A segunda linha dizia: “Sua mãe era minha irmã mais velha, e você é a última pessoa viva da nossa família.”
Fiquei encarando aquelas palavras até que começaram a se embaralhar diante dos meus olhos.
Minha mãe morreu quando eu tinha seis anos. Eu quase não me lembrava da família dela, porque meu pai sempre dizia que todos tinham nos abandonado. Mas a carta de Carlos contava uma história completamente diferente.
Ele havia me procurado durante anos.
Segundo Carlos, meu pai mudou nosso sobrenome, nos levou de uma cidade para outra várias vezes e cortou contato com todos os parentes que tentavam se aproximar de mim. Carlos me acompanhava de longe porque tinha medo de que, se tentasse falar comigo, meu pai desaparecesse comigo outra vez.
Apertei as folhas entre os dedos.
“Por que ele nunca me contou?”, sussurrei.
O advogado, Dr. Almeida, entrou e fechou a porta atrás de si.
“Porque o senhor Valente acreditava que você só o ajudaria de verdade se pensasse que ele não tinha absolutamente nada para lhe oferecer.”
“Valente?”
“Carlos não era o nome completo dele.”
Dr. Almeida colocou uma pasta de couro sobre a minha mesa. Dentro havia fotografias de Carlos usando ternos sob medida, ao lado de senadores, diretores de hospitais e empresários estrangeiros. Embaixo delas, havia documentos ligados à Valente Tecnologias Médicas, uma empresa cujo nome aparecia em equipamentos usados em praticamente todos os grandes hospitais do país.
Carlos era o fundador.
E seu patrimônio ultrapassava os quatrocentos milhões de reais.
Empurrei a pasta para longe.
“Não. Ele morava numa casa pequena. Usava aqueles suéteres velhos.”
“Por escolha própria”, respondeu Almeida. “Depois que recebeu o diagnóstico, dispensou todos os funcionários da casa e desapareceu da vida pública. Ele queria descobrir quem permaneceria ao lado dele quando não restasse mais nada que pudesse impressionar alguém.”
Meu estômago se contraiu.
De repente, nosso casamento parecia um teste do qual eu havia participado sem sequer saber.
Então Almeida me entregou o testamento de Carlos.
Carlos havia deixado para mim a casa, suas ações da empresa e praticamente todo o seu patrimônio. Mas havia um parágrafo sublinhado em vermelho:
Minha esposa só poderá receber a herança depois de descobrir quem planejou a minha morte.
Levantei os olhos imediatamente.
“Ele morreu de câncer.”
A expressão de Almeida ficou séria.
“É isso que consta na certidão de óbito.”
Ele abriu outro envelope, onde estavam os exames médicos particulares de Carlos. O último exame de sangue revelava vestígios de um poderoso medicamento cardíaco que nunca havia sido prescrito para ele.
Antes que eu conseguisse dizer qualquer coisa, meu celular vibrou.
Uma foto havia acabado de chegar de um número desconhecido.
Na imagem, Carlos estava vivo, parado em frente ao meu apartamento naquela mesma manhã.
**Continua — clique na Parte 3 para continuar lendo.**







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