Eu já tinha ouvido verdades demais naquela noite para acreditar imediatamente em mais uma.
Fiquei olhando para Ricardo, esperando que ele retirasse aquelas palavras, dissesse que se confundira, que Miguel Ferraz era apenas outro nome enterrado dentro de uma história que já tinha pessoas mortas, dinheiro escondido e documentos falsificados demais.
Mas meu tio chorava.
Eu nunca tinha visto Ricardo Vasconcelos chorar.
— Conte tudo — falei.
Ele respirou fundo.
Miguel Ferraz era pesquisador. Trabalhara com minha mãe e Cecília no desenvolvimento da tecnologia que posteriormente originaria a Aurora Biotecnologia. Helena e Miguel se apaixonaram. Quando Helena engravidou, porém, a empresa já estava entrando numa disputa milionária por patentes.
— Augusto investiu dinheiro — explicou Ricardo. — Cecília forneceu parte da pesquisa. Miguel criou o mecanismo principal. Helena organizou o registro.
— E então?
— Miguel descobriu que alguém estava transferindo a propriedade intelectual para empresas de fachada.
— Quem?
Ricardo olhou para Isabela.
— O pai dela.
Isabela perdeu a cor.
— Meu pai?
— Sérgio Nogueira trabalhava para Cecília.
Ela balançou a cabeça.
— Ele era geneticista.
— E intermediário.
Ricardo explicou que Miguel ameaçou denunciar tudo. Pouco depois, morreu num suposto acidente de carro.
— Helena acreditava que Cecília tinha ordenado?
— Durante anos.
— E você?
— Também.
— Então por que Augusto aparece nisso?
— Porque Augusto ajudou Helena depois da morte de Miguel. Colocou dinheiro numa estrutura protegida para preservar a parte da patente que pertencia a ele. Esse dinheiro virou o Fundo Aurora.
Fechei os olhos.
Finalmente compreendi.
— Então eu sou a beneficiária porque sou filha de Miguel.
— Sim.
— E o teste com Augusto?
— Uma cortina de fumaça.
Eduardo se inclinou.
— Criada por quem?
— Augusto.
Ricardo explicou que, quando Cecília começou a procurar a herdeira de Miguel, Augusto criou um rastro falso sugerindo que Mariana poderia ser sua filha. Enquanto todos discutissem uma possível paternidade, a verdadeira origem do Fundo Aurora permaneceria escondida.
— Então Gustavo não é meu irmão.
— Não.
Foi a primeira boa notícia em horas.
Mas não trouxe alívio.
— E minha mãe?
Ricardo ficou em silêncio.
— O acidente dela também não foi acidente?
— Eu nunca consegui provar.
Minha filha se mexeu.
Passei a mão sobre a barriga.
— E Gustavo sabe de tudo?
— Provavelmente não.
Isabela finalmente falou.
— Ele sabe mais do que vocês imaginam.
Todos olharam para ela.
— Há três semanas, ouvi Gustavo discutindo com Cecília por telefone. Ele disse: “Não vou terminar o que você começou com Helena.”
Meu coração acelerou.
— Tem certeza?
— Sim.
— Por que não contou antes?
Ela riu amargamente.
— Porque eu achava que ele estava protegendo você.
A ironia quase me fez rir.
O homem que roubara meu celular, controlara meu dinheiro e assistira enquanto sua amante me humilhava talvez estivesse, ao mesmo tempo, escondendo alguma coisa da própria mãe.
Meu telefone vibrou.
Mensagem de Patrícia.
Uma localização.
E três palavras:
“ESTOU COM GUSTAVO.”
Ricardo imediatamente chamou a segurança.
Antes que pudesse terminar, chegou outra mensagem.
“VENHA SOZINHA. ELE QUER CONTAR.”
— Não — disse Eduardo.
— Concordo — respondeu Ricardo.
Eu também.
Já tinha passado tempo demais obedecendo às condições de outras pessoas.
Respondi:
“Ele vem ao hospital.”
Três minutos depois:
“ACEITO.”
Gustavo chegou às três da manhã.
Sozinho.
Patrícia não estava com ele.
Entrou no quarto sem paletó, gravata frouxa, rosto cansado.
Eu nunca o tinha visto assim.
— Onde está Patrícia?
— Segura.
— Você a sequestrou?
— Não.
— A fotografia?
— Encenação dela.
Fiquei imóvel.
— O quê?
— Patrícia precisava que minha mãe acreditasse que ela ainda estava trabalhando para mim.
Tudo mudou novamente.
— Vocês estavam trabalhando juntos?
— Há quatro meses.
A raiva veio antes da compreensão.
— E você não achou necessário contar para sua esposa?
— Eu não sabia se podia confiar em você.
Ri.
— Todos nesta história parecem ter essa desculpa.
Gustavo olhou para minha barriga.
— Você está bem?
— Não use minha filha para fingir preocupação agora.
Ele baixou os olhos.
— Eu mereço isso.
— Você merece muito mais.
Não havia resposta possível.
Então Gustavo tirou um pen drive do bolso.
— Minha mãe está voltando ao Brasil amanhã.
Ricardo ficou alerta.
— Cecília?
— Ela sabe que Mariana encontrou os documentos.
— Como?
— Porque André contou.
André Siqueira.
Diretor jurídico do Grupo Albuquerque.
O homem que estivera ao lado de Gustavo no hospital.
— André trabalha para sua mãe?
— Há anos.
— E Marcelo?
— Marcelo trabalha para mim.
Pelo menos uma linha parecia definida.
Gustavo colocou o pen drive sobre a mesa.
— Aqui estão registros de transferências, mensagens e gravações que consegui reunir. Minha mãe usou a Fundação para movimentar dinheiro do Fundo Aurora tentando obrigar Mariana a aparecer como responsável pelas operações.
— Por isso minhas assinaturas.
— Sim.
— E o divórcio?
Ele fechou os olhos.
— Eu precisava que você assinasse um acordo.
— Para quê?
— Separar legalmente seu patrimônio do Grupo Albuquerque antes que minha mãe tentasse vincular você às fraudes.
Eu quase não acreditei.
— Então bloqueou meus cartões, ameaçou minha reputação e tentou me forçar a assinar sem explicar nada?
— Eu achei que, se você soubesse, iria atrás da verdade.
— Eu fui.
— Exatamente.
— Você não estava me protegendo, Gustavo. Estava me controlando.
Ele não discutiu.
— Sim.
Foi a primeira vez que assumiu.
— E Isabela?
Ele olhou para ela.
— Foi meu erro.
— Eu não sou um erro — respondeu Isabela friamente. — Sou uma pessoa que você usou.
Gustavo assentiu.
— Você tem razão.
Aquela noite estava destruindo todos os papéis que cada um de nós representara.
— Minha mãe matou Miguel? — perguntei.
Gustavo ficou em silêncio.
— Responda.
— Eu acredito que sim.
— E minha mãe?
Ele ergueu os olhos.
— Eu não sabia até ontem.
Meu peito apertou.
— O que descobriu?
Gustavo conectou o pen drive ao computador.
Abriu um áudio.
A voz de Cecília surgiu.
Mais jovem.
“Helena não vai entregar o acesso enquanto acreditar que Mariana corre perigo.”
Outra voz respondeu.
Mas não era Augusto.
Ricardo empalideceu.
— Sérgio Nogueira.
O pai de Isabela.
A gravação continuou.
“Então faça Helena acreditar que a filha está segura. Depois resolvemos Helena.”
Isabela levou a mão à boca.
— Não.
Gustavo pausou.
— O áudio foi gravado seis dias antes da morte de Helena.
Ninguém falou.
— Onde conseguiu isso?
— Augusto guardou.
— Seu pai sabia?
— Descobriu tarde demais. Foi por isso que alterou o testamento e tentou proteger Mariana.
— Então por que o Fundo nunca chegou até mim?
— Porque existe uma condição.
Meu coração acelerou.
— Qual?
— O acesso integral só seria liberado quando você completasse trinta anos ou tivesse um descendente.
Minha mão foi automaticamente para a barriga.
Gustavo assentiu.
— Sua filha ativou a segunda condição.
Finalmente compreendi por que tudo se acelerara durante minha gravidez.
O divórcio.
As transferências.
A vigilância.
Cecília estava ficando sem tempo.
— Quanto existe no fundo?
— Atualmente, quase quatrocentos milhões.
O número não significou nada.
Minha mãe estava morta.
Miguel estava morto.
Minha vida tinha sido observada durante anos.
Quatrocentos milhões não compravam de volta nenhuma dessas coisas.
A porta abriu.
Patrícia entrou acompanhada por dois policiais.
Ela parecia exausta.
— Temos um problema.
Eduardo se levantou.
— Qual?
Patrícia colocou um celular sobre a mesa.
Na tela havia uma fotografia tirada havia poucos minutos no Aeroporto Internacional de Guarulhos.
Cecília Albuquerque descendo de um jato particular.
— Ela chegou mais cedo.
— Então podemos interrogá-la — disse Eduardo.
Patrícia balançou a cabeça.
— Não foi isso que eu descobri.
Abriu outra imagem.
Um documento digital.
Transferência emergencial de custódia do Fundo Aurora.
Beneficiária autorizada: Mariana Ferreira.
Prazo para confirmação: 10h00.
— Se Mariana não confirmar pessoalmente até às dez — explicou Patrícia — a custódia passa automaticamente para o administrador secundário.
— Quem?
Ela ampliou a última linha.
O nome apareceu.
GUSTAVO ALBUQUERQUE.
Olhei para meu marido.
Ele pareceu tão surpreso quanto eu.
Então Patrícia abriu o último arquivo.
Uma alteração havia sido feita apenas vinte minutos antes.
O administrador secundário não era mais Gustavo.
Era Cecília Albuquerque.
E a assinatura digital que autorizava a mudança era minha.







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