original da noite do acidente.
Dr. Augusto ficou tenso.
— Você nunca me falou disso.
— Porque eu não confiava mais em você.
Mariana olhou para ele.
O advogado permaneceu em silêncio.
— Então por que você me trouxe até aqui?
A mãe respirou fundo.
— Porque eu precisava que você encontrasse a verdade sozinha.
— E onde está o segundo cofre?
A mãe apontou para a chave.
— Não é uma chave de cofre.
Mariana franziu a testa.
— Então o que é?
— Uma chave de carro.
O silêncio caiu sobre a sala.
Mariana sentiu o estômago revirar.
— Que carro?
A mãe respondeu:
— O carro do acidente.
---
Pouco depois, um investigador conseguiu localizar o registro antigo do veículo. O carro havia sido recuperado da estrada na manhã seguinte ao acidente e, segundo os documentos oficiais, destruído meses depois.
Mas havia uma inconsistência.
O número do chassi registrado no relatório não correspondia ao número de uma peça encontrada no depósito municipal.
— Alguém trocou as peças antes de registrar o veículo como destruído — explicou o investigador.
Mariana olhou para a mãe.
— Onde está o carro?
— Eu não sei.
O investigador levantou uma folha.
— Nós sabemos.
O endereço levava a uma propriedade rural abandonada a quase duas horas dali.
Mariana decidiu ir.
Sua mãe tentou impedi-la.
— Não vá.
— Passei vinte e dois anos sem saber a verdade. Não vou parar agora.
— Mariana, por favor.
— Você tem medo de alguma coisa.
A mãe ficou em silêncio.
— E eu preciso descobrir o quê.
---
A propriedade estava escura quando chegaram. Um antigo galpão permanecia parcialmente escondido atrás de árvores. A equipe policial entrou primeiro.
Mariana ficou do lado de fora por alguns segundos, olhando para o céu.
Tudo aquilo parecia impossível.
Então ouviu um grito vindo do galpão.
— Encontramos o carro!
Ela entrou correndo.
O veículo estava coberto por uma lona.
Quando os policiais a retiraram, Mariana ficou sem palavras.
O carro estava enferrujado, mas ainda era possível reconhecer o modelo que aparecia nas fotografias antigas.
Um investigador abriu a porta do motorista.
— Tem alguma coisa aqui.
Dentro havia uma pequena caixa metálica.
Mariana aproximou-se.
A chave em sua mão encaixou perfeitamente.
Clique.
A caixa abriu.
Dentro havia uma fita cassete, três fotografias e um pedaço de papel.
Mariana pegou o papel primeiro.
A letra era de seu pai.
**“Não confie em Augusto.”**
Ela levantou os olhos.
Dr. Augusto estava parado na entrada do galpão.
Seu rosto havia perdido toda a expressão.
— Mariana...
Ela guardou o papel.
— Você sabia.
— Eu posso explicar.
— Meu pai escreveu seu nome.
— Porque ele estava com medo.
— De você?
— Não.
— Então de quem?
Dr. Augusto aproximou-se lentamente.
— De todos nós.
Mariana apertou a fita cassete.
— O que tem aqui?
Ele ficou em silêncio.
— O que tem nessa gravação?
— A verdade.
— Qual verdade?
Dr. Augusto respirou fundo.
— Seu pai não morreu naquela estrada.
Mariana ficou imóvel.
— O quê?
— O homem que morreu no acidente não era seu pai.
Sua mãe começou a chorar.
— Augusto...
— Chega! — Mariana gritou. — Eu quero a verdade inteira!
O advogado fechou os olhos.
— Seu pai sobreviveu ao acidente.
Mariana sentiu uma vertigem.
— Então onde ele está?
Dr. Augusto demorou alguns segundos para responder.
— Foi levado para o hospital.
— E depois?
— Desapareceu.
— Quem o levou?
— Eu.
Mariana ficou sem reação.
— Você?
— Seu pai estava gravemente ferido. Ele me pediu para tirar você e sua mãe do alcance de Alberto. Mas, quando cheguei ao hospital, havia homens esperando por ele.
— E você o entregou?
— Não.
— Então o que fez?
Dr. Augusto olhou para a mãe de Mariana.
— Eu o escondi.
Mariana virou-se para ela.
— Você sabia?
A mãe assentiu, chorando.
— Sabia.
— Onde ele está?
Nenhuma resposta.
Mariana sentiu uma raiva quase insuportável.
— Onde está meu pai?
O advogado finalmente falou:
— No mesmo lugar onde Gabriel esteve durante anos.
Mariana congelou.
— A clínica?
— Não.
— Então onde?
Dr. Augusto apontou para a fita.
— A gravação explica tudo.
Mariana colocou a fita em um antigo aparelho encontrado no galpão. O som chiou.
Depois, uma voz surgiu.
A voz de seu pai.
— Se Mariana estiver ouvindo isso, significa que eles encontraram o carro.
Mariana levou a mão à boca.
A gravação continuou.
— Quero que minha filha saiba de uma coisa: sua mãe não me matou.
Mariana olhou para ela.
As lágrimas da mulher caíam silenciosamente.
— Ela tentou me salvar.
Uma pausa.
Então a voz de seu pai ficou mais baixa.
— Mas foi ela quem entregou minha localização.
Mariana congelou.
Sua mãe começou a chorar.
— Eu não tive escolha.
A gravação prosseguiu:
— O homem que obrigou sua mãe a fazer isso não foi Alberto.
Mariana sentiu o coração disparar.
— Foi alguém que você conhece.
O áudio terminou abruptamente.
Mariana ficou olhando para o aparelho.
— Quem?
Sua mãe não respondeu.
Dr. Augusto abaixou a cabeça.
Foi então que um investigador entrou correndo.
— Mariana, encontramos uma sala escondida atrás do galpão.
— E o que há lá?
O homem hesitou.
— Uma cama.
Mariana sentiu o sangue gelar.
— Uma cama?
— E alguém esteve dormindo nela recentemente.
Sobre o colchão havia uma fotografia.
Mariana pegou.
Era seu pai.
Mais velho.
Muito mais velho.
Mas vivo.
No verso, havia uma data de apenas três dias atrás.
E uma frase:
**“Ele ainda está aqui.”**
Mariana levantou os olhos.
Do fundo do galpão veio um ruído metálico.
Uma porta se abriu lentamente.
E uma voz masculina, fraca e envelhecida, pronunciou seu nome:
— Mariana...
Ela reconheceu aquela voz.
Era a voz que ouvira na fita.
Era seu pai.







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