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Comandante Deu Um Tapa Em Uma Capitã Diante De 1.040 Militares — Mas Não Sabia Quem Ela Realmente Era

Por alguns segundos, ninguém no campo de formatura pareceu entender o que o socorrista acabara de dizer.

Então as palavras começaram a ganhar peso.

— Há seis pessoas lá dentro... e uma delas está dizendo que foi a Capitã Alves quem deu a ordem.

Todos os rostos se voltaram para mim.

Desta vez, o silêncio não era respeito.

Era dúvida.

O Almirante Ricardo Vasconcelos virou lentamente a cabeça na minha direção.

Bruno Siqueira também.

E, apesar de estar cercado por policiais militares da Marinha, ele sorriu.

Foi um sorriso pequeno.


Quase invisível.

Mas eu vi.

Naquele instante, compreendi que a agressão no campo de formatura talvez não tivesse sido apenas arrogância.

Talvez Bruno estivesse desesperado.

Talvez soubesse que algo muito maior estava prestes a ser descoberto.

— Repita — ordenei ao socorrista.

Ele engoliu em seco.

— Seis militares, senhora. Todos vivos. Alguns apresentam sinais de desidratação e ferimentos. Um deles insiste que a senhora autorizou o confinamento.

Tomás Ribeiro deu um passo à frente.

— Isso é impossível.


Não respondi.

Impossível era uma palavra perigosa em investigações.

Eu preferia fatos.

— Quem fez a acusação?

O socorrista consultou o rádio.

— Sargento Matheus Gomes.

Um murmúrio atravessou novamente as fileiras.

Bruno abaixou a cabeça como se tentasse esconder a satisfação.

Matheus.

O homem que oficialmente desaparecera dos registros.


O militar cuja ausência havia ajudado a justificar minha presença naquela base.

E agora ele dizia que eu era responsável pelo que havia acontecido.

O Almirante Vasconcelos falou baixo:

— Mariana?

Não havia acusação na voz dele.

Ainda não.

Apenas uma pergunta.

— Nunca estive naquela câmara, senhor.

— Conhecia a existência dela?

— Não até o tenente mencioná-la.


Bruno soltou uma risada curta.

— Claro.

Os policiais ao redor dele se tensionaram.

Vasconcelos virou-se imediatamente.

— Capitão de Fragata, mais uma palavra sem autorização e será retirado daqui algemado.

Bruno fechou a boca.

Mas continuou sorrindo.

Eu olhei para Tomás.

— Quem tem acesso aos sistemas de autorização de treinamento?

— O comando da unidade, operações, segurança interna e alguns oficiais responsáveis pelos exercícios especiais.


— E os registros podem ser alterados?

Tomás hesitou.

Aquilo já era uma resposta.

— Em teoria, sim.

— Em teoria?

Ele baixou a voz.

— Com credenciais de nível alto.

Olhei novamente para Bruno.

O sorriso havia desaparecido.

— Quero acesso imediato à câmara — eu disse.


Vasconcelos assentiu.

— Eu vou com a senhora.

— Senhor, recomendo que permaneça aqui.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi uma ordem?

— Uma recomendação baseada no fato de que alguém acabou de tentar ligar meu nome a seis militares presos ilegalmente. Ainda não sabemos o tamanho disso.

O almirante me observou durante dois segundos.

Depois assentiu.

— Tomás vai com você.

Quatro policiais militares nos acompanharam até o prédio do comando.


Atrás de nós, Bruno permaneceu sob custódia no campo de formatura.

Eu sentia o corte no lábio pulsando.

Mas aquilo já não importava.

Entramos por um corredor lateral, atravessamos uma área de manutenção e descemos dois lances de escada.

Quanto mais fundo íamos, mais antigo parecia o prédio.

As paredes mudaram.

Concreto exposto.

Tubulações aparentes.

Luzes frias.

O cheiro de umidade se misturava ao de desinfetante.


No fim do corredor havia uma porta metálica pesada.

Dois socorristas estavam ajoelhados junto a um homem sentado no chão.

Reconheci Matheus Gomes pelas fotografias do dossiê.

Estava mais magro do que nas imagens.

Olheiras profundas.

Barba crescida.

Um hematoma amarelado na lateral do rosto.

Quando me viu, tentou se levantar.

— Foi ela.

Todos pararam.


Matheus apontou para mim com a mão trêmula.

— Foi a Capitã Alves.

Tomás avançou.

— Cuidado com o que está dizendo, Sargento.

Levantei a mão.

— Deixe.

Aproximei-me devagar.

— Quando eu dei essa ordem?

— Anteontem.

— Onde?


Ele piscou várias vezes.

— Na sala de instrução.

— Qual sala?

Hesitou.

— A... sala três.

— Em que horário?

— À noite.

— Que horas?

O rosto dele endureceu.

— Não lembro.

— O que eu estava vestindo?

Ele olhou para meu uniforme.

— Isso.

Tomás inspirou profundamente.

Eu continuei.

— Eu cheguei sozinha?

Silêncio.

— Quem estava comigo, Sargento?

— Ninguém.

— E o que exatamente eu disse?

Matheus começou a respirar mais rápido.

— Que nós ficaríamos aqui até aprender a obedecer.

Olhei para os outros cinco militares.

Dois evitavam meu olhar.

Uma mulher jovem chorava em silêncio.

Outro homem estava deitado em uma maca portátil recebendo soro.

— Todos ouviram essa ordem?

Ninguém respondeu.

— Estou fazendo uma pergunta.

Finalmente, a jovem ergueu os olhos.

— Eu não ouvi a senhora.

Matheus virou-se bruscamente para ela.

— Carla.

A forma como pronunciou o nome não foi um aviso comum.

Foi medo.

Aproximei-me da militar.

— Qual é sua graduação?

— Cabo Carla Mendes.

— Cabo Mendes, quem colocou você aqui?

Ela olhou para Matheus.

Depois para Tomás.

Por fim, para os policiais militares.

— Eu não sei.

— Viu o rosto de alguém?

— Estávamos encapuzados quando fomos trazidos.

Minha atenção voltou para Matheus.

— Você também estava encapuzado?

Ele hesitou.

— Sim.

— Então como me viu dando a ordem?

O corredor inteiro ficou silencioso.

Matheus abriu a boca.

Nenhuma palavra saiu.

Eu me agachei diante dele.

— Sargento, olhe para mim.

Ele evitou meu olhar.

— Alguém disse que eu estava presente?

Nada.

— Alguém mandou você usar meu nome?

Seus olhos finalmente encontraram os meus.

Havia medo ali.

Mas não de mim.

— Minha família.

Foi quase um sussurro.

Tomás se inclinou.

— O quê?

Matheus fechou os olhos.

— Eles sabem onde minha esposa mora.

O sorriso de Bruno no campo de formatura voltou à minha mente.

Então ouvi passos correndo no corredor.

Um policial militar surgiu na escada, segurando um tablet.

— Capitã.

Ele estava pálido.

— Encontramos os registros eletrônicos da câmara.

Estendeu o aparelho.

Na tela havia uma autorização digital emitida quarenta e oito horas antes.

Meu nome.

Minha patente.

Meu número funcional.

E uma assinatura eletrônica vinculada às minhas credenciais.

Tomás ficou imóvel.

— Isso não pode ser real.

Peguei o tablet.

Observei cada linha.

Tudo parecia perfeito.

Perfeito demais.

Então encontrei o detalhe.

No rodapé do registro havia um código de autenticação de missão.

Eu conhecia aquele código.

Não porque fosse meu.

Mas porque já o tinha visto anos antes.

Em uma operação que oficialmente jamais havia acontecido.

Uma operação na qual três homens morreram depois que informações classificadas foram vendidas ao inimigo.

Levantei os olhos.

— Isolem este corredor.

Tomás franziu a testa.

— Por quê?

Entreguei o tablet a ele.

— Porque isso não começou nesta base.

— Do que está falando?

Olhei para Matheus.

Ele chorava silenciosamente.

Depois olhei para a porta metálica da câmara.

— Quem falsificou essa autorização teve acesso a um protocolo encerrado há sete anos.

Tomás empalideceu.

— Quantas pessoas teriam acesso?

Minha resposta saiu baixa.

— Oficialmente?

Fiz uma pausa.

— Quatro.

O rádio de um dos policiais chiou.

A voz do Almirante Vasconcelos surgiu do outro lado.

— Capitã Alves, volte imediatamente ao campo de formatura.

Peguei o rádio.

— O que aconteceu?

Houve dois segundos de silêncio.

Então ele respondeu:

— Bruno Siqueira não está mais sob custódia.

Meu olhar se fixou na escada.

— Como?

A voz do almirante endureceu.

— Alguém apresentou uma ordem de transferência assinada digitalmente por mim.

Fechei os olhos por um instante.

Primeiro meu nome.

Agora o dele.

Aquilo não era apenas uma tentativa de proteger Bruno.

Era uma demonstração.

Quem estava por trás daquilo queria que soubéssemos que podia entrar em nossos sistemas, usar nossas identidades e mover pessoas dentro da própria Marinha.

— Para onde levaram Siqueira? — perguntei.

Do rádio veio uma resposta que fez Tomás perder a cor.

— Ninguém sabe.

Mais um ruído.

Depois Vasconcelos acrescentou:

— E há outra coisa.

— Diga.

— Encontramos um arquivo no gabinete dele.

— Que arquivo?

A voz do almirante baixou.

— Uma lista de onze nomes.

Meu estômago apertou.

— E?

— Dez estão riscados.

— E o décimo primeiro?

Silêncio.

Então Vasconcelos respondeu:

— É o seu.

**Continua — clique na Parte 4 para continuar lendo.**

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