Fiquei olhando para a fotografia até a imagem perder o sentido.
Onze anos atrás.
Naquela época, eu ainda não tinha minha própria empresa. Trabalhava no departamento de auditoria interna de um grande grupo logístico e passava mais horas em salas de reunião do que em casa.
Marcelo só apareceria oficialmente na minha vida quase dois anos depois, apresentado por amigos em um jantar.
Ou pelo menos era isso que eu acreditava.
“Precisamos analisar tudo antes de tirar conclusões”, disse Augusto.
Assenti, mas meus olhos continuaram presos à frase escrita atrás da fotografia.
É ela.
“Quero saber quem escreveu isso.”
A caixa foi levada para perícia, e o conteúdo do pen drive foi copiado seguindo cadeia de custódia. Como eu trabalhava justamente com preservação de provas digitais, sabia que Augusto não permitiria que eu tocasse no arquivo original.
Horas depois, assistimos juntos às primeiras gravações recuperadas.
Carolina aparecia sentada diante de uma câmera antiga.
Parecia ter pouco mais de trinta anos.
Estava nervosa.
“Se alguém estiver assistindo isso, significa que Marcelo tentou de novo.”
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Carolina respirou fundo diante da câmera.
“Ele não escolhe mulheres por amor. Ele escolhe pessoas que podem abrir portas para ele.”
Augusto pausou o vídeo.
“Isso já muda bastante o contexto.”
“Continue.”
A gravação voltou.
Carolina contou que conhecera Marcelo quando trabalhava em uma financeira. Ele parecia gentil, paciente e interessado em tudo sobre sua profissão.
Depois do casamento, começou a pedir favores.
Primeiro, pequenos.
Informações sobre clientes.
Modelos de contratos.
Procedimentos internos.
Quando ela percebeu, documentos com sua assinatura estavam sendo usados em operações que nunca havia autorizado.
Era exatamente o que acontecera comigo.
Só que havia algo pior.
“Quando tentei enfrentá-lo”, disse Carolina na gravação, “Beatriz apareceu.”
Ela contou que a mãe de Marcelo sabia de tudo.
Não apenas protegia o filho.
Ela ajudava a identificar pessoas úteis.
Pessoas com acesso.
Pessoas com patrimônio.
Pessoas que poderiam ser manipuladas sem perceber.
Carolina então levantou uma folha para a câmera.
Mesmo com a imagem granulada, reconheci o cabeçalho.
Era da empresa onde eu trabalhava onze anos antes.
Meu coração pareceu parar.
“Essa mulher se chama Helena”, Carolina disse. “Marcelo conseguiu informações sobre ela por meio de um cliente. Disse que ela era inteligente demais para ser enganada rapidamente, então teria que esperar.”
Eu me afastei da tela.
Augusto olhou para mim.
“Você está bem?”
“Continue.”
Carolina virou outra folha.
Desta vez havia informações sobre minha carreira.
Cargo.
Salário aproximado.
Endereço profissional.
Até eventos dos quais eu havia participado.
Aquilo não era interesse romântico.
Era seleção de alvo.
Minha garganta queimou.
Durante anos, eu havia acreditado que Marcelo se apaixonara pela minha ambição.
Agora entendia que minha ambição provavelmente tinha sido o motivo pelo qual ele se aproximara.
A gravação terminou com Carolina dizendo:
“Se ele chegar perto dela, alguém precisa avisá-la.”
A tela ficou preta.
Ninguém falou por vários segundos.
Então Augusto recebeu uma ligação.
Era da perícia financeira.
Os documentos encontrados no guarda-volumes continham registros de empresas abertas e encerradas ao longo de quase quinze anos.
Algumas ligadas diretamente a Marcelo.
Outras a Beatriz.
Mas havia um padrão.
Cada estrutura aparecia pouco antes de grandes movimentações financeiras envolvendo pessoas próximas a Marcelo.
E BMB Participações não era a primeira.
Era apenas a mais recente.
“Temos nomes de outras vítimas?”, perguntei.
“Estamos verificando.”
“Quantas?”
Augusto hesitou.
“Pelo menos três além de você e Carolina.”
Senti um frio subir pela coluna.
Aquilo não era uma fraude familiar improvisada.
Era um sistema.
Meu celular reserva tocou.
Era o hospital.
Rosalina havia acordado e queria falar comigo imediatamente.
Quando cheguei ao quarto, encontrei-a mais alerta.
“Você abriu a caixa”, disse.
“Abri.”
Ela fechou os olhos.
“Então agora sabe.”
“Se sabia que Marcelo me observava antes de me conhecer, por que deixou nosso casamento acontecer?”
A culpa no rosto dela foi instantânea.
“Porque eu só descobri depois.”
Sentei-me.
“Quando?”
“Dois anos depois do casamento de vocês.”
Aquilo doeu de um jeito diferente.
“E mesmo assim ficou em silêncio.”
“Eu tentei juntar provas. Carolina tinha desaparecido. Beatriz controlava Marcelo mais do que você imagina. E toda vez que eu ameaçava falar, eles diziam que você perderia tudo antes que conseguisse provar qualquer coisa.”
“Então você esperou até quase morrer?”
Rosalina começou a chorar.
Foi a primeira vez que a vi realmente desabar.
“Eu fui covarde.”
Minha raiva não desapareceu.
Mas também não consegui ignorar a mulher de oitenta e dois anos diante de mim, dopada durante meses pela própria família.
“Agora não adianta discutir o que deveria ter feito”, falei. “Preciso saber o que eles ainda podem fazer.”
Rosalina limpou os olhos.
“Marcelo tem uma segunda saída.”
“Que saída?”
“Ele nunca coloca tudo no próprio nome.”
Meu estômago se contraiu.
“De quem ele usa o nome?”
Ela olhou diretamente para mim.
“Da mãe.”
Na mesma hora liguei para Augusto.
Ele atendeu imediatamente.
“Preciso que verifique todas as empresas, imóveis e contas ligados a Beatriz.”
Houve silêncio do outro lado.
“Helena, acabamos de encontrar algo.”
“Diga.”
“Uma das empresas controladas por Beatriz recebeu dinheiro da BMB Participações esta manhã.”
“Hoje?”
“Sim.”
“Mas a transferência da minha empresa foi bloqueada.”
“Esse dinheiro não veio da sua empresa.”
Franzi a testa.
“Então veio de onde?”
Augusto respirou fundo.
“Da conta de Natália.”
Fiquei imóvel.
“Quanto?”
“Setecentos e cinquenta mil reais.”
Por um instante, não consegui responder.
Natália afirmara que estava investigando Marcelo havia semanas.
Entregara mensagens.
Arquivos.
Provas.
E agora descobríamos que uma empresa de Beatriz havia recebido três quartos de milhão de reais de uma conta ligada à minha própria advogada.
“Quando a transferência foi autorizada?”
“Quatro dias atrás.”
Durante minha viagem a São Paulo.
Fechei os olhos.
Tudo parecia voltar ao mesmo ponto.
Natália.
Quando os abri, Rosalina me observava com uma expressão que não consegui interpretar.
“Tem mais uma coisa”, ela disse.
Aproximei-me da cama.
“Carolina não desapareceu porque quis.”
Meu coração acelerou.
“Como assim?”
“Eu recebi uma ligação dela há dois meses.”
Prendi a respiração.
“Carolina está viva?”
Rosalina assentiu.
“E ela disse que tinha finalmente encontrado a pessoa que financiava Marcelo desde o começo.”
“Quem?”
Rosalina apertou minha mão.
“Ela não disse o nome.”
Parou por um instante.
“Só disse que era alguém que você já conhecia.”
Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.







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