Entretenimento

Casei-me com um homem à beira da morte para realizar seu último desejo — depois do funeral, o advogado dele apareceu com uma carta que mudou tudo

Fiquei olhando para a fotografia até meus dedos começarem a tremer.

Meu pai estava mais jovem, mas era impossível confundir aquele rosto.

Ao lado dele, Roberto sorria para a câmera.

Carlos estava na outra ponta, sem sorrir.

“Isso não faz sentido”, murmurei. “Meu pai dizia que não via ninguém da família da minha mãe desde que ela morreu.”

Vasconcelos pegou a fotografia e analisou o verso.

“Talvez essa mentira tenha sido justamente o motivo de Carlos passar tantos anos observando você de longe.”

Senti uma raiva antiga subir pelo peito.

Meu pai havia morrido seis anos antes.

Eu nunca teria a chance de confrontá-lo.


“Então ele me escondeu de Carlos de propósito.”

“É o que parece.”

“Mas por quê?”

Vasconcelos olhou novamente para a caixa.

“Talvez a resposta esteja aqui.”

No fundo, sob as fotografias, havia um caderno fino de capa preta.

As primeiras páginas continham datas, nomes de cidades e anotações curtas.

Reconheci imediatamente algumas delas.

Eram cidades onde eu havia morado quando criança.

Carlos registrara cada mudança.


Em várias páginas havia o mesmo nome:

Roberto Nunes.

Ao lado, frases curtas.

“Fez contato com o pai.”

“Nova mudança três dias depois.”

“Endereço novamente perdido.”

“Pagamento confirmado.”

Meu coração bateu mais forte.

“Pagamento?”

Continuei folheando.


Então encontrei cópias de transferências bancárias antigas.

Meu pai havia recebido dinheiro regularmente durante anos.

Os pagamentos vinham de empresas diferentes, mas Carlos marcara todas com a mesma observação:

LIGADAS À VALENTE.

Vasconcelos respirou fundo.

“Seu pai estava sendo pago.”

“Para me esconder?”

“Talvez.”

Sacudi a cabeça.

“Isso é absurdo. Eu não tinha nada.”


Ele me olhou.

“Talvez você tivesse algo sem saber.”

A frase me incomodou.

Voltei ao caderno.

Nas últimas páginas, Carlos havia escrito mais detalhadamente.

“Minha irmã descobriu o desvio antes de morrer.”

Parei.

Li novamente.

Minha mãe.

Continuei.


“Ela tentou reunir provas. Disse que havia encontrado movimentações financeiras feitas por pessoas próximas à empresa muito antes de eu assumir o controle total. Depois, morreu antes de conseguir me entregar os documentos.”

Meu peito apertou.

Minha mãe havia morrido num acidente de carro.

Era tudo que eu sabia.

Ou tudo que meu pai tinha me contado.

Carlos continuava:

“O marido dela desapareceu com a filha poucos dias depois. Durante anos pensei que estivesse com medo. Só muito mais tarde descobri que o medo não era a razão.”

Virei a página.

Havia apenas uma frase.

“Ele aceitou dinheiro para manter a menina longe de mim e para nunca falar sobre o que a mãe dela encontrou.”


Fechei o caderno com força.

“Meu pai vendeu meu silêncio.”

Vasconcelos não respondeu.

Eu mal conseguia respirar.

Minha infância inteira parecia ter sido construída sobre uma mentira.

As mudanças constantes.

Os parentes “que não queriam saber de nós”.

A proibição de fazer perguntas sobre minha mãe.

Tudo começava a ganhar outra forma.

Meu celular vibrou.


Número desconhecido.

Desta vez, a mensagem tinha apenas um endereço.

E uma frase:

SE QUER SABER POR QUE SUA MÃE MORREU, VENHA SOZINHA.

Mostrei a Vasconcelos.

“Nem pensar.”

“Pode ser Roberto.”

“Ou alguém esperando que você acredite nisso.”

“Mas pode haver respostas.”

“E pode haver uma armadilha.”


Guardei o celular.

“Então não vou sozinha.”

Ele começou a responder, mas ouvimos um barulho no corredor do subsolo.

Passos.

Lentos.

A luz do fim do corredor apagou.

Depois a seguinte.

E outra.

Alguém estava desligando as lâmpadas enquanto se aproximava.

Vasconcelos fechou a caixa rapidamente.


“Precisamos sair.”

Peguei o caderno e a fotografia.

Fomos em direção à escada dos fundos.

Antes de alcançá-la, uma voz ecoou no corredor escuro.

“Você deveria ter deixado Carlos morrer em paz.”

Reconheci a voz.

Roberto.

Parei.

“Foi você quem colocou Carlos no meu programa?”

Silêncio.


Então ele respondeu:

“Sim.”

Vasconcelos tentou me puxar.

Mas eu permaneci onde estava.

“Por quê?”

Roberto surgiu parcialmente sob a última lâmpada ainda acesa.

Parecia exausto.

“Porque ele me obrigou.”

“Carlos?”

“Ele descobriu o que eu fiz anos atrás.”

“Você ajudou meu pai.”

Roberto fechou os olhos por um instante.

“Eu entregava dinheiro. Mudava registros. Fazia desaparecer endereços.”

“Por quê?”

“Porque eu estava com medo.”

“De quem?”

Ele olhou para os dois lados do corredor antes de responder.

“Do mesmo homem de quem Carlos passou a ter medo.”

Meu coração acelerou.

“Gustavo?”

Roberto soltou uma risada amarga.

“Gustavo é ganancioso. Perigoso, sim. Mas nunca foi o cérebro.”

Então deu mais um passo.

“Carlos descobriu que sua mãe havia deixado uma cópia das provas com alguém antes de morrer.”

“Com quem?”

“Com seu pai.”

Senti o chão desaparecer sob meus pés.

“Então meu pai tinha tudo.”

“Por algum tempo.”

“E onde está agora?”

Roberto me encarou.

“Foi por isso que Carlos se aproximou de você.”

A raiva me atravessou.

“Ele se casou comigo por causa de documentos?”

“Não.”

A resposta veio rápida.

“Ele se aproximou porque achava que você talvez tivesse herdado a única pista restante. Mas depois que conheceu você... mudou.”

Roberto baixou a voz.

“Foi por isso que ele alterou o testamento.”

Vasconcelos deu um passo à frente.

“Quem está por trás disso?”

Roberto abriu a boca.

Um estampido seco ecoou pelo corredor.

Ele se encolheu.

Não havia sangue.

A lâmpada acima dele explodira.

O corredor mergulhou quase completamente na escuridão.

“Corram!”, Roberto gritou.

Ouvimos passos vindo da outra extremidade.

Vasconcelos agarrou meu braço e me puxou para a escada.

Subimos dois lances rapidamente.

Quando chegamos à saída lateral, Roberto não estava conosco.

“Ele ficou lá embaixo.”

“Não podemos voltar.”

“Ele sabe quem matou minha mãe.”

“E justamente por isso alguém veio atrás dele.”

Saímos para o estacionamento.

Meu celular vibrou novamente.

Desta vez, era uma mensagem de Dr. Almeida.

CONSEGUI SAIR. NÃO VÁ AO ENDEREÇO QUE ENVIARAM.

Logo abaixo veio outra mensagem.

Roberto estava certo sobre uma coisa.

Havia uma fotografia anexada.

Era uma cópia de um documento antigo assinado pela minha mãe.

Na parte inferior estava o nome de uma pessoa que eu já tinha visto naquela mesma noite.

Não Gustavo.

Não Roberto.

Não meu pai.

Era o nome do homem que havia entrado na minha casa horas antes e me entregado o testamento de Carlos.

Dr. Almeida.

Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.

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