O policial mais velho estendeu a mão.
— Senhor, posso ver essa pasta?
Renato apertou os dedos em torno da alça.
— São documentos confidenciais entre cliente e advogado.
— O nome da minha filha está nessa folha — falei.
Ele me lançou um olhar frio.
— E isso não lhe dá direito de interferir.
— Talvez não. Mas dá à polícia motivo para perguntar por que uma mulher trancada num quarto, com uma braçadeira plástica no pulso, está prestes a ser declarada incapaz.
O silêncio foi imediato.
Eduardo olhou para mim.
Helena olhou para Renato.
E Renato, pela primeira vez, deixou de parecer apenas irritado.
Pareceu calcular.
O policial virou-se para o colega.
— Vamos verificar a vítima primeiro.
Eduardo deu um passo à frente.
— Eu acompanho vocês.
— Não — disse o policial. — O senhor fica aqui.
A mandíbula dele endureceu.
Célia levantou a mão, tímida.
— Eu sei onde ela está.
O agente assentiu.
— Venha conosco.
Quando entraram na casa, eu fiquei na varanda com Eduardo, Helena, Renato e o segundo policial.
Ninguém falou por alguns segundos.
Eu olhava para Renato.
Ele me olhava de volta.
Eu me lembrava dele no casamento de Mariana, sempre educado, sempre impecável, sempre resolvendo tudo para a família antes mesmo que alguém percebesse que havia um problema.
Na época, achei aquilo eficiência.
Agora comecei a enxergar outra coisa.
Controle.
— Há quanto tempo vocês estavam preparando isso? — perguntei.
Renato sorriu sem mostrar os dentes.
— Preparando o quê?
— A dívida. A procuração. A internação.
— Você está emocionalmente abalado.
— Você também deveria estar. A polícia acabou de entrar numa casa onde sua cunhada foi mantida presa.
Eduardo se virou para mim.
— Ela não estava presa.
— A fotografia mostra uma braçadeira no pulso.
— Porque ela tentou me atacar.
— Com o quê?
Ele hesitou.
— Com uma peça de decoração.
— Qual?
O silêncio durou um segundo a mais do que deveria.
— Não lembro.
Eu assenti devagar.
— Interessante.
Helena perdeu a paciência.
— Antônio, pare de agir como se estivesse interrogando alguém.
Olhei para ela.
— Não estou interrogando. Estou ouvindo vocês mentirem.
Foi então que percebi algo que antes tinha passado despercebido.
A mão direita de Eduardo tinha dois cortes pequenos nos nós dos dedos.
Não eram ferimentos de defesa.
Pareciam recentes.
E havia uma faixa fina de sangue seco junto à unha do indicador.
Meu olhar desceu até o taco no chão.
Não havia sangue nele.
Aquilo me deu um alívio que durou pouco.
Se não fora o taco, havia outra coisa.
Dentro da casa, ouvi passos apressados.
O policial reapareceu.
— Chamem uma ambulância.
Meu corpo inteiro endureceu.
— Ela está consciente?
— Está.
Passei por ele sem pedir licença.
Dessa vez ninguém tentou me impedir.
Subi a escada acompanhado do segundo agente.
O corredor no andar superior cheirava a perfume e produto de limpeza.
A porta do último quarto estava aberta.
Mariana estava sentada na beirada da cama.
Por um instante, eu não reconheci minha filha.
Um hematoma escuro cobria parte do lado esquerdo do rosto. O lábio estava cortado. Havia marcas vermelhas no pulso e uma faixa roxa se formando perto da clavícula.
Célia estava ajoelhada diante dela.
Quando Mariana me viu, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Pai.
Eu atravessei o quarto.
Ela se levantou, mas as pernas cederam.
Segurei-a antes que caísse.
— Estou aqui.
Mariana agarrou minha camisa.
Durante alguns segundos, ela não conseguiu falar.
Eu também não.
Tudo que eu queria era carregá-la dali.
Mas sabia que, se saíssemos sem entender o que estava acontecendo, os Ferraz teriam tempo para apagar rastros, alinhar versões e transformar Mariana na culpada.
Então esperei.
A respiração dela foi desacelerando.
— Eduardo disse que você teve um surto — falei.
Ela fechou os olhos.
— Eu sabia que ele faria isso.
— Conte do começo.
O policial se aproximou.
— Senhora Mariana, podemos conversar quando a ambulância chegar.
Ela balançou a cabeça.
— Não. Agora.
Olhou para mim.
— Ontem recebi uma mensagem do banco perguntando sobre o atraso de uma operação que eu nunca fiz. Achei que fosse fraude. Quando liguei, disseram que eu era garantidora de um empréstimo da Ferraz Desenvolvimento.
— Quatro milhões e oitocentos mil?
Ela me encarou, surpresa.
— Como você sabe?
— Célia encontrou cópias.
Mariana olhou para a empregada.
— Você pegou?
Célia assentiu, chorando.
— Desculpe, dona Mariana. Eu ouvi a discussão e fiquei com medo de que eles destruíssem tudo.
Mariana apertou minha mão.
— Eu confrontei Eduardo. Ele disse que eu tinha assinado uma autorização meses atrás.
— Você assinou?
— Nunca.
— Tem certeza?
Ela quase riu, apesar do rosto machucado.
— Pai, era sobre o patrimônio da mamãe. Eu leio qualquer documento ligado àquilo três vezes.
Aquilo soou exatamente como Mariana.
— E depois?
— Renato apareceu. Disse que podia resolver tudo se eu assinasse uma nova procuração confirmando que Eduardo tinha autorização para administrar meus bens.
— A procuração irrevogável.
Ela empalideceu.
— Você viu?
Assenti.
— Eu disse que não assinaria. Disse que procuraria o banco e denunciaria a falsificação.
A voz dela falhou.
Esperei.
— Foi quando Helena começou a dizer que eu estava cansada, confusa, que vinha tendo crises havia semanas.
— Isso era verdade?
— Não.
— Alguma consulta? Algum diagnóstico?
— Nada.
O policial anotava.
Mariana continuou.
— Renato mostrou um documento de internação psiquiátrica e disse que, se eu criasse um escândalo, eles provariam que eu não estava em condições de cuidar das minhas próprias decisões financeiras.
— Quem bateu em você?
Ela ficou em silêncio.
Não de medo.
Parecia vergonha.
— Eduardo.
Meu corpo ficou rígido.
— Só ele?
Mariana olhou para a porta.
— Helena segurou meu braço quando tentei sair. Eduardo tomou meu celular. Eu consegui pegar outro aparelho antigo que ficava numa gaveta e liguei para você escondida no banheiro.
Então compreendi a ligação.
O estrondo.
A voz feminina.
A respiração dela.
— Eles arrombaram a porta?
Ela assentiu.
— Eduardo me puxou para fora. Eu bati o rosto no batente.
Respirei pelo nariz.
Devagar.
— E a braçadeira?
— Renato.
Aquilo mudou alguma coisa dentro de mim.
Até aquele instante, eu ainda podia imaginar um marido violento, uma mãe protegendo o filho e um irmão advogado tentando controlar o desastre.
Mas os três haviam participado.
Cada um com uma função.
— O que aconteceu depois?
Mariana baixou a voz.
— Eles queriam minha assinatura antes de segunda-feira.
— Por quê?
Ela olhou para mim.
— Eu não sei.
Foi a primeira resposta que realmente me preocupou.
— Eduardo disse alguma coisa?
Mariana franziu a testa, tentando lembrar.
— Quando achou que eu estava dormindo, ouvi ele discutindo com Renato no corredor.
— Sobre o quê?
— Renato disse: “Se ela não assinar até segunda, o banco vai abrir tudo.”
O policial ergueu os olhos.
— Abrir o quê?
Mariana balançou a cabeça.
— Não sei.
Eu me levantei.
Agora havia uma pergunta nova.
Não era apenas por que tinham usado o patrimônio dela.
Era o que aconteceria na segunda-feira.
Olhei para Célia.
— Você tem acesso ao escritório do Eduardo?
Ela hesitou.
— Tenho a chave da limpeza.
— Antônio — disse o policial. — Não mexa em nada. Isso pode comprometer a investigação.
— Não vou mexer.
Voltei-me para Mariana.
— Mas eles já tiveram a noite inteira para fazer isso.
O policial entendeu antes que eu terminasse.
Saiu rapidamente do quarto e chamou o colega pelo rádio.
Poucos minutos depois, ouvimos vozes alteradas no andar de baixo.
Depois passos.
Depois Renato gritando:
— Vocês não podem entrar no escritório sem autorização!
Eu quase sorri.
Quase.
A ambulância chegou enquanto os agentes isolavam o cômodo.
Quando colocaram Mariana na maca, ela segurou meu pulso.
— Pai.
— O quê?
— Tem outra coisa.
Abaixei-me.
— Ontem, quando Eduardo estava falando com Renato, ouvi meu nome e o seu.
— O meu?
Ela assentiu.
— Renato disse: “Se Antônio descobrir de onde saiu o primeiro dinheiro, acabou.”
Fiquei imóvel.
— Que primeiro dinheiro?
— Eu não sei.
Mariana apertou minha mão.
— Mas acho que isso começou muito antes de eu encontrar aquela cobrança.
Enquanto os paramédicos a levavam, olhei para Renato no fim do corredor.
Ele já não parecia um advogado tentando proteger a família.
Parecia um homem vendo o passado alcançar a porta da frente.
E, pela primeira vez naquela manhã, percebi que talvez eles não estivessem com medo apenas do que Mariana sabia.
Talvez estivessem com medo do que eu poderia descobrir.







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