Durante um segundo, o corredor subterrâneo pareceu perder todo o ar.
Dez nomes riscados.
O meu, intacto.
Eu não precisei perguntar o que aquilo significava.
Listas assim nunca eram administrativas.
Nunca eram inocentes.
Peguei o rádio com mais força.
— Não toque em nada desse arquivo, senhor.
A voz do Almirante Vasconcelos veio seca do outro lado.
— Já isolei o gabinete.
— Quem encontrou a lista?
— Um dos policiais militares durante a apreensão.
— Ele está sozinho?
Houve uma pausa curta.
— Não mais.
— Mantenha todos no local. Ninguém entra, ninguém sai.
Tomás me observava.
Ele conhecia aquele tom.
Era o tom que eu usava quando deixava de procurar respostas e começava a caçar uma estrutura.
Olhei para Matheus.
— Quero sua esposa localizada e colocada sob proteção imediatamente.
Ele ergueu a cabeça.
— Senhora...
— Se alguém usou sua família para obrigá-lo a mentir, ela já faz parte disso.
Matheus fechou os olhos.
O alívio no rosto dele foi tão forte quanto o medo.
Voltei-me para Carla.
— E as famílias dos outros cinco também.
Tomás assentiu e começou a transmitir as ordens.
Antes de subir, parei diante da autorização falsa exibida no tablet.
Meu número funcional.
Minha assinatura digital.
O código de uma missão encerrada sete anos antes.
Aquilo não podia ter sido improvisado por Bruno.
Ele podia ser cruel.
Arrogante.
Talvez corrupto.
Mas não tinha acesso a certos arquivos.
Alguém muito acima dele tinha.
Ou alguém que, em algum momento, estivera muito acima dele.
Quando voltamos ao campo de formatura, os 1.040 militares já não estavam em formação perfeita.
A cerimônia havia acabado.
A tensão, não.
Pequenos grupos permaneciam espalhados pelo campo sob supervisão de oficiais.
Ninguém falava alto.
Todos sabiam que algo havia quebrado dentro daquela base.
Vasconcelos me esperava na entrada do prédio administrativo.
— Venha comigo.
Entramos no gabinete de Bruno.
A sala era grande demais para um homem que gostava tanto de lembrar aos outros a própria patente.
Madeira escura.
Fotografias oficiais.
Medalhas emolduradas.
Uma espada cerimonial na parede.
Sobre a mesa havia um saco de evidências transparente contendo uma folha dobrada.
Onze nomes impressos.
Dez riscados com caneta preta.
O meu não.
Aproximei-me sem tocar.
Reconheci dois nomes imediatamente.
Coronel Henrique Paes.
Capitão de Mar e Guerra Mauro Teles.
Ambos mortos.
Oficialmente, acidentes.
Um acidente aéreo.
Um afogamento durante treinamento.
Li os outros.
— Conhece todos? — perguntou Vasconcelos.
— Alguns.
Tomás entrou logo atrás de nós.
— Eu conheço um.
Apontou.
— Major Augusto Neves. Trabalhou em inteligência conjunta.
— O que aconteceu com ele?
Tomás hesitou.
— Suicídio.
Ninguém falou por alguns segundos.
Olhei para a lista novamente.
Dez nomes riscados.
Dez pessoas fora do caminho.
Talvez dez pessoas que haviam visto algo.
— Precisamos levantar a ligação entre todos eles.
Vasconcelos concordou.
— Já pedi os dossiês completos.
— Não apenas os dossiês oficiais.
Ele entendeu.
— Você acha que há arquivos paralelos.
— Tenho certeza.
Caminhei até a janela.
Do lado de fora, vi o local onde Bruno havia me atingido menos de uma hora antes.
Tudo tinha começado com um tapa público.
Agora eu já sabia que aquele tapa provavelmente havia sido a menor parte do problema.
Tomás aproximou-se da mesa.
— Há uma coisa estranha.
— O quê?
Ele apontou para o papel.
— Se queriam matar a senhora, por que deixar seu nome sem riscar?
Olhei para ele.
— Porque talvez a lista não seja de alvos.
Vasconcelos franziu a testa.
— Então é o quê?
— Uma lista de pessoas que chegaram perto demais de alguma coisa.
Nesse momento, um técnico de perícia digital entrou rapidamente.
— Almirante, Capitã.
Ele segurava um computador portátil lacrado em plástico.
— Encontramos um dispositivo escondido atrás de um painel no gabinete.
— De Bruno?
— Registrado no patrimônio da base, mas fora da rede oficial.
Vasconcelos fez um gesto.
— Abra.
O técnico colocou o computador sobre uma mesa auxiliar e iniciou o sistema.
— Há poucos arquivos locais. Quase tudo foi apagado.
— Recuperável?
— Parte.
Ele digitou alguns comandos.
Pastas começaram a aparecer.
Logs.
Datas.
Sequências numéricas.
Então surgiu uma pasta sem nome.
Apenas um símbolo.
Três linhas horizontais cortadas por um círculo.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Eu conhecia aquele símbolo.
Vasconcelos percebeu.
— Mariana?
Não respondi imediatamente.
Sete anos antes, numa operação cujo nome verdadeiro nunca aparecera em relatório algum, eu tinha visto o mesmo símbolo pintado na parede de um depósito abandonado a quase seis mil quilômetros dali.
Na época, acreditamos que fosse apenas a marca interna de uma rede de contrabando.
Estávamos errados.
Dentro daquele depósito encontramos equipamentos militares desviados, documentos falsificados e fotografias de oficiais brasileiros.
Três homens da minha equipe morreram duas noites depois.
E a investigação foi encerrada sem explicação.
— Já vi isso antes — respondi.
Tomás deu um passo na minha direção.
— Onde?
— Em uma missão classificada.
O técnico abriu a pasta.
Havia vídeos.
Relatórios.
Planilhas.
Fotografias.
E dezenas de arquivos de áudio.
O mais recente tinha sido criado naquela manhã.
Antes da formação.
— Reproduza — ordenei.
O técnico clicou.
Primeiro veio estática.
Depois uma voz.
Bruno.
— Ela chegou ontem.
Outra voz respondeu.
Mas estava distorcida digitalmente.
— Confirmação visual?
— Sim. Mariana Alves.
Meu nome na gravação fez todos ficarem imóveis.
Bruno continuou:
— Ela ainda não sabe nada.
A voz distorcida respondeu:
— Então mantenha assim.
— E se começar a procurar?
Pausa.
— Use Gomes.
Olhei para Tomás.
Matheus.
Bruno voltou a falar:
— E se isso não bastar?
A voz do outro lado respondeu com absoluta calma:
— Faça com que pareça que ela está por trás de tudo.
Meu maxilar se contraiu.
O áudio seguiu.
Bruno parecia nervoso.
— Ela não é uma oficial comum.
— Eu sei exatamente quem ela é.
Então veio uma frase que me fez esquecer até mesmo o corte no lábio.
— Foi por isso que deixamos Mariana viva sete anos atrás.
O técnico pausou sem que ninguém mandasse.
Vasconcelos virou-se para mim.
— Deixaram você viva?
Meu coração batia mais devagar agora.
Não mais rápido.
Era assim que meu corpo reagia quando o perigo finalmente mostrava o rosto.
— Continue.
O áudio voltou.
Bruno falou:
— Você disse que a operação tinha terminado.
A voz distorcida respondeu:
— Terminou para os outros.
Um ruído.
Depois:
— Para ela, ainda não.
A gravação acabou.
Ninguém na sala se mexeu.
Vasconcelos foi o primeiro a falar.
— Quem sabia daquela missão?
Olhei para o símbolo na tela.
— Pouquíssimas pessoas.
— Nomes.
Eu me virei.
— O senhor quer os nomes oficiais ou os verdadeiros?
Antes que ele pudesse responder, o telefone seguro sobre a mesa de Bruno começou a tocar.
Todos olharam para o aparelho.
O técnico empalideceu.
— Essa linha está desconectada da rede desde que isolamos o gabinete.
O telefone continuou tocando.
Uma vez.
Duas.
Três.
Caminhei até ele.
Vasconcelos levantou a mão.
— Mariana.
Atendi.
Não disse nada.
Do outro lado, ouvi uma respiração lenta.
Depois uma voz masculina, sem distorção.
Uma voz que eu reconheceria mesmo depois de sete anos.
— Você continua demorando demais para entender o jogo, Capitã.
Meu sangue gelou.
Não porque eu tivesse medo.
Mas porque o homem daquela voz estava oficialmente morto.
— General César Brandão.
Silêncio.
Então ele riu.
— Finalmente.
A ligação caiu.
Tomás me encarou.
— Quem é César Brandão?
Eu ainda segurava o telefone.
— O homem que comandou a operação na qual perdemos três brasileiros.
Vasconcelos franziu a testa.
— Brandão morreu seis anos atrás.
Coloquei lentamente o aparelho de volta no gancho.
— Não.
Olhei para os dez nomes riscados.
Depois para o meu.
— Foi isso que ele quis que acreditássemos.
**Continua — clique na Parte 5 para continuar lendo.**







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