— Quem mandou isso para você? — repeti, devagar.
Eduardo percebeu tarde demais o que havia acabado de revelar.
Se aquela fotografia fosse uma mentira, sua primeira pergunta teria sido o que havia nela.
Não quem a enviara.
Helena também entendeu.
— Eduardo, cale a boca — disse ela.
Foi a primeira vez que vi os dois deixarem cair a máscara ao mesmo tempo.
Afastei-me um passo da varanda, não porque estivesse recuando, mas porque precisava de espaço para pensar.
Peguei o celular novamente.
— Antônio — disse Helena, mudando de tom. — Você está interpretando tudo errado.
— Ótimo. Então abra a porta, traga Mariana até aqui e deixe que ela explique.
Ninguém se mexeu.
Disquei 190.
O sorriso de Eduardo desapareceu.
— Não faça isso.
— Minha filha pediu socorro, está machucada e acabei de receber uma foto dela presa dentro desta casa.
Ele desceu mais um degrau.
— Você não sabe o que aconteceu.
— É exatamente por isso que a polícia vai descobrir.
Quando a atendente respondeu, informei o endereço, disse que havia indícios de agressão, cárcere e uma vítima impossibilitada de sair.
Eduardo avançou.
Não rápido o bastante.
Ergui a mão.
— Pense bem no próximo movimento.
Talvez tenha sido minha voz.
Talvez tenha sido meu rosto.
Mas ele parou.
Durante alguns segundos, nenhum de nós falou.
Então ouvi o ruído discreto de uma porta lateral.
Uma mulher apareceu entre a garagem e o jardim.
Devia ter pouco mais de cinquenta anos, usava uniforme cinza e segurava uma bolsa contra o peito.
Eu a reconheci depois de alguns segundos.
Célia.
Trabalhava para os Ferraz desde antes do casamento de Mariana.
Eu a havia visto servindo café em aniversários, recolhendo pratos durante o Natal, sempre silenciosa, sempre quase invisível.
Quando nossos olhos se encontraram, ela levou discretamente a mão ao próprio bolso.
Meu celular vibrou.
Outra mensagem.
“Fui eu.”
Não olhei para ela novamente.
Helena percebeu tarde demais que Célia estava ali.
— O que você está fazendo fora da cozinha?
Célia congelou.
Eduardo virou-se.
Aquele instante foi suficiente para eu ouvir, outra vez, as batidas no andar de cima.
Três.
Pausa.
Três.
Desta vez respondi batendo os nós dos dedos no capô do carro.
Três vezes.
A cortina parou de se mover.
Eu estava ali.
Ela sabia.
— Célia — disse Helena, com uma calma que me pareceu mais ameaçadora do que um grito. — Entre agora.
A mulher não obedeceu.
— Dona Helena...
— Agora.
Célia baixou os olhos.
— Não posso mais.
Eduardo soltou um palavrão e avançou em direção a ela.
Eu me coloquei no caminho.
Ele ergueu o taco.
— Saia.
— Não.
— Isso não tem nada a ver com você.
— Você continua dizendo isso sobre coisas que claramente têm.
Foi quando ouvimos sirenes ao longe.
Eduardo olhou para a rua.
Helena fechou os olhos por um segundo.
Célia começou a chorar.
— Eles vão dizer que dona Mariana atacou primeiro — falou de repente. — Foi isso que combinaram.
Eduardo virou-se para ela.
— Sua desgraçada.
— Continue falando — pedi.
Ela respirou fundo.
— Ontem à noite houve uma discussão. Dona Mariana descobriu documentos no escritório do senhor Eduardo.
Helena deu um passo.
— Célia, você não sabe do que está falando.
— Eu ouvi.
A empregada apertou a bolsa com tanta força que os dedos ficaram brancos.
— Ela gritava que nunca tinha autorizado nada. Disse que a assinatura não era dela.
Senti algo frio descendo pelas costas.
Olhei para Eduardo.
— Que assinatura?
Ele não respondeu.
Célia respondeu por ele.
— Uma garantia bancária.
As sirenes estavam mais próximas agora.
— Garantia de quê?
Célia hesitou.
— Da parte de dona Mariana nos bens deixados pela mãe.
Minha respiração falhou por um instante.
Teresa.
Minha esposa.
Quando morreu, havia deixado para Mariana alguns investimentos e a participação que possuía em dois imóveis comerciais da família dela.
Nunca foi uma fortuna capaz de mudar nosso modo de vida.
Mas era patrimônio suficiente para servir de garantia em empréstimos grandes.
Mariana sempre insistira em administrar aquilo sozinha.
Eu respeitara.
Agora entendi por que Helena tinha usado justamente a expressão “administração patrimonial”.
— Quanto? — perguntei.
Célia balançou a cabeça.
— Não sei.
Eduardo riu, mas já não havia humor algum.
— Ela não sabe nada. É uma empregada bisbilhoteira tentando salvar o emprego.
— Eu me demiti esta manhã.
Aquilo o silenciou.
Célia abriu a bolsa e retirou um envelope.
Helena avançou.
— Não!
Foi rápido demais para uma mulher que, minutos antes, fingia tranquilidade.
Célia recuou.
Eu peguei o envelope antes que Helena alcançasse.
Dentro havia três folhas fotocopiadas.
A primeira trazia o nome completo de Mariana.
A segunda, uma assinatura.
A terceira era um comunicado de cobrança de uma instituição financeira de São Paulo.
Não precisei entender todos os termos.
Um número saltou aos meus olhos.
R$ 4.800.000.
Quase cinco milhões de reais.
— Meu Deus...
— Não é o que parece — disse Eduardo.
Olhei para ele.
— Então diga o que parece.
Ele ficou em silêncio.
Helena tentou recuperar o controle.
— A empresa da família teve uma dificuldade temporária. Mariana sabia que Eduardo precisava de liquidez.
— Sabia?
— Claro.
Célia balançou a cabeça.
— Não sabia.
Helena virou-se para ela com ódio.
— Cale-se.
— Dona Mariana encontrou isso ontem porque recebeu uma cobrança no celular. Ela perguntou ao senhor Eduardo por que havia uma dívida no nome dela.
Eduardo apertou o taco.
— Já chega.
Célia continuou.
— Ele disse que ela tinha assinado meses atrás.
— E ela?
A mulher me encarou.
— Disse que a assinatura era falsa.
O portão se abriu ao longe.
Duas viaturas entraram na propriedade.
Eu deveria ter sentido alívio.
Não senti.
Porque uma peça do quebra-cabeça acabara de se encaixar, e o desenho era pior do que eu imaginara.
Mariana não havia sido impedida de sair por causa de uma discussão de casal.
Ela descobrira que o próprio marido havia usado seu patrimônio sem autorização.
E ontem, quando ameaçou procurar um advogado, alguém decidiu que precisava impedi-la.
Os policiais estacionaram.
Eduardo soltou o taco no chão.
O som da madeira contra o mármore ecoou pela varanda.
Num segundo, sua postura mudou.
Os ombros caíram.
O rosto ganhou uma expressão cansada.
Quando os dois agentes se aproximaram, ele apontou para a casa.
— Ainda bem que chegaram — disse.
Olhei para ele.
— Minha esposa teve um surto ontem à noite. Ficou agressiva, ameaçou minha mãe e tentou se machucar. Tivemos que contê-la para protegê-la.
Ele pronunciou cada palavra com cuidado.
Como se tivesse ensaiado.
Um dos policiais franziu a testa.
— Onde está sua esposa agora?
Eduardo abriu a boca.
Mas Célia falou primeiro.
— Trancada no quarto de hóspedes.
Todos olharam para ela.
Então a porta principal se abriu.
Um homem de terno saiu carregando uma pasta preta.
Eu já o havia visto antes.
No casamento de Mariana.
Em duas festas da família Ferraz.
Era Renato Ferraz, irmão mais velho de Eduardo e advogado da empresa da família.
Ele parou ao ver as viaturas.
Depois olhou para o envelope nas minhas mãos.
Pela primeira vez desde que eu chegara, alguém naquela casa pareceu verdadeiramente assustado.
— Antônio — disse ele. — Onde você conseguiu esses documentos?
Não respondi.
Meu olhar caiu sobre a pasta preta que ele carregava.
Uma das folhas escapava por uma abertura lateral.
No canto superior, consegui ler o nome da minha filha.
Logo abaixo havia uma frase que fez meu estômago se revirar:
“Pedido de internação psiquiátrica involuntária.”
Então compreendi a segunda parte do plano.
Eles não queriam apenas a assinatura de Mariana.
Queriam transformar qualquer coisa que ela dissesse depois em palavra de uma mulher que ninguém acreditaria.







No comments yet