Marcelo não perdeu um segundo.
Enquanto dois agentes corriam para as viaturas, ele ligou diretamente para a equipe que estava no hospital.
— Ninguém entra no quarto de Mariana sem identificação confirmada. Ninguém. Nem advogado, nem parente, nem funcionário.
Eu já caminhava em direção ao carro.
— Antônio.
Olhei para ele.
— Você vem comigo, mas fica atrás da polícia.
— Se Renato estiver lá...
— Justamente por isso.
Entrei sem discutir.
Dessa vez, eu sabia que ele tinha razão.
Passei anos acreditando que proteger alguém significava ser o primeiro a atravessar a porta.
Talvez proteger Mariana agora significasse não deixar minha raiva destruir a única coisa que ainda podia nos levar à verdade inteira.
Durante o trajeto, Eduardo continuava na linha.
Marcelo colocou o telefone no viva-voz.
— Você consegue nos dizer onde está? — perguntou.
— Num posto desativado perto da saída para Anápolis.
— Por que fugiu?
Eduardo respirou fundo.
— Porque Renato disse que, se eu fosse preso, ele cuidaria de tudo. Depois percebi que “cuidar de tudo” significava colocar a culpa em mim.
— Em que sentido?
— A procuração está vinculada ao meu certificado digital. Os acessos bancários aparecem no meu computador. O pedido de internação foi enviado do meu e-mail.
Marcelo me lançou um olhar.
— E quem preparou tudo?
— Renato.
— Você sabia?
Silêncio.
— Sabia de algumas coisas.
— Quais?
— Que o empréstimo precisava do patrimônio de Mariana. Que Renato falsificou documentos antigos. Que Helena ajudaria a convencer Mariana a não procurar advogado.
Meu estômago se revirou.
— E você aceitou.
— Sim.
Não havia como suavizar aquilo.
Nem ele tentou.
— Mas eu não sabia que Renato pretendia declarar Mariana incapaz até ontem — continuou. — Quando ela descobriu a dívida, ele apareceu com os papéis prontos.
— E você não impediu.
A voz de Eduardo ficou baixa.
— Não.
— Então pare de falar como se tivesse sido enganado em tudo.
Ele ficou calado.
Marcelo interveio.
— Qual é a conta para onde Renato mandou o dinheiro?
— Não é uma conta comum. É de uma empresa em Montevidéu chamada Sul Atlântico Holdings.
— Você tem os dados?
— Tenho uma foto.
Meu telefone recebeu a imagem segundos depois.
Marcelo encaminhou para a equipe financeira.
— Por que guardar isso? — perguntei.
— Porque comecei a desconfiar dele seis meses atrás.
— Seis meses?
— Quando descobri que a Ferraz Desenvolvimento devia muito mais do que Renato dizia.
— E mesmo assim continuou.
— Sim.
A resposta me deu mais clareza sobre Eduardo do que qualquer desculpa poderia dar.
Ele não era um inocente preso num plano do irmão.
Era um homem que percebera que algo estava errado e escolhera continuar porque ainda acreditava que poderia sair ganhando.
Só agora, quando o plano estava desmoronando, decidira colaborar.
— Se quer ajudar Mariana — falei — diga tudo.
Eduardo respirou fundo.
— Há uma pasta chamada “T.A.” no servidor externo da empresa.
Marcelo anotou.
— O que significa?
— Teresa Almeida.
Meu coração apertou.
— O que tem nela?
— Cópias dos pagamentos antigos, os e-mails com Augusto, os documentos usados para criar as garantias e...
Ele parou.
— E?
— Uma planilha.
— De quê?
— De tudo que Renato calculava conseguir extrair do patrimônio da Mariana ao longo dos anos.
Fechei os olhos.
Não era uma dívida improvisada.
Era um plano.
Longo.
Calculado.
Frio.
— Quanto? — perguntei.
— Mais de doze milhões.
Por um instante, ninguém falou.
Doze milhões.
O casamento, as garantias, as procurações, as renovações de dívida.
Tudo tinha sido transformado em números.
Inclusive minha filha.
---
Quando chegamos ao hospital, havia policiais nas duas entradas.
Meu coração só desacelerou quando vi Mariana sentada na cama, acordada, com uma agente ao lado.
Ela olhou para mim.
— O que aconteceu?
Eu não menti.
— Renato pode estar tentando chegar até você.
O rosto dela ficou pálido, mas não desmoronou.
— Ele esteve aqui.
Marcelo parou.
— Quando?
— Uns quarenta minutos atrás.
— Entrou?
— Não. Uma enfermeira disse que havia um homem perguntando meu quarto. Ele se identificou como advogado da família.
A agente imediatamente falou no rádio.
Mariana olhou para mim.
— Era ele?
— Provavelmente.
Ela respirou fundo.
Depois disse algo que me surpreendeu:
— Então ele está com medo.
Não havia mais apenas terror nos olhos dela.
Havia raciocínio.
— Sim — respondi.
— Porque acha que eu sei alguma coisa.
Marcelo se aproximou.
— Você sabe?
Mariana ficou pensativa.
— Talvez.
Ela pediu seu celular.
— Ontem, antes de Eduardo tomar meu telefone, eu mandei um arquivo para mim mesma.
— Que arquivo?
— A planilha que encontrei no notebook dele.
Meu coração acelerou.
— A planilha da Teresa?
— Não sei. Não consegui abrir direito. Vi meu nome, valores e datas. Quando Eduardo entrou no escritório, enviei para meu e-mail.
Marcelo pegou o aparelho.
— Consegue acessar?
— Sim.
Poucos minutos depois, o arquivo estava aberto no notebook da polícia.
Era exatamente o que Eduardo havia descrito.
Linhas e mais linhas de garantias, patrimônio, datas e valores.
Mas havia uma coluna final.
“Status.”
Algumas linhas diziam:
“Regularizado.”
Outras:
“Renovado.”
E três diziam:
“Assinatura pendente.”
A última linha tinha data para segunda-feira.
Valor: R$ 4.800.000.
Marcelo apontou.
— É o empréstimo atual.
Mariana assentiu.
Então notei algo no rodapé da planilha.
Uma pequena observação:
“Após conclusão, encerrar exposição A.A.”
— Amplie isso.
Marcelo ampliou.
A.A.
Meu nome.
— O que significa “encerrar exposição”? — perguntei.
Mariana falou antes dele.
— Talvez destruir o material sobre você.
Aquilo fazia sentido.
Se conseguissem a assinatura dela, Renato poderia finalmente apagar o último vínculo entre os pagamentos antigos de Teresa e o esquema atual.
Eles não queriam apenas salvar a empresa.
Queriam fechar uma história de onze anos.
O celular de Marcelo tocou.
Ele ouviu em silêncio por alguns segundos.
— Entendido.
Desligou.
— Localizaram Renato.
Meu corpo ficou rígido.
— Onde?
— No estacionamento de um aeroporto executivo.
— Fugindo?
— Parece que sim.
— E o dinheiro?
— A transferência foi bloqueada antes de concluir.
Mariana fechou os olhos.
Pela primeira vez, pareceu respirar de verdade.
Mas Marcelo não parecia aliviado.
— Tem um problema.
— Qual?
— Renato está dizendo que toda a operação foi montada por Eduardo.
Olhei para ele.
— Claro.
— E apresentou documentos.
— Falsos?
— Ainda não sabemos.
Mariana ficou muito quieta.
Então levantou os olhos.
— Eu sei como provar quem está mentindo.
Todos olharam para ela.
— Como?
Ela respirou fundo.
— Porque ontem, quando Renato me mostrou o pedido de internação, eu liguei o gravador do meu relógio.
Meu coração quase parou.
— Você gravou a conversa?
Ela assentiu.
— Não toda.
— Quanto?
— O suficiente.
Marcelo pegou o relógio lacrado entre os pertences dela.
— O que ele disse?
Mariana olhou diretamente para mim.
— Disse que Eduardo era descartável.
Depois olhou para Marcelo.
— E disse que, quando eu assinasse, ele finalmente apagaria “a dívida dos Almeida” e colocaria tudo nas costas do irmão.
O silêncio caiu no quarto.
Onze anos de chantagem.
Quatro anos de casamento.
Uma dívida falsa.
Uma internação planejada.
E, finalmente, a voz do próprio Renato ligando tudo.
Marcelo segurou o relógio com cuidado.
— Se o áudio estiver intacto, amanhã não vamos apenas confrontá-lo.
— Vamos acabar com isso — disse Mariana.
Olhei para minha filha.
No dia anterior, ela havia sussurrado “Pai, me ajuda”.
Agora estava sentada diante de nós, machucada, assustada, mas escolhendo participar da própria saída.
E eu entendi que o confronto final não seria meu.
Seria dela.







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