Gustavo não perguntou quem era Patrícia.
Não franziu a testa. Não se aproximou da fotografia. Não fez nenhuma das coisas que uma pessoa surpresa faria ao descobrir que a assistente da própria esposa havia entrado num hospital disfarçada e mexido na bolsa dela.
Apenas ficou parado.
Foi menos de um segundo, mas suficiente.
— Você sabia — falei.
— Mariana...
— Você sabia que ela estava aqui.
Marcelo Tavares imediatamente se colocou entre nós.
— Minha recomendação é que todos parem esta conversa até entendermos exatamente o que aconteceu.
Ricardo soltou uma risada curta, sem humor.
— Sua recomendação chegou um pouco tarde.
Gustavo encarou o advogado.
— Marcelo.
Uma única palavra.
Marcelo se calou.
Eu conhecia aquele tom. Durante três anos, assistira Gustavo usá-lo em reuniões, jantares e telefonemas. Era o tom que significava: eu ainda controlo esta sala.
Mas alguma coisa havia mudado.
A sala já não era dele.
Olhei novamente para a fotografia. Patrícia usava uniforme hospitalar, máscara abaixada sob o queixo e uma touca parcialmente cobrindo o cabelo. Se não fosse pela tatuagem, talvez eu jamais a reconhecesse.
— Quero as imagens completas — pedi.
O chefe da segurança olhou para Ricardo.
— Prepare uma cópia e preserve os arquivos originais — ordenou meu tio. — E descubra como essa mulher entrou numa área restrita usando uniforme do hospital.
— Já estamos verificando.
Gustavo ajeitou o paletó.
— Mariana precisa descansar. Vocês estão alimentando uma paranoia.
Virei-me para ele.
— Por que Patrícia estava aqui?
— Pergunte a ela.
— Você falou com ela hoje?
Silêncio.
— Gustavo?
— Falo com dezenas de funcionários todos os dias.
— Ela é minha assistente.
— O salário dela sai de uma empresa minha.
Aquilo me atingiu de uma maneira estranha.
Não porque fosse novidade.
Porque, de repente, percebi o tamanho da armadilha.
Meu motorista era pago por Gustavo. Minha assistente era paga por Gustavo. A casa era dele. Os seguranças eram dele. Meus cartões dependiam dele. A fundação para a qual eu trabalhava pertencia ao grupo dele.
Eu passara três anos chamando aquilo de conforto.
Talvez tivesse sido vigilância.
Ricardo colocou a mão em meu ombro.
— Vamos subir.
Desta vez não discuti.
Antes de entrar no elevador, porém, olhei para Gustavo.
— Se Patrícia tocar no meu notebook, eu vou saber.
Ele sustentou meu olhar.
— Então espero que você se lembre de onde o deixou.
As portas se fecharam.
Meu sangue gelou.
— Ele sabe — murmurei.
Ricardo apertou o botão do oitavo andar.
— Sim.
— Meu notebook está em casa.
— Não mais.
Olhei para ele.
— O quê?
— Enquanto você estava sendo examinada, pedi ao Eduardo para ir até lá.
Eduardo era filho de Ricardo, meu primo mais velho e promotor de Justiça. Eu não o via havia quase um ano.
— Você mandou Eduardo para minha casa?
— Mandei buscar algumas roupas e seus documentos. Não mencionei o computador pelo telefone.
O elevador pareceu ficar pequeno demais.
— Ligue para ele.
Ricardo ligou.
Chamou.
Uma vez.
Duas.
Três.
Nada.
Na quarta tentativa, Eduardo atendeu.
— Pai?
A voz dele vinha entrecortada.
Ricardo ativou o viva-voz.
— Onde você está?
— Na Avenida Europa.
— Entrou?
Houve uma pausa.
— Não exatamente.
— O que significa isso?
— A fechadura foi trocada.
Olhei para Ricardo.
— Hoje? — perguntei.
Eduardo ouviu.
— Mariana?
— Sim.
— O segurança disse que recebeu ordens esta manhã para não permitir sua entrada sem autorização do senhor Gustavo.
Fechei os olhos.
Meu próprio lar.
— E meu notebook?
— Dá para ver pela janela do escritório. A mesa está vazia.
O elevador chegou ao andar, mas nenhum de nós saiu.
— Eduardo — falei — vá embora daí.
— Já estou indo. Mas tem uma coisa estranha.
— O quê?
— Uma van saiu da garagem quando eu cheguei. Reconheci Patrícia no banco do passageiro.
Meu estômago se contraiu.
— Para onde foram?
— Não sei.
A ligação terminou alguns minutos depois, e Ricardo me levou de volta ao quarto.
Meu celular continuava bloqueado. O hospital me emprestou um aparelho, e eu comecei a reconstruir mentalmente tudo o que existia no notebook: fotografias, e-mails, arquivos da ONG, registros financeiros.
Então me lembrei de uma coisa.
— Ricardo.
— Sim?
— Existe uma cópia física.
Ele levantou os olhos.
— Dos documentos?
— Não exatamente.
Expliquei.
Quando minha ONG foi incorporada à Fundação Albuquerque, eu insistira em manter arquivos antigos fora da sede administrativa. Gustavo chamou aquilo de sentimentalismo. Caixas de contratos, relatórios e comprovantes ficaram guardadas num pequeno depósito alugado em meu nome, na Vila Mariana.
Nos últimos meses, Patrícia havia levado para lá várias caixas.
— Talvez haja alguma coisa que compare as movimentações antigas com as atuais.
— Quem tem acesso?
— Eu e Patrícia.
Ricardo ficou sério.
— Então precisamos chegar antes dela.
Duas horas depois, com autorização médica para permanecer apenas fora do hospital por pouco tempo e acompanhada por Ricardo e Eduardo, seguimos até o depósito.
Chovia quando chegamos.
O funcionário da recepção reconheceu meu documento e nos conduziu ao corredor de boxes.
O cadeado da unidade 314 estava aberto.
Meu coração acelerou.
Ricardo puxou a porta metálica.
Caixas estavam espalhadas pelo chão.
Algumas abertas.
Outras rasgadas.
— Chegaram antes — disse Eduardo.
Entrei devagar.
A maior parte dos arquivos parecia ter sido remexida, mas não levada.
Isso não fazia sentido.
Se Patrícia procurava provas, por que deixaria documentos para trás?
Então percebi.
Ela não estava tentando destruir tudo.
Estava procurando alguma coisa específica.
Ajoelhei-me diante de uma caixa marcada “PROJETOS 2023”. Dentro havia pastas de crianças atendidas, recibos e relatórios.
No fundo encontrei um envelope.
Meu nome estava escrito à mão.
MARIANA — PESSOAL.
— Isso não é meu — murmurei.
Eduardo colocou luvas descartáveis antes de me entregar o envelope.
Dentro havia um pen drive e uma folha dobrada.
Abri.
A letra era de Patrícia.
“Mariana, se você encontrou isto, significa que Gustavo descobriu que eu comecei a copiar os arquivos. Não confie em ninguém da Fundação. Nem em quem diz estar tentando ajudá-la. As assinaturas não são o pior. Procure o Projeto Aurora. Descubra quem recebeu o dinheiro no dia 17 de maio.”
Meu coração começou a bater mais rápido.
17 de maio.
Eu conhecia aquela data.
— Meu Deus.
Ricardo se aproximou.
— O que foi?
Olhei para ele.
— Foi o dia em que fui internada.
— Quando perdeu o primeiro bebê?
Assenti.
Dois anos antes da gravidez atual, eu sofrera um aborto espontâneo depois de passar uma noite inteira naquele mesmo Hospital Santa Helena.
Minhas mãos começaram a tremer.
Eduardo apontou para o pen drive.
— Precisamos ver o que tem aí.
Na recepção havia um computador isolado da rede. O funcionário permitiu que Eduardo o utilizasse.
Inserimos o dispositivo.
Havia apenas quatro arquivos.
Três planilhas.
E um áudio.
A primeira planilha mostrava transferências do Projeto Aurora.
Na coluna final havia uma movimentação realizada em 17 de maio, às 22h43.
R$ 18.700.000.
Destino: uma empresa chamada Vértice Participações.
Ricardo ficou imóvel.
— Conhece?
Balancei a cabeça.
Eduardo abriu o segundo arquivo.
Era um documento societário.
O nome do beneficiário final estava parcialmente oculto, mas havia um CPF.
Eduardo começou a ler os números.
Ricardo o interrompeu.
— Não.
Olhei para meu tio.
Seu rosto havia mudado completamente.
— Ricardo?
Ele deu um passo para trás.
— Esse CPF...
— De quem é?
Meu tio não respondeu.
Eduardo terminou de conferir o documento e levantou lentamente os olhos para o pai.
— É seu.
O silêncio dentro daquela pequena sala foi absoluto.
Olhei para Ricardo.
O homem que acabara de me proteger.
O homem que ameaçara Gustavo diante de todo o hospital.
O homem que me chamava de sobrinha desde que eu era criança.
— Por que dezoito milhões de reais foram transferidos para uma empresa ligada ao seu CPF na noite em que eu perdi meu primeiro filho?
Ricardo abriu a boca.
Nenhuma palavra saiu.
Então o computador emitiu um som.
O quarto arquivo, o áudio, havia começado automaticamente.
Primeiro ouvimos ruídos.
Depois a voz de Patrícia.
Baixa. Tremendo.
— Se Mariana estiver ouvindo isso, provavelmente eu não consegui contar pessoalmente.
Uma pausa.
Respiração.
E então:
— O Projeto Aurora nunca foi apenas um esquema para desviar dinheiro.
Ricardo ficou branco.
A gravação continuou.
— Ele começou antes mesmo de Mariana se casar com Gustavo.







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