Entretenimento

Casei-me com um homem à beira da morte para realizar seu último desejo — depois do funeral, o advogado dele apareceu com uma carta que mudou tudo

Fiquei imóvel diante da porta.

Eu conhecia aquela voz.

Demorei alguns segundos para acreditar, porque a última vez que a tinha ouvido fora no corredor do hospital, poucas horas antes de Carlos morrer.

Era o Dr. Henrique Vasconcelos.

O oncologista que acompanhara Carlos durante os últimos meses.

“Por que você está aqui?”, perguntei, sem abrir.

“Porque você encontrou alguma coisa que não deveria ter encontrado sozinha.”

Meu olhar caiu sobre o notebook desligado.

“Como sabe disso?”

Silêncio.


Depois ele respondeu:

“Carlos me pediu para observar você depois da morte dele.”

Aquilo só tornou tudo pior.

“Então foi você quem mandou as mensagens?”

“Não.”

“Foi você quem tirou a foto dele na frente do meu prédio?”

Desta vez, o silêncio durou mais.

“Abra a porta e eu explico.”

Apertei o telefone com força.

“Diga primeiro quem entrou no quarto dele às 02h54.”


A maçaneta parou de se mexer.

Quando Vasconcelos falou novamente, sua voz estava diferente.

“Você viu os registros.”

Não era uma pergunta.

“Vi.”

“Então também viu o nome de Gustavo Valente.”

Meu estômago se contraiu.

Era exatamente o nome que aparecia na planilha.

Gustavo Valente.

Presidente interino do conselho administrativo.


Primo de Carlos.

E, segundo os documentos de Dr. Almeida, a pessoa que assumiria o controle temporário da empresa enquanto minha herança permanecesse bloqueada.

“Ele entrou no quarto de Carlos vinte e três minutos antes da morte.”

“Sim.”

“E o medicamento?”

Outra pausa.

“Eu nunca o prescrevi.”

Meu coração acelerou.

“Então Carlos foi envenenado?”

“Eu não disse isso.”


“Mas é o que você está insinuando.”

“Estou dizendo que a dose encontrada no sangue dele não deveria estar ali.”

Olhei para a fechadura.

“Por que você não contou isso à polícia?”

“Porque quando pedi uma segunda análise da amostra, ela desapareceu do laboratório.”

A resposta me fez gelar.

“Desapareceu?”

“Junto com parte dos registros eletrônicos daquela madrugada.”

“Mas Carlos guardou cópias.”

“Carlos guardava cópias de tudo.”


Olhei para o pendrive sobre a mesa.

De repente, ouvi passos no corredor.

Vasconcelos falou rapidamente:

“Apague as luzes.”

“Por quê?”

“Agora.”

Algo em sua voz me fez obedecer.

Apaguei a luminária da sala.

Através do olho mágico, vi Vasconcelos se afastar da minha porta e olhar para o elevador.

As portas se abriram.


Dois homens saíram.

Nenhum deles parecia morador do prédio.

Um carregava uma pasta preta.

O outro olhava os números dos apartamentos.

Meu coração disparou.

Vasconcelos caminhou até eles.

Não consegui ouvir tudo.

Apenas fragmentos.

“...apartamento errado.”

“...ninguém entrou.”


“...ela não está aqui.”

Então um dos homens perguntou:

“Tem certeza?”

Vasconcelos respondeu:

“Absoluta.”

Eles ficaram ali por quase um minuto.

Depois voltaram para o elevador.

Só quando as portas se fecharam Vasconcelos retornou.

“Agora entende por que vim?”

Abri apenas a corrente de segurança.


“Quem eram eles?”

“Segurança corporativa da Valente.”

“Vieram atrás de mim?”

“Vieram atrás do que Carlos deixou.”

Olhei para o pendrive.

“Como sabem que está comigo?”

Vasconcelos respirou fundo.

“Porque alguém acompanhou Carlos durante os últimos dias.”

Abri a porta o suficiente para deixá-lo entrar.

Ele parecia exausto.


Fechou a porta e imediatamente puxou as cortinas.

“Você precisa sair daqui.”

“Não vou a lugar nenhum até me dizer a verdade.”

Ele me encarou.

“Qual parte?”

“Comece explicando por que meu marido aparentemente foi fotografado vivo depois do próprio funeral.”

A expressão dele endureceu.

“Mostre a foto.”

Entreguei meu celular.

Assim que viu a imagem, Vasconcelos franziu a testa.


Ampliou várias vezes.

Depois ficou pálido.

“Isso não foi tirado hoje.”

“Está com a data de hoje.”

“Os metadados podem ser alterados.”

“Como tem tanta certeza?”

Ele apontou para o casaco de Carlos.

“Veja o bolso.”

Ampliei.

Havia um pequeno rasgo perto da costura.

“E daí?”

“Esse casaco foi destruído há quase três semanas.”

Olhei para ele.

“Destruído?”

“Carlos derramou uma substância durante um tratamento. O tecido foi contaminado e descartado pelo hospital.”

Senti minhas pernas enfraquecerem.

“Então alguém tinha uma fotografia antiga dele na frente do meu prédio.”

“Exatamente.”

“Mas Carlos nunca veio aqui.”

Vasconcelos ficou em silêncio.

Foi a primeira vez que realmente senti medo da resposta.

“Veio.”

“Quando?”

“Antes de entrar no programa de cuidados paliativos.”

Não consegui falar.

Ele continuou:

“Carlos já sabia onde você morava.”

A carta voltou à minha cabeça.

Eu conheço você desde que nasceu e acompanhei sua vida em silêncio.

A fotografia não provava que Carlos estava vivo.

Provava que ele havia me observado.

“Quem está mandando essas mensagens?”

“Não sei.”

“Alguém quer que eu pense que ele sobreviveu.”

“Ou quer desestabilizar você.”

Voltei ao notebook.

“Então me ajude a abrir a pasta MORTE.”

Vasconcelos ficou imediatamente tenso.

“Está protegida?”

“Sim.”

“Carlos lhe deixou alguma senha?”

“Não.”

Ele olhou para a caixa do jogo.

“Talvez tenha deixado.”

Começamos a examinar tudo.

As cartas.

As peças.

As instruções.

Até que percebi algo estranho na parte interna da tampa.

Havia números escritos a lápis, quase invisíveis.

4-1-18-12-15-19.

Vasconcelos pegou uma folha.

“Pode ser um código alfabético.”

Substituímos os números por letras.

D-A-R-L-O-S.

Nada.

Tentamos novamente, considerando que o primeiro número poderia ter sido escrito de maneira errada.

C-A-R-L-O-S.

Carlos.

Digitei a senha.

A pasta abriu.

Havia apenas três arquivos.

Um vídeo.

Um documento chamado SE EU MORRER.

E uma gravação de áudio datada dois dias antes da morte.

Cliquei no áudio.

A voz de Carlos preencheu a sala.

Fraca.

Mas inconfundível.

“Se você está ouvindo isso, então alguma coisa aconteceu comigo antes que eu pudesse terminar o que comecei.”

Levei a mão à boca.

Carlos continuou:

“Não confie na causa oficial da minha morte. Gustavo está envolvido, mas ele não é a pessoa que está no comando.”

Vasconcelos e eu nos entreolhamos.

Então Carlos disse algo que fez meu sangue gelar.

“A pessoa que realmente iniciou tudo isso já conhecia minha esposa muito antes de eu encontrá-la.”

A gravação ficou em silêncio por dois segundos.

“E se ela descobrir quem é cedo demais, será a próxima.”

Nesse instante, alguém bateu três vezes na porta.

Não com força.

Com calma.

Uma voz masculina falou do corredor:

“Sou o Dr. Almeida. Abra. Descobri quem alterou os registros do hospital.”

Vasconcelos levantou a cabeça.

Eu fui em direção à porta.

Ele segurou meu braço.

“Não abra.”

“Por quê?”

Seu rosto perdeu completamente a cor.

“Porque eu acabei de receber uma mensagem do verdadeiro Dr. Almeida.”

Ele ergueu o próprio celular.

Na tela havia uma fotografia.

Dr. Almeida estava amarrado a uma cadeira.

E embaixo da imagem havia apenas uma frase:

NÃO DEIXE O HOMEM DO OUTRO LADO DA PORTA ENTRAR.

Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.

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