Corri pelo corredor da delegacia enquanto Augusto gritava ordens atrás de mim.
Natália veio junto, mas nenhum de nós falou.
Durante todo o caminho até o hospital, tentei ligar para Rosalina.
Nada.
Na terceira tentativa, alguém atendeu.
“Dona Rosalina?”
Silêncio.
Então ouvi passos.
A ligação terminou.
Quando chegamos, duas viaturas já bloqueavam a entrada lateral. Augusto apareceu poucos segundos depois, acompanhado por dois investigadores.
“Fique atrás da equipe”, ordenou.
Dessa vez, não discuti.
O quarto de Rosalina estava vazio.
O soro continuava pendurado.
Os cabos do monitor haviam sido desconectados com cuidado, não arrancados.
Sobre a cama havia uma única flor branca.
Natália parou na porta.
“Meu Deus.”
Augusto chamou a segurança.
Uma enfermeira apareceu quase chorando.
“Uma mulher disse que era parente. Tinha documentos, sabia o nome completo da paciente, data de nascimento, tudo.”
“Como ela era?”, perguntei.
“Elegante. Cabelo escuro. Talvez cinquenta e poucos anos.”
Olhei para Natália.
“Vera.”
A enfermeira assentiu quando Natália mostrou, no celular de outro investigador, uma fotografia antiga recuperada dos registros de acesso ao prédio onde funcionava seu escritório.
“É ela.”
Meu peito apertou.
“Para onde levaram Rosalina?”
“Ninguém levou. Eu entrei para verificar os sinais vitais e ela já não estava.”
Augusto pediu imediatamente as imagens das câmeras.
Encontramos Rosalina menos de quinze minutos depois.
Ela estava sentada dentro de uma pequena capela no térreo, enrolada em um cobertor hospitalar.
Viva.
Consciente.
Sozinha.
Corri até ela.
“Você está bem?”
Rosalina segurou minha mão.
“Ela não veio me matar.”
“Quem é Vera?”
Rosalina demorou a responder.
“Eu não sabia o nome que ela usava agora.”
Senti minha respiração prender.
“Você já a conhecia.”
“Há muitos anos.”
Augusto se aproximou.
“Precisamos saber tudo.”
Rosalina olhou para mim.
“Ela trabalhava com seu antigo empregador.”
Meu corpo ficou imóvel.
“Minha antiga empresa?”
“Foi assim que Marcelo recebeu informações sobre você.”
Aquilo finalmente ligava os pontos.
Vera não era apenas uma consultora misteriosa.
Ela tivera acesso direto ao mundo profissional que eu ocupava antes de conhecer Marcelo.
“Qual era o cargo dela?”
Rosalina balançou a cabeça.
“Não sei. Carolina dizia que Vera era quem encontrava pessoas com acesso a dinheiro, sistemas e empresas.”
Natália ficou pálida.
“Então Ricardo não escolheu Helena.”
“Não”, respondeu Rosalina. “Ricardo executava.”
Minha garganta secou.
“E Marcelo?”
“Se aproximava.”
“Beatriz?”
“Protegia o esquema e ajudava a manter as vítimas sob controle.”
Augusto se agachou diante dela.
“Por que Vera veio aqui?”
Rosalina abriu a mão.
Havia um pequeno pedaço de papel amassado.
“Ela me entregou isto.”
Augusto usou luvas para recolhê-lo.
Era um endereço.
Um galpão industrial na região metropolitana de São Paulo.
E uma hora.
22h30.
Embaixo, apenas duas palavras:
TRAGA HELENA.
“Isso é uma armadilha”, Natália disse.
“Provavelmente”, respondeu Augusto.
Rosalina apertou meu braço.
“Ela disse que Carolina está lá.”
Meu coração disparou.
“Carolina está viva?”
“Foi o que Vera disse.”
“E Ricardo?”
Rosalina fechou os olhos.
“Também.”
Ninguém falou.
Se Vera dizia a verdade, duas das pessoas capazes de desmontar o esquema estavam juntas no mesmo lugar.
Se mentia, queria me atrair para longe da proteção policial.
Augusto pegou o celular.
“Vamos montar uma operação.”
“Eu vou.”
“Não.”
“Ela pediu por mim.”
“Exatamente por isso você não vai.”
Olhei para ele.
“Se Vera está por trás disso há mais de uma década, ela não vai aparecer se perceber que perdeu o controle.”
“Não vou usar você como isca.”
“Ela já está me usando.”
Augusto não gostou.
Mas sabia que eu tinha razão.
Às dez e vinte e sete daquela noite, entrei no galpão usando um transmissor escondido sob a roupa.
A equipe de Augusto cercava o perímetro.
Natália ficou na central improvisada dentro de uma van.
O espaço estava quase escuro.
Havia caixas empilhadas, máquinas antigas e uma mesa iluminada por uma única lâmpada.
Uma mulher estava sentada à espera.
Vera Montenegro.
Ela parecia exatamente como Natália a descrevera.
Elegante.
Controlada.
Sem qualquer sinal de medo.
“Helena.”
“Você me conhece há bastante tempo.”
“Mais do que imagina.”
“Cadê Carolina?”
“Segura.”
“Ricardo?”
“Também.”
“Quero vê-los.”
Vera sorriu.
“Você continua tentando controlar a conversa. Foi isso que me chamou atenção em você tantos anos atrás.”
“Você mandou Marcelo se aproximar de mim?”
“Eu sugeri.”
As palavras atingiram mais forte do que esperava.
“Por quê?”
“Porque você tinha acesso, inteligência e ambição. Achei que um casamento seria suficiente para transformar essas qualidades em recursos.”
“Você transformava pessoas em contas bancárias.”
“Não seja dramática.”
Minha mão se fechou.
“Carolina quase morreu.”
O sorriso de Vera desapareceu.
“Carolina tomou decisões ruins.”
“E Rosalina?”
“Rosalina deveria ter aprendido a ficar fora dos assuntos dos outros.”
A voz de Augusto soou discretamente no meu ponto eletrônico.
Continue falando.
“Ricardo trabalhou para você?”
“Durante anos.”
“Foi você quem fez ele desaparecer?”
Vera inclinou a cabeça.
“Ricardo começou a acreditar que poderia negociar sozinho.”
“E o sangue no carro?”
“Uma encenação bastante eficiente.”
“De quem era?”
“De alguém que nunca fará diferença para você.”
Aquilo foi a primeira coisa que ela disse que realmente me assustou.
“E Marcelo?”
Vera riu baixo.
“Marcelo sempre confundiu charme com inteligência.”
“Ele está com medo de você.”
“Deveria.”
Ouvi um ruído atrás das caixas.
Movimento.
Então surgiu um homem.
Ricardo.
Estava vivo.
Tinha um corte no rosto e as mãos presas à frente.
Logo depois apareceu uma segunda figura.
Uma mulher magra, assustada, mas consciente.
Carolina.
Pela primeira vez, a mulher da gravação estava diante de mim.
Nossos olhos se encontraram.
“Helena”, ela disse.
Antes que eu pudesse responder, Vera colocou uma arma sobre a mesa.
Não apontou para ninguém.
Ainda.
“Agora vamos negociar.”
Meu coração bateu com força.
“Não tenho nada para negociar com você.”
“Tem.”
Ela empurrou uma pasta na minha direção.
Na capa estava o nome da minha empresa.
“Você ainda acredita que Marcelo tentou roubar quatro milhões de reais.”
“Ele tentou.”
“Sim.”
Vera sorriu.
“Mas aquela transferência nunca foi o objetivo principal.”
Abri a pasta.
A primeira página mostrava uma relação de clientes da minha empresa.
A segunda, contratos.
A terceira, credenciais internas.
E então entendi.
Minha empresa não era apenas a fonte do dinheiro.
Era a porta de entrada.
Vera se inclinou para frente.
“Seu trabalho de compliance lhe deu acesso indireto a dezenas de empresas, investigações e sistemas financeiros.”
Minha garganta secou.
“Vocês queriam meus clientes.”
“Queríamos o que você sabia sobre eles.”
Atrás de mim, ouvi sirenes se aproximando.
Vera não pareceu surpresa.
“Você trouxe a polícia.”
“Naturalmente.”
“Eu esperava.”
Ela pegou um controle remoto.
“Por isso deixei uma última garantia.”
Pressionou um botão.
Na parede, um monitor acendeu.
Apareceu uma transmissão ao vivo.
Marcelo estava sozinho em uma sala de custódia.
Diante dele havia um notebook aberto.
E na tela, uma contagem regressiva.
Quatro minutos e cinquenta e oito segundos.
“Se esse contador chegar a zero”, disse Vera, “todos os arquivos que roubamos usando seu casamento serão enviados para dezenas de destinatários.”
Meu sangue gelou.
“Como eu paro isso?”
Vera sorriu.
“Pergunte ao seu marido.”
Continua — clique na Parte 9 para continuar lendo.







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