A notícia sobre o sangue no carro de Ricardo mudou imediatamente o rumo da investigação.
Até aquele momento, Augusto acreditava que estávamos lidando com fraude, falsificação, maus-tratos contra Rosalina e uma possível conspiração financeira.
Agora havia a possibilidade de alguém estar eliminando pessoas capazes de falar.
“Encontraram o corpo?”, perguntei.
“Não.”
“Quanto sangue?”
“O suficiente para tratar o carro como cena de crime.”
Meu primeiro pensamento foi Marcelo.
Depois Beatriz.
Mas os dois estavam sob custódia quando Ricardo desapareceu.
Alguém mais estava agindo.
“Não conte isso a eles ainda”, falei.
“Helena, eu não recebo ordens suas.”
“Eu sei. Estou pedindo.”
Augusto ficou em silêncio por alguns segundos.
“Também prefiro não revelar.”
Desliguei e olhei para Rosalina.
“Ricardo desapareceu.”
Ela segurou o lençol com força.
“Então Carolina estava certa.”
“Sobre o quê?”
“Marcelo nunca foi o topo.”
Aquela frase permaneceu comigo durante o caminho de volta à delegacia.
Nunca foi o topo.
Eu passara as últimas horas desmontando a imagem que tinha de meu marido.
Descobrira que ele me escolhera anos antes de me conhecer oficialmente, que repetira comigo o mesmo padrão usado contra Carolina e que havia construído uma rede financeira ao redor das pessoas mais próximas de mim.
Mesmo assim, talvez ele também fosse apenas uma peça.
Quando entrei na sala de interrogatório, Marcelo ergueu os olhos.
Estava sem as algemas, mas havia um agente do lado de fora.
“Veio finalmente conversar comigo?”
Sentei-me do outro lado da mesa.
Augusto permanecia atrás do vidro.
“Quem é Ricardo Almeida para você?”
A reação foi mínima.
Mas existiu.
Um piscar mais lento.
Uma contração na mandíbula.
“Seu contador.”
“Não perguntei quem ele é para mim.”
Marcelo inclinou-se para trás.
“Está começando a descobrir as coisas, não é?”
“Onze anos de pagamentos.”
O sorriso desapareceu.
“Fotografias minhas antes de nos conhecermos.”
Silêncio.
“Registros de empresas.”
Marcelo desviou o olhar.
“Carolina.”
Foi a primeira vez que ele perdeu completamente a expressão.
Ali estava.
Medo.
“Ela está viva?”, ele perguntou.
“Você não sabe?”
Marcelo fechou a boca.
A pergunta escapara.
“Por que teria motivo para pensar que Carolina estivesse morta?”
Ele percebeu tarde demais.
“Você está tentando me provocar.”
“Não preciso.”
Aproximei-me da mesa.
“Quem mandou você se aproximar de mim?”
“Eu me apaixonei por você.”
Quase senti pena de como aquilo soava vazio.
“Você tinha minha fotografia dois anos antes.”
“Isso não prova nada.”
“Ricardo pagava você naquela época.”
Marcelo permaneceu em silêncio.
“Foi Ricardo quem me escolheu?”
Nada.
“Ou havia alguém acima dele?”
O olhar de Marcelo mudou.
Não era desprezo.
Era cálculo.
“Se eu falar, quero um acordo.”
Augusto entrou imediatamente.
“Você não está em posição de exigir nada.”
Marcelo riu.
“Então continuem procurando.”
“Ricardo desapareceu”, falei.
Marcelo parou de rir.
Por um segundo, a máscara caiu.
“Desapareceu como?”
“Você parece preocupado.”
Ele olhou para Augusto.
“Vocês encontraram o corpo?”
A mesma pergunta que eu fizera.
Augusto não respondeu.
Marcelo se levantou.
O agente entrou no mesmo instante.
“Eu preciso de proteção.”
“Por quê?”, perguntou Augusto.
“Porque se Ricardo não chegou ao avião, então ela já começou a limpar tudo.”
O silêncio dentro da sala ficou pesado.
“Ela quem?”, perguntei.
Marcelo percebeu o erro.
Sentou-se novamente.
“Quero meu advogado.”
Não disse mais uma palavra.
Mas já era suficiente.
Havia uma mulher.
E Marcelo tinha medo dela.
Enquanto Augusto tentava obter autorização para novas buscas, Natália pediu para falar comigo.
Eu quase recusei.
Acabei aceitando porque já não podia me dar ao luxo de ignorar qualquer informação.
Ela entrou numa sala menor carregando apenas um bloco de papel.
“Lembrei de uma coisa.”
“Espero que desta vez não seja algo que você resolveu esconder por seis semanas.”
Ela aceitou o golpe sem reagir.
“Quando Marcelo me procurou sobre a estrutura da BMB, ele não veio sozinho na primeira reunião.”
Franzi a testa.
“Quem estava com ele?”
“Uma mulher.”
“Beatriz?”
“Não.”
Meu coração acelerou.
“Você sabe o nome?”
“Ele a apresentou como consultora patrimonial. Vera Montenegro.”
O nome não significava nada.
“Você verificou?”
“Depois. Não encontrei escritório, registro profissional compatível nem histórico empresarial que justificasse ela estar naquela reunião.”
“E você não achou estranho?”
“Na época, achei que fosse alguém representando investidores.”
“Como ela era?”
Natália pensou.
“Uns cinquenta e poucos anos. Muito elegante. Falava pouco. Marcelo parecia diferente perto dela.”
“Diferente como?”
“Cauteloso.”
Aquilo correspondia ao medo que eu acabara de ver.
“Ela tomou alguma decisão?”
“Todas.”
Natália virou uma página.
“Eu fui rever minhas anotações antigas. Foi Vera quem definiu que a holding deveria permitir movimentações entre empresas relacionadas. Foi ela quem perguntou sobre rastreabilidade bancária. E foi ela quem insistiu que alguns nomes não aparecessem nos documentos preliminares.”
“Quais nomes?”
“Ela nunca disse.”
Meu telefone tocou.
Augusto.
“Temos uma coisa sobre Ricardo.”
Atendi no viva-voz.
“O sangue no carro não é dele.”
Natália e eu trocamos um olhar.
“De quem é?”
“Ainda estamos verificando.”
“Então ele pode ter encenado tudo.”
“Pode.”
Augusto fez uma pausa.
“Mas encontramos uma câmera do estacionamento que não foi apagada.”
Meu pulso acelerou.
“O que aparece?”
“Ricardo chega sozinho. Quinze minutos depois, uma mulher entra no carro dele.”
“Vera?”
“Não temos imagem suficiente para confirmar o rosto.”
“Depois?”
“O carro fica parado nove minutos.”
“E Ricardo?”
“Não sai.”
Senti um aperto no peito.
“Quem sai?”
“A mulher.”
“Com sangue na roupa?”
“Não dá para ver.”
“E depois?”
“Outro homem aparece, dirige o carro até outra área do estacionamento e vai embora a pé.”
Natália ficou pálida.
“Eles estavam limpando a cena.”
Augusto continuou:
“Helena, tem mais uma coisa. Conseguimos rastrear uma ligação feita por Ricardo poucas horas antes de desaparecer.”
“Para quem?”
“Para um telefone pré-pago.”
“Sem nome?”
“Sim. Mas o aparelho já apareceu antes.”
“Em quê?”
Houve alguns segundos de silêncio.
“Nos registros de proximidade da sua casa.”
Meu estômago afundou.
“Quando?”
“Várias vezes nos últimos seis meses.”
Natália levantou os olhos para mim.
“Alguém estava monitorando você.”
Augusto não havia terminado.
“E ontem à noite, pouco antes de você encontrar Rosalina, esse telefone estava a menos de duzentos metros da sua residência.”
Meu corpo inteiro esfriou.
Enquanto Marcelo e Beatriz preparavam o que acreditavam ser a fase final do plano, havia uma terceira pessoa observando tudo.
“Consegue rastrear o aparelho agora?”
“Acabamos de conseguir.”
“Onde está?”
Augusto respirou fundo.
“Em movimento.”
“Indo para onde?”
“Para o hospital onde Rosalina está internada.”
Levantei tão rápido que a cadeira caiu para trás.
“Augusto, mande alguém para lá agora.”
“Uma equipe já está indo.”
Peguei minha bolsa.
Natália veio atrás.
“Helena, você não pode ir sozinha.”
“Eu não vou esperar.”
Meu telefone vibrou antes que eu chegasse à porta.
Era uma chamada do hospital.
Atendi.
Ninguém falou.
Só ouvi uma respiração curta.
Depois a voz de Rosalina.
“Helena…”
Parecia estar tentando não chorar.
“Rosalina, o que aconteceu?”
Um silêncio.
Então ela sussurrou:
“Ela está aqui.”
A ligação caiu.
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