Meu primeiro impulso foi exigir que Natália falasse ali mesmo.
Mas o delegado Augusto ainda estava diante de nós, dois agentes atravessavam a sala carregando caixas de documentos, e Marcelo continuava me observando pela janela da viatura como se pudesse ouvir cada palavra mesmo do outro lado da rua.
“Você sabe quem é essa mulher?”, perguntei.
Natália demorou demais para responder.
“Sei um nome.”
“Então diga.”
“Carolina.”
A palavra não significou nada para mim.
E, ao mesmo tempo, mudou tudo.
“Carolina quem?”
“Carolina Farias.”
“E por que Rosalina a chamou de primeira esposa de Marcelo?”
Natália olhou para Augusto antes de responder.
“Porque, há algumas semanas, encontrei uma certidão de casamento antiga ligada ao CPF dele.”
Meu corpo inteiro ficou rígido.
“Você está me dizendo que investigou meu marido, descobriu que ele já tinha sido casado e decidiu não me contar?”
“Eu não sabia se o documento era legítimo.”
“Pare de usar isso como desculpa.”
“Não é desculpa.”
“Então o que é?”
“Medo.”
Aquilo me calou por um segundo.
Natália respirou fundo.
“Quando comecei a procurar Carolina, alguém invadiu meu escritório.”
Augusto ergueu a cabeça.
“Isso não consta em nenhum boletim.”
“Porque nada aparentemente foi roubado.”
“E mesmo assim você acha que teve relação com Marcelo?”
“Meu computador foi mexido. Uma gaveta trancada apareceu aberta. E as únicas cópias físicas que sumiram eram documentos relacionados a Carolina.”
Olhei novamente para o bilhete de Rosalina.
Procure a primeira esposa de Marcelo.
Minha mente começou a reorganizar tudo.
Marcelo sempre dizia que eu era sua primeira relação séria.
Contava histórias sobre namoros de juventude, nenhuma importante.
Nenhum casamento.
Nenhum divórcio.
Nenhuma Carolina.
“Quero ir ao hospital”, falei.
Augusto concordou.
“Um agente acompanha você.”
Natália deu um passo.
“Eu também vou.”
“Não.”
Ela parou.
“Helena…”
“Você entregou seu celular. Fez o que precisava fazer. Agora eu quero distância.”
A dor no rosto dela pareceu verdadeira.
Naquela noite, eu já não confiava na minha capacidade de distinguir verdade de atuação.
Rosalina estava acordada quando cheguei ao hospital.
Um monitor cardíaco marcava cada batimento em um ritmo constante. Havia soro preso ao braço dela, e os hematomas pareciam ainda mais escuros sob a luz branca do quarto.
Quando me viu, seus olhos foram imediatamente para minhas mãos.
“Achou o papel?”
Puxei uma cadeira para perto da cama.
“Quem é Carolina?”
Rosalina fechou os olhos.
“Então chegou a hora.”
“Marcelo foi casado com ela?”
“Foi.”
A resposta veio sem hesitação.
Senti uma pressão estranha no peito.
“Por que ninguém nunca me contou?”
“Porque Marcelo fez questão de que ninguém contasse.”
“E você aceitou?”
Rosalina virou o rosto para mim.
“Eu tentei avisar você antes do casamento.”
Fiquei imóvel.
“Quando?”
“Naquela tarde em que você veio me visitar sozinha. Lembra?”
Lembrava.
Três semanas antes do casamento.
Rosalina havia começado uma frase estranha enquanto tomávamos café.
Marcelo nem sempre foi…
Então Beatriz apareceu sem avisar.
Na época, achei coincidência.
“Carolina desapareceu da vida dele?”, perguntei.
Rosalina respirou lentamente.
“Não exatamente.”
Meu estômago apertou.
“Explique.”
“Eles ficaram casados por menos de dois anos. Carolina percebeu que Marcelo usava o nome dela para abrir contas, pedir empréstimos e movimentar dinheiro.”
Era perturbadoramente familiar.
“Ela descobriu a fraude?”
“Sim.”
“Foi à polícia?”
“Pretendia.”
A forma como Rosalina pronunciou aquela palavra me fez inclinar para frente.
“Pretendia?”
“Três dias antes de uma reunião que teria com um advogado, Carolina sofreu um acidente de carro.”
Fiquei em silêncio.
“Ela morreu?”
“Não.”
Aquilo me surpreendeu ainda mais.
“Então onde ela está?”
Rosalina olhou para a porta antes de continuar.
“Foi embora. Mudou de cidade. Sumiu de todo mundo.”
“Você manteve contato?”
“Durante algum tempo.”
“E depois?”
“Ela ficou com medo.”
“De Marcelo?”
Rosalina apertou os lábios.
“De Beatriz.”
Aquilo me atravessou como gelo.
Até então, eu havia imaginado Beatriz como cúmplice do filho.
Talvez fosse mais do que isso.
“Por quê?”
“Porque Carolina acreditava que foi Beatriz quem mexeu no carro.”
Minha respiração ficou curta.
“Ela tinha provas?”
“Não suficientes.”
“E você acreditou nela?”
“Depois do que fizeram comigo, você ainda precisa perguntar?”
Não.
Não precisava.
Lembrei da seringa no bolso de Marcelo.
Dos sedativos.
Da cadeira contra a porta.
Da comida colocada longe da cama.
De Beatriz segurando o braço de Rosalina.
Aquilo não começara comigo.
Talvez eu fosse apenas a versão mais recente de um método antigo.
“E a chave?”, perguntei.
Rosalina apontou para o saco de evidências que Augusto havia deixado comigo temporariamente para identificação.
“É de um guarda-volumes.”
“Qual?”
“Rodoviária antiga de Campinas.”
“Há quanto tempo você guarda isso?”
“Sete anos.”
Quase ri de incredulidade.
“E nunca abriu?”
“Não era meu.”
“De quem era?”
“De Carolina.”
Rosalina explicou que Carolina lhe entregara a chave pouco antes de desaparecer.
Dissera apenas que, se Marcelo algum dia repetisse com outra mulher o que havia feito com ela, Rosalina deveria entregar a chave à vítima.
Eu era essa mulher.
“Você sabe o que tem lá dentro?”
“Só sei o que ela me disse.”
“E o que foi?”
Rosalina segurou minha mão.
“Que era o suficiente para provar que Marcelo não começou a fraudar pessoas depois que se casou com você.”
Na manhã seguinte, Augusto conseguiu autorização para acompanhar a abertura do guarda-volumes.
A unidade estava coberta de poeira.
Dentro havia uma única caixa de plástico cinza.
Nenhum dinheiro.
Nenhuma joia.
Nenhum objeto pessoal.
Só documentos.
Extratos antigos.
Cópias de contratos.
Cartas.
Um pen drive.
E um envelope com meu nome.
HELENA.
Minha mão parou no ar.
“Isso não é possível”, murmurei.
Carolina havia desaparecido anos antes de eu conhecer Marcelo.
Augusto calçou luvas e abriu o envelope.
Dentro havia uma fotografia minha saindo do prédio da minha antiga empresa.
No verso estava escrita uma data.
Onze anos atrás.
Muito antes de eu conhecer Marcelo oficialmente.
Abaixo da data havia apenas uma frase:
É ela.
Meu sangue gelou.
Marcelo não tinha me conhecido por acaso.
Ele já sabia quem eu era anos antes de entrar na minha vida.
Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.







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