— Porque seu pai não confiava em você.
As palavras de Viviane continuaram ecoando na sala de monitoramento.
— Por quê? — perguntei.
Ela fechou os olhos.
— Porque ele sabia que você não era filha única.
Meu sangue gelou.
— Quem é?
Viviane olhou para Guilherme.
Ele parecia tão assustado quanto eu.
— Diga — ordenei.
Ela respirou fundo.
— Seu pai teve uma filha antes de conhecer sua mãe.
Fiquei imóvel.
— Onde ela está?
— Eu não sei.
Ricardo se levantou de repente.
— Viviane, não minta.
Ela virou-se para ele.
— Você também sabia!
— Eu sabia que havia uma criança. Não sabia onde estava.
Meu coração começou a bater violentamente.
— Como o nome dela foi parar nos documentos da minha família?
Viviane respondeu:
— Porque seu pai criou o Projeto Aurora para proteger as duas filhas.
Marcos olhou para mim.
— As duas?
— Helena e a outra menina.
Senti as mãos tremerem.
— Por que ninguém me contou?
— Porque seu pai acreditava que, se você soubesse da existência dela, alguém poderia usá-la para chegar até você.
Ricardo assentiu lentamente.
— Era por isso que ele mantinha os registros separados.
— E a família Montenegro?
Viviane baixou a cabeça.
— Seu pai precisava de alguém para administrar uma parte dos ativos até que as duas herdeiras fossem localizadas.
— E escolheu a família de vocês.
— Seu pai e o meu marido tinham negócios juntos havia décadas.
— Isso não explica por que Guilherme se casou comigo.
Viviane não respondeu.
Guilherme finalmente falou.
— Eu não sabia.
Olhei para ele.
— Você sabia que havia alguma coisa estranha?
Ele demorou.
— Minha mãe dizia que nosso casamento resolveria uma dívida antiga entre as famílias.
— E você aceitou?
— Eu estava apaixonado por você.
Dei uma risada curta, sem humor.
— E depois?
Ele abaixou a cabeça.
— Depois eu descobri quanto dinheiro existia.
A honestidade tardia me atingiu mais do que uma mentira.
— Quando?
— Pouco depois do casamento.
Marcos apertou os lábios.
— Então você sabia que Helena era a verdadeira controladora dos ativos?
— Não tudo. Eu sabia que ela tinha muito mais poder do que dizia.
— E decidiu ficar mesmo assim.
— Eu achei que, se conseguisse controlar os ativos através dela, tudo passaria para mim.
Fechei os olhos.
Era isso.
Não havia amor escondido.
Havia ganância escondida atrás de um casamento.
— E Viviane?
Guilherme olhou para a mãe.
— Ela me ensinou como fazer.
Viviane começou a chorar.
— Eu queria proteger meu filho.
— Você queria protegê-lo ou queria colocar as mãos no patrimônio do meu pai?
Ela não respondeu.
Na tela, Eduardo Ferraz permanecia calado.
— E você? — perguntei.
Ele levantou os olhos para a câmera.
— Eu queria comprar o que eles não conseguiam controlar.
— O Projeto Aurora.
— Sim.
— E os cinquenta milhões?
— Um adiantamento.
— Que você recebeu através de Viviane.
— Uma garantia.
— Contra o quê?
Eduardo sorriu.
— Contra a possibilidade de Helena descobrir tudo antes de assinarmos a transferência.
Marcos olhou para mim.
— Senhora Valença, temos provas suficientes para iniciar as medidas legais.
— Ainda não.
Ele franziu a testa.
— O que falta?
— Minha irmã.
O silêncio voltou.
— Quero saber quem ela é.
Ricardo pegou a pasta antiga.
— Seu pai deixou uma pista.
Ele retirou a última fotografia.
Era uma menina de aproximadamente cinco anos.
Ao lado dela estava meu pai.
No verso havia apenas uma data e um nome.
Isabela.
Meu coração parou.
— Isabela o quê?
Ricardo virou a fotografia.
— Seu pai nunca escreveu o sobrenome.
Marcos aproximou-se.
— Podemos usar os registros antigos para localizar a criança.
— Faça isso.
Ele pegou o celular.
— Vou acionar nossa equipe jurídica e os investigadores.
Antes que pudesse terminar, Eduardo falou através do sistema de áudio.
— Não será necessário.
Todos olharam para a tela.
— O quê? — perguntei.
Eduardo colocou uma pasta sobre a mesa.
— Eu sei onde ela está.
Meu corpo ficou rígido.
— Como?
— Porque fui eu quem a encontrou.
Ricardo avançou.
— Você não podia ter acesso a esses registros.
— Não precisei.
Eduardo olhou para Viviane.
— Sua sogra me entregou uma parte deles.
Viviane começou a chorar novamente.
— Eu só queria saber quem ela era.
— E você encontrou? — perguntei.
Eduardo assentiu.
— Encontrei.
— Onde?
Ele tirou uma fotografia da pasta.
— Em Florianópolis.
Marcos pegou o telefone.
— Nome completo?
Eduardo respondeu:
— Isabela Almeida.
Meu coração apertou.
— Ela sabe quem eu sou?
— Não.
— Ela sabe quem é o pai?
Eduardo hesitou.
— Sabe que foi criada por outra família. Mas não conhece toda a história.
Olhei para Ricardo.
— Meu pai sabia onde ela estava?
— Provavelmente.
— Então por que nunca a procurou?
Ricardo baixou os olhos.
— Porque tinha medo de que alguém a usasse contra você.
Eu olhei novamente para a fotografia.
Uma menina que poderia ter crescido sem sequer saber que existia uma irmã bilionária em algum lugar do país.
E eu havia passado a vida inteira sem saber que ela existia.
— Eduardo, por que você está me contando isso?
Ele ficou em silêncio.
Depois respondeu:
— Porque o contrato que Guilherme tentou vender não é o verdadeiro problema.
— Então qual é?
— A verdadeira transferência do Projeto Aurora exige a assinatura de duas herdeiras.
Meu coração acelerou.
— Helena e Isabela.
— Exatamente.
Marcos ficou imóvel.
— Então Guilherme nunca poderia concluir a operação.
Eduardo assentiu.
— Não.
— E mesmo assim ele recebeu cinquenta milhões.
— Porque eu acreditava que conseguiria pressionar Helena a assinar.
Olhei para Guilherme.
— E você pretendia me obrigar?
Ele não respondeu.
— Depois de me expulsar com nossos filhos?
Ele baixou a cabeça.
— Eu estava desesperado.
— Você estava ganancioso.
Ele não discutiu.
Eu me afastei da tela.
— Marcos, bloqueie todas as contas relacionadas a Eduardo Ferraz.
— Já estou fazendo.
— Acione nossos advogados.
— Sim.
— E localize Isabela antes de qualquer outra pessoa.
Ricardo levantou-se.
— Helena, espere.
— O quê?
— Se Isabela realmente é sua irmã, precisamos confirmar isso antes de colocá-la no meio dessa guerra.
— Eu sei.
Olhei para os meus filhos.
— Ela não será usada por ninguém.
Naquele instante, meu telefone vibrou.
Uma mensagem de um número desconhecido.
Havia apenas uma frase:
“Meu nome é Isabela. E acho que você é a mulher que meu pai passou a vida inteira tentando me esconder.”
Fiquei sem respirar.
Outra mensagem chegou imediatamente.
“Mas existe uma coisa que você precisa saber antes de confiar em Ricardo.”
Levantei os olhos.
Ricardo estava diante de mim.
Pálido.
— O que aconteceu? — perguntou ele.
Mostrei a tela.
Ele leu a mensagem.
E ficou completamente imóvel.
— O que ela quis dizer? — perguntei.
Ricardo não respondeu.
— Ricardo.
Ele fechou os olhos.
— Seu pai me deu uma segunda missão.
— Qual?
Ele demorou alguns segundos.
Então disse:
— Se algum dia você encontrasse Isabela, eu deveria descobrir se ela realmente era sua irmã antes de permitir que você se aproximasse dela.
— Por quê?
Ricardo olhou para a fotografia.
— Porque seu pai suspeitava que a menina que ele havia protegido não fosse a verdadeira Isabela.
Meu coração despencou.
— Então quem é ela?
Ricardo respondeu em voz baixa:
— É isso que precisamos descobrir antes que alguém morra tentando controlar o Projeto Aurora.
Na tela, Eduardo se levantou.
— Agora vocês entendem por que eu precisava dos documentos.
Olhei para ele.
— Não.
Minha voz saiu firme.
— Agora eu entendo por que vocês estavam todos com medo.
Fechei a pasta.
— E a partir deste momento, ninguém mais vai decidir o que eu tenho o direito de saber sobre minha própria família.
Marcos recebeu uma última mensagem.
Ele a leu.
Depois olhou para mim.
— Senhora Valença...
— O quê?
— Encontramos o endereço de Isabela.
— Onde?
Marcos respirou fundo.
— No mesmo lugar onde seu pai registrou a última transferência do Projeto Aurora.
Olhei para Ricardo.
Ele já sabia.
— Onde?
Ele respondeu:
— Gramado.
Meu sangue gelou.
A mulher que poderia mudar tudo estava a poucos quilômetros da mansão da qual eu acabara de expulsar minha própria família.
E, pela primeira vez naquela noite, compreendi que o verdadeiro segredo do Projeto Aurora talvez nunca tivesse sido dinheiro.
Era quem, de fato, tinha o direito de herdá-lo.
Continua — clique na Parte 9 para continuar lendo.







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