O papel tremia entre meus dedos.
Eu lia os mesmos nomes repetidamente, esperando que em algum momento as letras mudassem.
MARIANA FERREIRA.
AUGUSTO ALBUQUERQUE.
99,98%.
— Isso pode ser falso — disse Eduardo.
Agarrei aquela possibilidade.
— Sim.
— Precisamos autenticar o laboratório, verificar a assinatura, a cadeia documental...
— É falso.
Desta vez falei com mais força.
Porque a alternativa era insuportável.
Gustavo.
Meu marido.
O pai da criança que eu carregava.
Meu possível meio-irmão.
Minha barriga endureceu.
A dor veio baixa e profunda.
Apoiei-me numa prateleira.
— Mariana?
— Estou bem.
Ricardo se aproximou.
— Vamos voltar ao hospital.
— Não antes de você me contar tudo.
— Agora não.
Eu ri.
— Foi exatamente isso que minha mãe disse sobre você. Que mentiria para me proteger.
Ricardo empalideceu.
— Você viu o segundo vídeo.
— Vi.
O silêncio dele confirmou que sabia de sua existência.
— Você sabia sobre Augusto?
— Eu sabia que havia uma possibilidade.
Senti uma mistura de raiva e náusea.
— Desde quando?
— Desde antes do seu casamento.
A resposta quase me derrubou.
Eduardo encarou o próprio pai.
— Você deixou ela casar com Gustavo sabendo disso?
— Não! — Ricardo explodiu pela primeira vez. — O teste que Helena fez anos atrás deu resultado inconclusivo. Ela nunca conseguiu confirmar.
Apontei para o documento.
— Isto parece bastante conclusivo.
— Eu nunca vi esse exame.
— Então por que não me contou que havia dúvida?
Ricardo baixou a voz.
— Porque Helena me fez prometer.
— Ela estava morta.
— E você estava apaixonada.
— Isso não era decisão sua!
Minha voz ecoou pelo galpão.
Outra contração apertou meu ventre.
Desta vez Ricardo não discutiu.
Vinte minutos depois estávamos no carro.
Durante o trajeto, Eduardo fez ligações. O laboratório indicado no documento ainda existia. O exame fora realizado cinco anos antes, mas nenhuma informação seria fornecida sem ordem judicial.
Quando chegamos ao Santa Helena, uma obstetra me levou imediatamente para avaliação.
Felizmente, não era trabalho de parto.
Estresse.
Meu corpo estava me mandando parar.
Mas minha mente não conseguia.
Pouco depois da meia-noite, Eduardo entrou no quarto com uma pasta.
— Descobri uma coisa.
Sentei-me.
— O quê?
— A data do exame.
Ele colocou o documento diante de mim.
— Foi emitido quatro meses antes de você conhecer Gustavo oficialmente.
— Então alguém sabia.
— Sim.
— Quem solicitou?
— Uma empresa.
— Qual?
Eduardo hesitou.
— Nogueira Consultoria Biomédica.
O sobrenome atingiu imediatamente.
— Isabela Nogueira.
— A empresa pertence ao pai dela.
Tudo ficou ainda mais absurdo.
Isabela não aparecera na vida de Gustavo por acaso.
— Ela sabia?
— Não sabemos.
Ricardo entrou.
— Talvez possamos perguntar.
Ele colocou o celular sobre a cama.
Na tela havia uma mensagem enviada por Isabela.
“PRECISO FALAR COM MARIANA. GUSTAVO MENTIU PARA MIM TAMBÉM.”
Aceitei encontrá-la no hospital, com segurança na porta.
Isabela chegou quarenta minutos depois.
Não parecia a mesma mulher do corredor.
Sem o casaco branco. Sem o sorriso.
Sentou-se diante de mim.
— Antes de qualquer coisa...
— Não peça desculpas.
Ela fechou a boca.
— Você me chutou enquanto eu estava grávida. Nada do que disser vai apagar isso.
Isabela assentiu.
— Eu sei.
— Então fale.
Ela olhou para Ricardo e Eduardo.
— Gustavo me procurou há quase dois anos. Disse que o casamento estava acabado e que Mariana se recusava a aceitar.
— Mentira.
— Eu sei agora.
— Por que seu pai solicitou um exame de DNA entre mim e Augusto?
Ela empalideceu.
— Como você sabe disso?
— Responda.
Isabela apertou as mãos.
— Meu pai trabalhou para Cecília Albuquerque.
Ricardo se aproximou.
— Fazendo o quê?
— Exames privados. Análises genéticas. Coisas que ela não queria vinculadas aos laboratórios do grupo.
— E você sabia?
— Eu sabia que existia uma mulher chamada Mariana. Não sabia que era você até meses depois de conhecer Gustavo.
Meu coração acelerou.
— O exame é verdadeiro?
Isabela começou a chorar.
— Eu achava que sim.
— Achava?
— Há seis meses, encontrei documentos do meu pai. Dois exames.
Eduardo inclinou-se.
— Dois?
— O primeiro apontava Augusto como pai biológico. O segundo dizia que não havia parentesco.
Silêncio.
— Qual é verdadeiro? — perguntei.
— Não sei.
Ela abriu a bolsa.
Retirou um envelope.
— Foi por isso que comecei a pressionar Gustavo. Eu queria saber.
Dentro havia cópia do segundo exame.
Resultado: parentesco excluído.
— Por que dois resultados diferentes? — perguntou Ricardo.
Isabela olhou para mim.
— Porque as amostras foram trocadas.
— Por quem?
— Meu pai dizia que recebeu ordens.
— De Cecília?
— Não.
Ela respirou fundo.
— De Augusto.
Meu possível pai.
O homem morto.
Eduardo pegou os documentos.
— Por que Augusto mandaria falsificar o próprio exame?
— Talvez para proteger Mariana — respondeu Ricardo.
— Ou proteger Gustavo — falei.
Isabela começou a mexer nervosamente no anel.
— Tem mais.
Eu já estava cansada de ouvir aquelas palavras.
— Gustavo sabe que existe dúvida sobre a paternidade.
Meu corpo ficou imóvel.
— Desde quando?
— Antes do casamento.
O quarto desapareceu ao meu redor.
— Você está dizendo que Gustavo sabia que eu poderia ser irmã dele e mesmo assim se casou comigo?
— Não exatamente.
— Então explique.
Isabela levantou os olhos.
— Gustavo acreditava que o exame negativo era verdadeiro. Cecília mostrou para ele. Disse que Augusto tinha criado o primeiro resultado falso para colocar Mariana como herdeira.
Ricardo respirou fundo.
— Então Gustavo achava que Helena estava tentando fraudar a herança.
— Sim.
Tudo começava a encaixar de uma forma horrível.
O casamento.
O Fundo Aurora.
As assinaturas.
Gustavo talvez tivesse se aproximado de mim acreditando que eu fazia parte de uma fraude contra sua família.
— Por que casar comigo?
Isabela respondeu:
— Para descobrir onde estava o dinheiro.
A porta se abriu.
Camila entrou.
— Senhora Mariana, desculpe.
Ela segurava um envelope.
— Um mensageiro acabou de deixar isto.
Não havia remetente.
Dentro havia apenas um cartão.
“Se quer saber quem é seu pai, pare de procurar Augusto.”
Abaixo, um endereço.
Ricardo reconheceu imediatamente.
— Isso é um cemitério.
Duas horas depois, Eduardo conseguiu verificar o número indicado.
Era a localização de um jazigo.
Não de Augusto.
Não de Helena.
O nome gravado na pedra era desconhecido para mim:
MIGUEL FERRAZ
1964–2001.
Abaixo havia uma frase.
“Àquele que perdeu tudo para proteger a filha que nunca pôde conhecer.”
Minha respiração falhou.
No verso do cartão havia uma última anotação:
“Pergunte a Ricardo quem era Miguel.”
Virei-me lentamente para meu tio.
Desta vez ele não tentou negar.
Sentou-se.
Cobriu o rosto com as mãos.
E quando finalmente olhou para mim, seus olhos estavam cheios de lágrimas.
— Miguel Ferraz era seu pai, Mariana.
O silêncio me esmagou.
Ricardo respirou com dificuldade.
— E ele não morreu num acidente.
Parei de respirar.
— Sua mãe passou todos esses anos tentando esconder de você quem mandou matá-lo.







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