Viviane não respondeu.
O silêncio dela foi mais revelador do que qualquer confissão.
Guilherme olhou para a própria mãe como se a estivesse vendo pela primeira vez.
— Oito anos? — perguntou ele. — Que conta é essa?
Ela apertou os braços contra o corpo.
— Não é da sua conta.
— Cinquenta milhões entraram numa conta sua!
— Eu fiz o que precisava fazer para proteger nossa família.
Eu quase sorri.
— Proteger sua família?
Viviane virou-se para mim.
— Você não entende.
— Então me explique.
Ela abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu.
Marcos continuava olhando para o tablet.
— Senhora Valença, temos registros de movimentações anteriores.
— Quanto?
— Ainda estamos levantando tudo, mas os primeiros dados mostram transferências menores durante os últimos seis anos.
Guilherme ficou pálido.
— Transferências de quem?
Marcos olhou para ele.
— Da Montenegro Luxo.
Guilherme deu um passo para trás.
— Isso é impossível.
— Não é — respondi.
Ele me encarou.
— Você sabia?
— Eu suspeitava que havia desvios internos. Não sabia para onde o dinheiro estava indo.
Marcos deslizou o dedo pela tela.
— Os pagamentos foram disfarçados como consultorias, despesas estratégicas e contratos de representação.
Viviane tentou interrompê-lo.
— Isso não prova nada.
— Prova bastante — respondeu Marcos.
Ele abriu outro arquivo.
— Principalmente porque as empresas que receberam esses pagamentos têm os mesmos administradores de uma segunda estrutura societária.
Eu reconheci os nomes.
Empresas de fachada.
Todas ligadas, direta ou indiretamente, à família Montenegro.
Guilherme ficou imóvel.
— Mãe...
Viviane o encarou.
— Eu fiz isso por você.
— Por mim?
— Você era meu filho. Eu não podia permitir que uma mulher aparecesse do nada e tomasse tudo de você.
Eu senti os gêmeos se mexerem sob o casaco de Marcos.
— Eu nunca quis tomar nada de Guilherme.
Viviane soltou uma risada amarga.
— Não finja.
— Eu não preciso fingir.
Olhei para a mansão atrás dela.
— Tudo o que vocês chamavam de seu já era meu.
Guilherme baixou a cabeça.
Aquela frase pareceu atingi-lo mais do que qualquer ameaça.
Ele tinha passado anos acreditando que eu dependia dele.
Agora descobria que havia vivido dentro de propriedades, usado veículos e recebido salário de uma empresa controlada pela mulher que ele havia acabado de expulsar na neve.
Mas ainda havia uma pergunta.
— Marcos — falei. — Descubra por que essa conta foi aberta há oito anos.
Ele começou a digitar.
Poucos segundos depois, parou.
— Senhora Valença...
— O quê?
— A conta foi aberta três meses antes do seu casamento com Guilherme.
Olhei para ele.
— No nome de quem?
Marcos hesitou.
— Viviane Montenegro.
Guilherme fechou os olhos.
— Mãe, o que você estava planejando antes mesmo de Helena entrar na nossa família?
Viviane não respondeu.
Eu me aproximei um pouco.
— Ela sabia quem eu era?
Viviane finalmente me encarou.
Seu rosto havia perdido toda a arrogância.
— Não.
— Tem certeza?
— Eu não sabia que você era bilionária.
— Então por que abriu a conta?
Ela respirou fundo.
— Porque eu sabia que havia dinheiro.
Guilherme franziu a testa.
— Que dinheiro?
Viviane olhou para ele.
— O dinheiro que seu pai deixou.
O ar pareceu desaparecer do jardim.
Marcos imediatamente ergueu os olhos.
— Senhor Montenegro, seu pai deixou algum patrimônio fora da estrutura familiar?
Guilherme ficou em silêncio.
— Guilherme?
— Meu pai morreu deixando dívidas.
Viviane balançou a cabeça.
— Foi isso que eu disse a todos.
Eu senti um arrepio diferente do frio.
— “Disse a todos”?
Ela não respondeu.
Marcos aproximou-se de mim.
— Senhora Valença, talvez devêssemos entrar no veículo.
— Não.
Eu queria ouvir aquilo ali.
Na frente da casa.
Na frente do homem que acreditara poder me abandonar com duas crianças no meio da neve.
— Viviane, onde está o dinheiro do seu marido?
Ela apertou os lábios.
— Acabou.
— Não acredito.
— Você não sabe nada sobre nossa família.
— Sei o suficiente para saber que cinquenta milhões não aparecem numa conta por acaso.
Guilherme olhou para a mãe.
— Você roubou dinheiro do meu pai?
— Eu salvei dinheiro do seu pai.
— Para quê?
— Para você!
— Então por que nunca me contou?
Viviane ficou em silêncio.
Marcos recebeu uma nova notificação.
Ele leu.
Depois olhou para mim.
— Encontramos a primeira empresa ligada ao patrimônio do pai de Guilherme.
— Onde?
— Em São Paulo.
— E quem aparece como beneficiário final?
Marcos respirou fundo.
— Ainda estamos confirmando.
Guilherme aproximou-se.
— Diga.
Marcos olhou novamente para a tela.
— O nome é Helena Valença.
Todos ficaram imóveis.
Minha respiração parou por um instante.
— Isso não faz sentido.
— Concordo — respondeu Marcos. — Por isso pedi acesso aos documentos originais.
Guilherme começou a rir.
— Então você sabia.
— Eu não sabia de nada.
— Você está mentindo!
Ele tentou avançar em minha direção.
Dois seguranças imediatamente bloquearam seu caminho.
— Não toque nela — disse um deles.
Guilherme parou.
Eu olhei para Marcos.
— Quero os documentos originais agora.
— Sim, senhora.
Ele fez uma ligação.
Enquanto aguardávamos, percebi Viviane me observando.
Não com ódio.
Com medo.
— Você sabe alguma coisa — falei.
Ela desviou os olhos.
— Viviane.
Ela continuou em silêncio.
— O que meu nome está fazendo nos documentos do seu marido?
Ela levantou lentamente o rosto.
E então disse algo que fez meu sangue gelar:
— Porque seu pai e o meu marido tinham um acordo muito antes de você conhecer Guilherme.
Eu fiquei imóvel.
Meu pai havia morrido quando eu ainda era jovem.
Durante anos, eu acreditara conhecer toda a história dos negócios que herdara.
Mas aquela frase abriu uma porta para um passado que eu nunca havia investigado.
— Que acordo?
Viviane balançou a cabeça.
— Se eu contar, você vai descobrir por que Guilherme se aproximou de você.
Olhei para meu marido.
Ele não parecia surpreso.
E isso foi o que mais me assustou.
— Guilherme...
Ele não respondeu.
— Você sabia?
Ele ergueu os olhos.
— Eu sabia que havia uma razão para minha mãe insistir tanto no nosso casamento.
Meu coração apertou.
— E qual era essa razão?
Antes que ele pudesse responder, um dos seguranças recebeu uma chamada.
Ele caminhou até Marcos e sussurrou alguma coisa.
Marcos ficou completamente sério.
— Senhora Valença, precisamos sair daqui.
— Por quê?
Ele mostrou o celular.
Havia uma fotografia recém-chegada.
Um homem desconhecido estava parado diante de um dos prédios da Valença Participações Internacionais.
Na mão, ele segurava uma pasta.
Abaixo da fotografia havia uma única mensagem:
“Ele chegou. E trouxe os documentos que podem provar quem realmente iniciou o Projeto Aurora.”
Olhei para Guilherme.
Depois para Viviane.
Pela primeira vez, percebi que talvez nenhum dos dois estivesse no topo daquela conspiração.
E alguém muito mais próximo de mim acabara de dar o primeiro passo para sair das sombras.
Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.







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