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Casei-me com um homem à beira da morte para realizar seu último desejo — depois do funeral, o advogado dele apareceu com uma carta que mudou tudo

Fiquei olhando para a fotografia no celular sem conseguir respirar.

Carlos estava usando o mesmo casaco cinza que vestira algumas vezes quando eu o levava às consultas. Atrás dele, eu reconhecia perfeitamente a entrada do meu prédio, o vaso rachado perto da porta e até o carro vermelho do meu vizinho estacionado do outro lado da rua.

A imagem mostrava a data daquela manhã.

Cinco horas depois do funeral.

“Isso é impossível”, murmurei.

Dr. Almeida pegou o telefone da minha mão, ampliou a fotografia e ficou em silêncio por vários segundos.

“Você viu o corpo antes do enterro?”

A pergunta me atingiu de maneira estranha.

“Vi Carlos no hospital depois que ele morreu.”

“Tem certeza de que era ele?”


Virei-me para Almeida.

“Claro que tenho certeza.”

Mas, no instante em que respondi, uma lembrança voltou.

Carlos havia morrido durante a madrugada. Quando cheguei ao hospital, seu corpo já estava coberto quase completamente por um lençol. Eu havia visto seu rosto por poucos minutos. Depois, uma enfermeira entrou dizendo que precisava prepará-lo.

No funeral, o caixão permaneceu fechado.

“Por que está perguntando isso?”

Almeida devolveu meu celular.

“Porque Carlos deixou instruções extremamente específicas para o funeral. Caixão fechado. Nenhum procedimento de reconhecimento adicional. Nenhuma exposição pública do corpo.”

Meu coração acelerou.

“Você está dizendo que ele pode estar vivo?”


“Estou dizendo que ainda não sabemos o que essa fotografia significa.”

O celular vibrou novamente.

Outra mensagem do mesmo número.

NÃO CONFIE EM NINGUÉM QUE ESTEJA DENTRO DA SUA CASA.

Meu corpo ficou gelado.

Olhei lentamente para Almeida.

Ele percebeu.

“Você acha que a mensagem está falando de mim.”

“Eu não sei mais o que pensar.”

Almeida não pareceu ofendido.


Pelo contrário.

Pegou sua pasta de couro, colocou-a sobre a mesa e recuou alguns passos.

“Então não confie em mim ainda.”

“Como?”

“Carlos sempre dizia que confiança concedida rápido demais era mais perigosa do que desconfiança.”

Ele tirou um pequeno cartão do bolso e deixou sobre a mesa.

“Esse é o número direto do meu escritório. Verifique meu nome. Verifique minha inscrição profissional. Verifique tudo o que eu disse antes de voltar a falar comigo.”

Então caminhou em direção à porta.

“Espere.”

Ele parou.


“Se Carlos sabia que alguém queria matá-lo, por que não procurou a polícia?”

Almeida ficou alguns segundos de costas para mim.

“Talvez tenha procurado.”

Virou-se.

“Ou talvez não soubesse em quem dentro da própria empresa poderia confiar.”

Saiu sem dizer mais nada.

Tranquei a porta imediatamente.

Durante quase uma hora, permaneci sentada no chão da sala com todos os documentos espalhados ao meu redor.

Havia algo profundamente errado.

Carlos tinha câncer terminal. Eu tinha acompanhado a piora dele. Vi suas mãos tremerem. Vi os dias em que mal conseguia ficar sentado. Ouvi médicos falarem sobre progressão da doença.


Não fazia sentido fingir aquilo.

Mas também não fazia sentido um medicamento cardíaco desconhecido aparecer em seu sangue.

Comecei a examinar a fotografia novamente.

Foi quando percebi um detalhe.

Carlos não estava olhando para a câmera.

Estava olhando para cima.

Para uma das janelas do meu prédio.

Ampliei a imagem até os pixels começarem a distorcer.

A janela parecia ser a minha.

Corri até a cortina e a fechei.


Meu telefone vibrou pela terceira vez.

PROCURE NA CAIXA DO JOGO QUE ELE SEMPRE PERDIA.

Senti um arrepio percorrer minhas costas.

Quase ninguém sabia sobre nossas tardes jogando jogos de tabuleiro.

Carlos adorava xadrez, mas eu sempre ganhava dele em um jogo antigo de estratégia chamado Império. Ele reclamava que as regras favoreciam pessoas “teimosas demais para desistir”.

Depois da morte dele, eu trouxera alguns objetos pessoais da casa porque não queria que tudo fosse descartado.

Entre eles estava justamente aquela caixa.

Ela ainda estava no armário da sala.

Peguei-a.

Abri.


Peças de madeira, cartas e fichas.

Nada diferente.

Só então me lembrei de que Carlos sempre insistia em guardar as peças depois das partidas.

“Você coloca tudo no lugar errado”, dizia.

Retirei o compartimento plástico.

Havia algo embaixo.

Um pequeno pendrive preto.

E uma chave.

Não reconheci a chave.

O pendrive tinha apenas uma palavra escrita em tinta branca.


VERDADE.

Meu primeiro impulso foi conectá-lo ao notebook, mas parei.

Carlos era fundador de uma empresa de tecnologia médica. Se alguém estivesse tentando esconder alguma coisa, provavelmente esperaria que eu fizesse exatamente isso.

Peguei um notebook antigo que não usava havia anos, desliguei a conexão com a internet e inseri o pendrive.

Havia quatro pastas.

EMPRESA.

HOSPITAL.

FAMÍLIA.

E uma última pasta protegida por senha.

MORTE.


Abri “HOSPITAL”.

O primeiro arquivo era uma planilha com datas, horários e nomes.

Reconheci imediatamente algumas delas.

Eram datas das últimas internações de Carlos.

Ao lado de cada uma havia registros de medicamentos.

Rolei a tela até encontrar a semana anterior à morte.

Meu estômago afundou.

O medicamento cardíaco encontrado no sangue aparecia na lista.

Mas não como prescrição.

Ao lado dele estava escrito:


ADMINISTRAÇÃO NÃO AUTORIZADA — ORIGEM INTERNA.

Logo abaixo havia o nome de uma pessoa.

Não era médico.

Não era enfermeiro.

Era alguém da Valente Tecnologias Médicas.

Meu telefone tocou.

Número desconhecido.

Dessa vez, atendi.

“Alô?”

Nenhuma resposta.

Apenas uma respiração baixa.

Então uma voz distorcida falou:

“Se encontrou o pendrive, eles já sabem que Carlos escolheu você.”

Meu sangue gelou.

“Quem é você?”

“Não importa.”

“Carlos está vivo?”

Houve alguns segundos de silêncio.

Quando a voz respondeu, meu coração pareceu parar.

“Essa não é a pergunta que deveria fazer.”

“Então qual é?”

A ligação ficou muda por um instante.

“Pergunte quem entrou no quarto dele vinte e três minutos antes de ele morrer.”

A chamada caiu.

Voltei imediatamente para a planilha.

Procurei o horário da morte.

03h17.

Então procurei os registros de acesso ao quarto.

Às 02h54, uma pessoa havia usado um cartão especial para entrar.

O mesmo nome aparecia ao lado do medicamento não autorizado.

Fiquei encarando a tela.

Eu conhecia aquele sobrenome.

Porque ele também aparecia nos documentos da empresa que Almeida havia deixado sobre minha mesa.

Era um dos membros do conselho administrativo da Valente Tecnologias Médicas.

E, segundo os documentos, aquela pessoa teria controle temporário da empresa enquanto a herança de Carlos permanecesse bloqueada.

Naquele exato momento, alguém tentou abrir a maçaneta da minha porta.

Devagar.

Uma vez.

Depois outra.

Apaguei a tela do notebook e fiquei imóvel.

Então uma voz conhecida falou do outro lado.

“Abra a porta. Precisamos conversar antes que você veja algo que Carlos nunca queria que encontrasse.”

Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.

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