Ricardo percebeu que eu continuava olhando para a assinatura de Guilherme.
— Senhora Valença, existe algo que preciso esclarecer antes que a senhora tire conclusões.
— Então esclareça.
— A assinatura dele aparece no documento, mas isso não significa que ele conhecesse o conteúdo completo do acordo.
— Ele tinha dezenove anos.
— Exatamente.
Marcos colocou a mão sobre a mesa.
— O que um rapaz de dezenove anos estava fazendo em uma negociação envolvendo o patrimônio da família Valença?
Ricardo fechou lentamente a pasta.
— Sendo usado pelo próprio pai.
Meu olhar permaneceu preso ao documento.
— Por quê?
— Porque seu pai precisava de uma pessoa dentro da família Montenegro que pudesse assinar determinadas obrigações sem levantar suspeitas.
— E escolheram Guilherme.
— O pai dele escolheu Guilherme.
Respirei fundo.
Durante anos, eu havia acreditado que Guilherme simplesmente aparecera em minha vida.
Agora começava a perceber que talvez houvesse uma história anterior a nós dois.
— Quero o documento completo.
Ricardo hesitou.
— A versão completa está guardada em um arquivo físico.
— Onde?
— Em um cofre que seu pai mantinha fora da sede.
— Você sabe a localização?
— Sei.
Marcos imediatamente perguntou:
— Por que nunca contou isso antes?
Ricardo olhou para ele.
— Porque seu pai me fez prometer que só entregaria o documento quando Helena estivesse em perigo real.
Meu peito apertou.
— E agora estou?
— Senhora Valença, você foi expulsa de sua própria casa com dois recém-nascidos enquanto seu marido tentava vender direitos que não possuía. Se isso não é perigo real, não sei o que seria.
Fechei os olhos por um segundo.
— Vamos buscar o arquivo.
Marcos assentiu.
Antes que pudesse se mover, meu telefone tocou.
Era um número desconhecido.
Atendi.
— Helena Valença?
— Quem está falando?
Uma voz masculina respondeu:
— Alguém que conheceu seu pai melhor do que você imagina.
Meu corpo ficou tenso.
— O que você quer?
— Que pare de investigar o Projeto Aurora.
— Não.
Houve uma pausa.
— Você tem filhos pequenos. Não transforme uma disputa empresarial em algo pessoal.
Minha mão apertou o telefone.
— Você está me ameaçando?
— Estou tentando evitar que você cometa um erro.
— Você já cometeu um.
— Qual?
— Ligou para mim.
Desliguei.
Marcos me encarou.
— Quem era?
— Não sei.
Ricardo ficou pálido.
— Eu sei.
Olhei para ele.
— Quem?
— Eduardo Ferraz.
O nome do concorrente voltou à minha mente.
— Tem certeza?
— Reconheci a voz.
Marcos pegou o celular.
— Vou localizar a origem da chamada.
— Não — falei.
Ele parou.
— Por enquanto, não quero que saibam o que estamos fazendo.
Ricardo assentiu.
— É melhor assim.
Saímos da sede por uma entrada secundária.
No caminho, Marcos recebeu uma mensagem.
— A equipe terminou a auditoria inicial.
— E?
— Encontramos outras transferências.
— De quanto?
— Aproximadamente R$ 17 milhões nos últimos quatro anos.
Fechei os olhos.
— Para as mesmas empresas?
— Algumas. Mas há uma diferença.
— Qual?
— Parte do dinheiro foi transferida para uma empresa registrada fora do país.
Ricardo se virou para nós.
— Qual empresa?
Marcos mostrou a tela.
Ricardo ficou imóvel.
— Eu conheço esse nome.
— De onde?
— Era uma empresa usada pelo pai de Guilherme.
— Então estamos voltando ao mesmo ponto.
— Sim.
O carro continuou pelas ruas silenciosas enquanto a neve começava a cair novamente.
Quando chegamos ao endereço indicado por Ricardo, encontrei uma construção antiga escondida atrás de um portão de ferro.
Não havia placa.
Nenhum sinal de que aquele lugar tivesse qualquer relação comigo.
Ricardo abriu a porta com uma chave antiga.
Dentro, havia apenas uma sala, uma mesa e um cofre embutido na parede.
Ele se aproximou.
— Seu pai esteve aqui pela última vez poucos meses antes de morrer.
Meu coração apertou.
— Você estava com ele?
— Estava.
— O que ele disse?
Ricardo demorou alguns segundos.
— Disse que não confiava em ninguém da família Montenegro.
Olhei para ele.
— Nem em Guilherme?
— Ele disse que Guilherme ainda era jovem demais para escolher o próprio caminho.
— E Viviane?
Ricardo desviou os olhos.
— Seu pai desconfiava dela.
Marcos encontrou uma pequena fechadura abaixo do cofre.
— Temos a combinação?
Ricardo assentiu.
Digitou seis números.
O mecanismo fez um ruído seco.
A porta se abriu.
Dentro havia uma caixa de madeira.
Meu nome estava gravado na tampa.
HELENA VITÓRIA VALENÇA.
Toquei as letras com a ponta dos dedos.
Não sabia por que aquilo me emocionava tanto.
Talvez porque meu pai estivesse morto havia anos.
E, mesmo assim, parecia ter deixado uma mensagem para a mulher que eu me tornaria.
Abri a caixa.
Havia documentos, fotografias e uma pequena carta.
Peguei a carta primeiro.
A caligrafia era inconfundível.
Era dele.
“Helena, se você estiver lendo isto, significa que alguém tentou usar o seu nome, seu casamento ou o patrimônio da nossa família contra você.”
Minha respiração ficou presa.
Continuei.
“Não confie em quem disser que o Projeto Aurora pertence somente à Valença Participações. A origem dele está ligada a uma promessa que fiz quando você ainda era criança.”
Marcos se aproximou.
Li a próxima linha em silêncio.
Depois parei.
— O que está escrito? — perguntou ele.
Olhei para Ricardo.
— Meu pai diz que o Projeto Aurora foi criado para proteger alguém.
— Quem?
Virei a página.
Meu rosto perdeu a cor.
— A família Montenegro.
Marcos ficou em silêncio.
Ricardo fechou os olhos.
— Eu sabia que essa parte existia.
— Você sabia?
— Não sabia que seu pai havia colocado isso por escrito.
Continuei lendo.
“Eu fiz uma promessa ao pai de Guilherme. Em troca de proteção para você, aceitei manter determinados ativos sob controle conjunto até que uma condição fosse cumprida.”
— Que condição? — perguntou Marcos.
Eu li a frase seguinte.
E senti um vazio no estômago.
— “Quando Helena se casar com o herdeiro da família Montenegro, a obrigação será considerada cumprida.”
Marcos me encarou.
— Isso significa...
— Que meu casamento com Guilherme ativou alguma coisa.
Ricardo completou:
— E alguém sabia disso.
Peguei outra folha.
Era uma lista de nomes.
Um deles estava circulado.
Viviane Montenegro.
Abaixo havia uma anotação feita pela mão do meu pai:
“Ela sabe da existência do acordo. Não sabe toda a extensão dele.”
Meu coração começou a bater mais rápido.
Então encontrei outro nome.
O nome que eu menos esperava ver.
Ricardo Bastos.
Olhei para ele.
— Você também estava envolvido.
Ele não negou.
— Eu trabalhava para seu pai.
— E depois passou a trabalhar para mim.
— Sim.
— Por quê?
Ele respirou fundo.
— Porque seu pai me pediu para ficar perto de você.
— Para me proteger?
— Para observar.
— Observar o quê?
Ricardo respondeu:
— Se Guilherme realmente se casaria com você por amor.
O silêncio caiu sobre a sala.
Então meu telefone vibrou novamente.
Desta vez era Marcos.
— Senhora Valença...
— O que aconteceu?
Ele mostrou a tela.
Havia uma notificação do sistema de segurança da sede.
Alguém acabara de entrar no meu escritório particular.
Usando minha própria biometria.
Meu rosto ficou imóvel.
— Isso é impossível.
Marcos ampliou a imagem.
A câmera mostrava uma mulher entrando no escritório.
Ela carregava uma bolsa preta.
E, quando se virou para a câmera, seu rosto ficou perfeitamente visível.
Era Viviane.
Mas ela não estava sozinha.
Atrás dela estava Guilherme.
E, entre os dois, estava Eduardo Ferraz.
Naquele instante, entendi que a ameaça não estava mais tentando entrar na minha empresa.
Ela já estava lá dentro.
Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.







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