A voz de Patrícia continuou saindo dos pequenos alto-falantes do computador, abafada por um ruído constante que parecia ter sido gravado dentro de um carro.
— O Projeto Aurora já existia quando Mariana ainda administrava a ONG sozinha. Naquela época, tinha outro nome. Eu encontrei os primeiros registros por acaso, há quatro meses. Quando comecei a comparar datas e beneficiários, percebi que algumas pessoas envolvidas conheciam Mariana muito antes de Gustavo aparecer na vida dela.
Olhei para Ricardo.
Ele continuava imóvel.
— Desliga isso — disse ele.
Eduardo virou-se para o pai.
— Não.
— Eduardo.
— Ela acabou de dizer que isso começou antes do casamento. Nós vamos ouvir até o fim.
Pela primeira vez, vi uma rachadura real entre os dois.
Ricardo não insistiu.
A gravação prosseguiu.
— Gustavo descobriu que eu estava investigando. Acho que foi por isso que mandou bloquear os cartões de Mariana e acelerar o divórcio. Mas existe uma coisa que ele ainda não sabe que eu encontrei. A Vértice Participações não pertence ao doutor Ricardo Vasconcelos. O CPF dele foi usado para criar uma camada falsa na estrutura societária.
Soltei o ar que nem percebera estar prendendo.
Eduardo olhou para o pai.
Ricardo fechou os olhos por um instante.
Mas a gravação ainda não tinha terminado.
— Ricardo pode provar isso se mostrar onde estava em 17 de maio. O problema é que, se ele fizer isso, terá de revelar outra coisa que esconde de Mariana há anos.
O áudio terminou.
Ninguém falou.
Eu olhava para meu tio.
— Que coisa?
Ricardo apoiou as duas mãos na mesa.
— Mariana, este não é o lugar.
— Passei três anos ouvindo essa frase. “Não é o lugar.” “Não é a hora.” “Você está cansada.” “Você está grávida.” Chega.
Ele ergueu os olhos.
— Na noite em que você perdeu o bebê, eu não estava no hospital.
— Eu sei. Você disse que estava numa conferência em Brasília.
— Eu menti.
A palavra me atravessou.
— Onde você estava?
Ricardo respirou fundo.
— Num cartório em Campinas.
Eduardo franziu a testa.
— Fazendo o quê?
Meu tio olhou para mim.
— Tentando impedir que um documento fosse registrado.
Senti a garganta apertar.
— Que documento?
— Uma alteração no estatuto da sua ONG.
A sala pareceu diminuir.
Ricardo explicou que, semanas antes do meu primeiro aborto, recebera uma ligação anônima avisando que alguém estava usando procurações atribuídas a mim para transferir ativos e direitos da ONG para uma estrutura empresarial ligada à futura Fundação Albuquerque. Ele desconfiara de Gustavo, mas não tinha provas. Naquele 17 de maio, soube que um documento seria protocolado em Campinas. Foi até lá pessoalmente.
— Por que nunca me contou?
— Porque naquela mesma noite você perdeu seu filho.
— Isso não responde.
— Na manhã seguinte, Gustavo apareceu no hospital com uma cópia de uma procuração assinada por você.
— Eu nunca assinei.
— Hoje eu sei disso.
Minha raiva subiu.
— E naquela época?
Ricardo desviou os olhos.
A resposta estava ali.
— Você achou que eu tinha assinado.
— Eu achei que talvez você estivesse tentando proteger seu casamento e não quisesse admitir.
Dei um passo para trás.
— Então você ficou calado.
— Eu tentei investigar sozinho.
— Durante dois anos?
— Eu não sabia em quem confiar.
Ri, mas minha voz quebrou.
— Engraçado. Parece que ninguém sabia em quem confiar, mas todos decidiram que a única pessoa que não precisava saber da própria vida era eu.
Ricardo não respondeu.
Eduardo voltou ao computador.
— Ainda temos três planilhas.
A terceira era diferente.
Não mostrava transferências.
Mostrava nomes.
Médicos. Advogados. Executivos. Funcionários da fundação. Empresas.
Ao lado de cada um havia datas e códigos.
Então encontrei um nome que reconheci.
ISABELA NOGUEIRA.
— Ela está aqui.
Eduardo aproximou o rosto da tela.
Ao lado do nome de Isabela aparecia “CONSULTORIA A-17” e uma sequência de pagamentos mensais iniciados quase um ano antes de eu descobrir o caso dela com Gustavo.
— Gustavo pagava Isabela antes de eles começarem o relacionamento? — perguntei.
— Ou o relacionamento começou antes do que você imagina — disse Eduardo.
Mas alguma coisa não encaixava.
Rolei a planilha.
Patrícia também estava ali.
PATRÍCIA MENDES — A-09.
Meu coração afundou.
— Ela recebeu dinheiro.
Ricardo se aproximou.
— Quanto?
Eduardo calculou rapidamente.
— Mais de quatrocentos mil em dois anos.
Olhei para o pen drive.
A mulher que acabara de nos alertar também fazia parte daquilo.
— Então por que deixar essas provas?
— Talvez tenha mudado de lado — sugeriu Eduardo.
— Ou queira que a gente pense isso.
Meu telefone emprestado tocou.
Número desconhecido.
Atendi.
— Alô?
Nada.
Depois ouvi uma respiração.
— Mariana?
Reconheci imediatamente.
— Patrícia.
Ricardo fez sinal para colocar no viva-voz.
— Onde você está?
— Não posso dizer.
— Você entrou no hospital disfarçada.
— Eu precisava pegar uma coisa da sua bolsa antes que Gustavo pegasse.
— Meu quê?
— Uma chave.
Levei a mão à bolsa.
— Que chave?
— Eu coloquei lá ontem.
Meu corpo ficou rígido.
— Você entrou na minha casa?
— Mariana, escute. Eu não tenho muito tempo.
— Você recebeu mais de quatrocentos mil reais do Projeto Aurora.
Silêncio.
— Eu sei.
— Então você trabalhava para Gustavo.
— No começo.
A resposta foi tão direta que me deixou sem palavras.
— Ele me contratou para observar você.
Ricardo fechou os olhos.
Eu senti náusea.
— Durante três anos?
— Sim.
— Cada conversa? Cada lugar aonde eu ia?
Patrícia começou a chorar.
— Eu mandava relatórios. Quem você encontrava, quando falava com seu tio, quando parecia desconfiar das contas. Eu dizia a mim mesma que era só um trabalho.
— E agora quer que eu confie em você?
— Não. Quero que você sobreviva ao que vem depois.
Eduardo pegou papel e começou a anotar.
— O que era a chave? — perguntei.
— Um cofre.
— Onde?
— Na antiga sede da sua ONG.
Meu coração acelerou.
O prédio estava fechado havia quase dois anos.
— O que tem nele?
Patrícia respirou fundo.
— A versão original do Projeto Aurora.
— Você disse que começou antes de Gustavo.
— Porque começou.
— Quem criou?
Silêncio.
— Patrícia?
Ouvi uma porta de carro bater do outro lado da ligação.
Depois passos.
A voz dela ficou desesperada.
— Mariana, você precisa entender uma coisa. Gustavo não escolheu você por acaso.
Meu sangue gelou.
— O que isso significa?
— O casamento não foi o começo. Foi a segunda etapa.
Olhei para Ricardo.
— Segunda etapa de quê?
Patrícia começou a responder.
— Daquilo que aconteceu com sua...
Um barulho interrompeu a frase.
A ligação caiu.
Tentei retornar.
Telefone desligado.
Eduardo já estava de pé.
— Vamos para a antiga sede.
Ricardo hesitou.
— Pode ser uma armadilha.
— Pode — respondi. — Mas pela primeira vez eu tenho uma chance de descobrir por que Gustavo entrou na minha vida.
Quarenta minutos depois, estávamos diante do antigo prédio da ONG, no bairro da Liberdade. A fachada estava escura, com poeira atrás dos vidros e uma placa antiga ainda presa sobre a entrada.
Usei minha chave.
A porta abriu.
O cheiro de papel velho me atingiu imediatamente.
Conhecia aquele lugar. Tinha construído tudo ali antes de conhecer Gustavo.
Encontramos o cofre atrás de um armário no meu antigo escritório.
Mas não precisávamos da chave de Patrícia.
A porta já estava aberta.
Alguém havia chegado antes.
Dentro restava apenas uma pasta fina.
Na capa, duas palavras:
PROJETO AURORA.
Abri.
A primeira página era datada de cinco anos antes do meu casamento.
Havia uma fotografia presa no canto.
Eu tinha vinte e quatro anos nela, sorrindo durante uma campanha beneficente.
Ao meu lado estava minha mãe, Helena, que morreria meses depois num acidente de carro.
E atrás de nós, quase escondido entre os convidados, estava Gustavo.
Meu futuro marido.
Um homem que, segundo ele próprio me contaria anos mais tarde, só havia me conhecido muito tempo depois daquela fotografia.
Virei a página.
Havia uma ficha sobre mim.
Nome completo. Endereço. Rotina. Situação financeira. Relações familiares.
Na parte superior, alguém escrevera à mão:
“ALVO PRINCIPAL — MARIANA FERREIRA.”
Ferreira.
Meu sobrenome antes do casamento.
Abaixo havia uma segunda anotação.
“FASE 1: APROXIMAÇÃO POR HELENA.”
Minha respiração parou.
E então vi a assinatura no rodapé.
Não era de Gustavo.
Era da minha mãe.







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