Entretenimento

Casei-me com um homem à beira da morte para realizar seu último desejo — depois do funeral, o advogado dele apareceu com uma carta que mudou tudo

Meu corpo inteiro ficou paralisado.

Olhei para a fotografia no celular de Vasconcelos.

Dr. Almeida estava sentado numa cadeira de metal, com os pulsos presos atrás das costas. Havia sangue seco perto da sobrancelha esquerda, mas seus olhos estavam abertos.

Atrás dele, só se via uma parede de concreto.

Do outro lado da minha porta, a voz voltou a falar.

“Eu sei que você está aí. Não temos muito tempo.”

Era idêntica à voz de Almeida.

O mesmo tom calmo.

A mesma maneira pausada de pronunciar as palavras.

Dei um passo para trás.


Vasconcelos aproximou o dedo dos lábios e apontou para a cozinha.

“Existe outra saída?”, sussurrou.

Balancei a cabeça.

Meu apartamento ficava no sexto andar.

Não havia varanda conectada a outro imóvel.

A única saída era aquela porta.

Então me lembrei da chave encontrada dentro da caixa do jogo.

Corri até a mesa e a peguei.

“Carlos deixou isto.”

Vasconcelos examinou a chave.


Era pequena, antiga, com o número 314 gravado de um lado.

“Não parece chave residencial.”

Uma batida mais forte fez nós dois nos calarmos.

“Abra a porta”, disse o homem no corredor. “Gustavo está vindo.”

Peguei meu celular e escrevi rapidamente para o número de Almeida.

ONDE VOCÊ ESTÁ?

A resposta chegou menos de dez segundos depois.

NÃO POSSO DIZER. NÃO ABRA.

Então outra mensagem apareceu.

ELE SABE IMITAR VOZES.


Meu estômago se revirou.

O homem do lado de fora começou a mexer na fechadura.

Dessa vez, não fingia mais.

Ouvi metal raspando.

“Ele está tentando entrar”, murmurei.

Vasconcelos abriu sua bolsa médica e tirou um pequeno frasco de álcool e uma lanterna.

“Quando eu mandar, acione o alarme de incêndio do corredor.”

“Isso não vai abrir a porta?”

“Vai trazer vinte moradores para cá.”

Entendi.


Ele não queria enfrentar aquele homem.

Queria testemunhas.

Corri até o pequeno painel de emergência instalado próximo à entrada.

O clique na fechadura ficou mais alto.

Depois ouvi a corrente de segurança vibrar.

“Agora.”

Abri a porta apenas alguns centímetros, ainda presa pela corrente, e acionei o alarme externo.

Um som ensurdecedor explodiu pelo corredor.

Quase imediatamente, portas começaram a se abrir.

Uma criança chorou.


Um vizinho gritou perguntando o que estava acontecendo.

O homem que fingia ser Almeida recuou.

Consegui vê-lo pela abertura.

Terno azul-escuro.

Boné preto.

Óculos transparentes.

Não reconheci o rosto.

Mas ele reconheceu o meu.

Por apenas um segundo, nossos olhos se encontraram.

Então ele correu para a escada de emergência.


“Ei!”, gritou meu vizinho.

O homem desapareceu.

Vasconcelos chamou a polícia.

Enquanto esperávamos, desliguei o alarme e fiquei olhando para o corredor cheio de moradores assustados.

Foi então que percebi algo.

O falso Almeida não havia tentado me matar.

Ele poderia ter esperado que eu saísse.

Poderia ter me seguido.

Poderia ter entrado quando eu estivesse sozinha.

Mas ele havia vindo imediatamente depois que abrimos a pasta MORTE.


“Eles sabem o que estamos fazendo”, falei.

Vasconcelos me encarou.

“Sim.”

“Como?”

Ele olhou para o notebook.

“Desconectou completamente da internet?”

“Sim.”

Ele abriu o computador e verificou as configurações.

Tudo estava desligado.

Então pegou o pendrive.


“Talvez o próprio dispositivo envie algum tipo de sinal quando certos arquivos são acessados.”

“Carlos faria isso?”

“Carlos projetava sistemas médicos que conseguiam transmitir informações em ambientes hospitalares isolados. Não seria impossível.”

A polícia chegou alguns minutos depois.

Expliquei sobre o homem no corredor, mas omiti o pendrive.

Ainda não sabia quem podia estar envolvido.

Os agentes recolheram as imagens das câmeras do prédio.

Antes de irem embora, um deles mostrou uma captura do homem entrando pela garagem.

Meu coração disparou.

Ele não estava sozinho.


Na gravação, alguns segundos antes, aparecia outro homem segurando a porta para ele.

Era alguém que eu conhecia.

O coordenador do programa de cuidados paliativos onde eu trabalhava como voluntária.

Roberto Nunes.

Fiquei olhando para a tela.

“Tem certeza de que conhece essa pessoa?”, perguntou o policial.

“Trabalho com ele.”

Vasconcelos virou-se imediatamente para mim.

“Foi ele quem designou Carlos para você?”

A pergunta me atingiu como um golpe.


“Sim.”

Um silêncio pesado caiu entre nós.

Carlos havia escrito que nosso encontro não fora por acaso.

Durante todo aquele tempo, eu havia presumido que ele encontrara alguma maneira de entrar no programa para chegar até mim.

Mas talvez não tivesse sido Carlos quem manipulou aquela escolha.

Talvez Roberto tivesse feito isso.

Depois que a polícia saiu, liguei para o programa.

Uma atendente respondeu.

“Preciso falar com Roberto.”

“Ele não está aqui.”

“Quando saiu?”

Ela hesitou.

“Na verdade... ele pediu demissão ontem.”

Meu coração parou.

“Ontem?”

“Sim. Foi inesperado. Limpou a sala e entregou as chaves.”

“Ele deixou algum endereço?”

“Não.”

Desliguei.

Vasconcelos estava olhando para a chave de número 314.

“Talvez não seja coincidência.”

“Por quê?”

“Os voluntários guardam materiais em armários?”

“Sim.”

Então entendi.

O programa funcionava em um prédio antigo ligado a uma instituição beneficente. No subsolo havia centenas de pequenos compartimentos usados para armazenar documentos e objetos dos pacientes.

“Tem armários numerados.”

Vinte minutos depois, estávamos no carro de Vasconcelos.

Não contei a ninguém para onde íamos.

Quando chegamos ao prédio do programa, a recepção estava quase vazia.

Usei meu crachá para entrar.

Descemos até o subsolo.

O corredor de armazenamento tinha iluminação fraca e cheiro de papel velho.

Os números começaram em 201.

Passamos por dezenas deles.

302.

303.

304.

Finalmente encontramos 314.

Minhas mãos tremiam quando coloquei a chave na fechadura.

Ela girou.

Dentro havia apenas uma caixa de papelão.

Na tampa, meu nome estava escrito à mão.

Abri.

Encontrei fotografias minhas.

Na escola.

Na universidade.

No primeiro emprego.

Na entrada do meu prédio.

Algumas tinham mais de vinte anos.

Carlos realmente havia acompanhado minha vida.

Mas havia outra coisa.

Um envelope maior, marcado:

PARA ELA — SOMENTE SE ROBERTO DESAPARECER.

Rasguei-o.

Havia uma única fotografia dentro.

Carlos aparecia ao lado de Roberto.

E de um terceiro homem.

Meu coração disparou imediatamente.

Eu conhecia aquele homem.

Não porque o tivesse visto recentemente.

Mas porque durante anos houve uma fotografia dele guardada numa gaveta que eu quase nunca abria.

Era meu pai.

Virei a foto.

Carlos havia escrito atrás:

“Se Roberto fugir, significa que ele descobriu que eu encontrei a verdade sobre o homem que separou nossa família.”

Abaixo havia uma data.

A fotografia havia sido tirada oito anos depois da morte da minha mãe.

Quando meu pai jurava que não tinha mais nenhum contato com a família dela.

E, no canto inferior, Carlos acrescentara uma última frase:

“Seu pai nunca esteve fugindo de mim. Ele estava trabalhando com eles.”

Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.

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