O nome César Brandão permaneceu suspenso no gabinete como fumaça depois de um disparo.
Durante seis anos, aquele homem estivera morto para a Marinha.
Morto nos registros.
Morto nos relatórios.
Morto nas conversas que ninguém gostava de prolongar.
Mas eu acabara de ouvir sua voz.
E algumas vozes não desaparecem da memória.
O Almirante Vasconcelos fechou a porta do gabinete.
— Quero tudo.
Olhei para ele.
— Tudo o quê?
— Tudo o que aconteceu naquela operação.
Tomás permaneceu perto da mesa, em silêncio.
O técnico de perícia digital fingia trabalhar, mas eu sabia que estava ouvindo cada palavra.
— Senhor, parte dessas informações continua classificada acima do nível desta unidade.
— Mariana, alguém está usando uma operação antiga para falsificar ordens dentro da minha cadeia de comando. Já passou da hora de eu saber o suficiente para entender contra quem estamos lutando.
Ele tinha razão.
Respirei fundo.
— Sete anos atrás, fomos enviados para interceptar uma rede de desvio de material militar.
— Onde?
— Oficialmente, nunca estivemos lá.
Vasconcelos não insistiu.
— Éramos nove.
Passei os olhos pelo símbolo na tela.
— César Brandão coordenava a operação do lado brasileiro. Na época, era coronel. A inteligência dizia que encontraríamos armas desviadas e documentos falsos.
Tomás perguntou:
— E o que encontraram?
— Muito mais.
Fechei os olhos por um instante.
Consegui sentir novamente o cheiro daquele depósito.
Poeira.
Diesel.
Metal.
Sangue.
— Encontramos cópias de rotas militares, identidades de agentes, autorizações de transferência e listas com nomes de oficiais. Tudo indicava que alguém de dentro estava alimentando aquela rede há anos.
Vasconcelos falou baixo:
— Brandão?
— Não tínhamos provas.
— E depois?
— Depois de quarenta e oito horas, nossas posições foram entregues.
Tomás ficou imóvel.
— Alguém vazou a operação.
Assenti.
— Fomos emboscados.
Por um segundo, vi novamente os rostos.
Capitão Leandro Farias.
Sargento Paulo Meireles.
Tenente Caio Nascimento.
Homens que haviam confiado em mim.
Homens que não voltaram.
— Três morreram — continuei. — Dois ficaram gravemente feridos. O restante foi retirado.
— E a investigação?
Soltei uma risada sem humor.
— Encerrada.
Vasconcelos franziu a testa.
— Com três mortos?
— Alegaram comprometimento operacional e falta de provas.
— Quem assinou o encerramento?
Olhei para ele.
— General César Brandão.
Ninguém falou.
Tomás finalmente quebrou o silêncio.
— Então ele investigou o próprio vazamento.
— Talvez.
— E depois morreu.
— Oficialmente.
O técnico se virou.
— Capitã, encontrei algo.
Fomos até ele.
Na tela havia uma sequência de transferências financeiras pequenas.
Nada chamativo.
Valores fragmentados.
Datas espaçadas.
Empresas diferentes.
— Isso veio do computador escondido?
— Sim.
— Destinatários?
— Estou cruzando agora.
Ele digitou rapidamente.
Três nomes apareceram.
Nenhum significava nada para mim.
Então surgiu um quarto.
Tomás empalideceu.
— Eu conheço esse.
— Quem?
— Capitão de Corveta Eduardo Ferraz.
Vasconcelos ergueu a cabeça.
— Segurança de comunicações.
Meu estômago apertou.
— Ele tem acesso às assinaturas digitais?
Tomás assentiu.
— A vários níveis.
— Inclusive às minhas?
— Não deveria.
— Isso não foi o que perguntei.
Ele hesitou.
— Com acesso ao servidor de autenticação... sim.
Vasconcelos pegou o telefone seguro.
— Quero Ferraz localizado agora.
Tomás foi mais rápido.
Já estava falando pelo rádio.
Esperamos.
Dez segundos.
Vinte.
Trinta.
A resposta veio.
— Senhor...
A expressão de Tomás mudou.
— Ferraz saiu da base quarenta minutos atrás.
— Autorizado por quem?
— Ordem superior.
Vasconcelos bateu a mão na mesa.
— De quem?
Tomás olhou para o monitor.
— Sua.
Ninguém precisou explicar.
Outra assinatura falsa.
Outro movimento autorizado por alguém que sabia manipular o sistema.
Eu me virei para o técnico.
— Rastreie o celular dele.
— Já estou tentando.
Alguns segundos depois, um ponto apareceu em um mapa.
Movendo-se.
— Via Expressa Presidente João Goulart — disse o técnico. — Sentido zona norte.
— Polícia Militar da Marinha?
Vasconcelos respondeu:
— Envio uma equipe.
Balancei a cabeça.
— Não.
Todos me olharam.
— Se Brandão está acompanhando nossos sistemas, qualquer ordem oficial vai avisá-lo.
Tomás entendeu primeiro.
— Precisamos agir fora do canal normal.
— Exatamente.
Vasconcelos me encarou por alguns segundos.
— Você tem alguém?
— Tenho.
Peguei meu telefone pessoal.
Havia números que eu não usava há anos.
Números que nunca deveriam ser necessários novamente.
Escolhi um.
A chamada foi atendida no segundo toque.
— Quem está falando?
— Mariana.
Silêncio.
Depois:
— Achei que você tivesse esquecido este número.
— Preciso de um favor, Rafael.
— Quando você diz “favor”, alguém normalmente está tentando matar você.
Olhei para a lista de nomes.
— Desta vez, talvez várias pessoas.
A voz dele perdeu toda a leveza.
— Localização?
Passei os dados de Ferraz.
— Não encoste nele. Só siga.
— Entendido.
Desliguei.
Tomás me observava.
— Quem é Rafael?
— Alguém que não aparece em nenhum sistema desta base.
Vasconcelos não gostou da resposta.
Mas aceitou.
O técnico chamou nossa atenção novamente.
— Há mais.
Ele abriu outra pasta recuperada.
Dessa vez, encontramos fotografias.
Militares entrando e saindo da base.
Famílias.
Residências.
Placas de veículos.
Depois apareceu uma imagem de Matheus Gomes com a esposa.
Outra de Carla Mendes.
Outra de Tomás.
Ele ficou pálido.
— Isso foi tirado na frente da minha casa.
A imagem seguinte mostrava o Almirante Vasconcelos entrando em um restaurante.
Depois eu.
Uma fotografia minha descendo de um carro no dia anterior.
— Eles estavam monitorando todos nós — disse Tomás.
— Não todos — respondi.
Passei para a próxima imagem.
Bruno Siqueira aparecia conversando com Eduardo Ferraz em um estacionamento.
Na imagem seguinte, os dois entregavam uma pasta a um terceiro homem.
O rosto estava parcialmente escondido.
Mas a postura...
A altura...
O jeito de inclinar a cabeça...
Senti algo gelado atravessar meu peito.
Ampliei a imagem.
A resolução era ruim.
Mesmo assim, reconheci uma cicatriz próxima à orelha esquerda.
César Brandão.
Vivo.
Mais velho.
Mas vivo.
Vasconcelos aproximou-se.
— Meu Deus.
O técnico ampliou ainda mais.
No canto inferior da fotografia havia data e horário.
Três semanas antes.
Tomás soltou o ar lentamente.
— Então Bruno sabia que Brandão estava vivo.
— Sabia.
— E Ferraz também.
— Sim.
O telefone vibrou na minha mão.
Rafael.
Atendi.
— Fala.
Do outro lado, ouvi ruído de trânsito.
— Encontrei Ferraz.
— Onde?
— Ele abandonou o carro perto de um galpão antigo.
— Está sozinho?
Pausa.
— Não.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— Quem está com ele?
— Dois homens.
— Reconhece algum?
— Um deles é Bruno Siqueira.
Tomás me encarou.
Vasconcelos aproximou-se.
— E o outro? — perguntei.
Rafael não respondeu imediatamente.
— Mariana...
Eu conhecia aquele tom.
— Diga.
— Acho que você vai querer ver isso pessoalmente.
— Quem é?
— Não sei o nome.
Mais um silêncio.
— Mas ele acabou de mandar Bruno ajoelhar no chão.
Ouvi um som abafado ao fundo.
Depois um estampido seco.
Rafael respirou fundo.
— Um tiro.
Ninguém no gabinete se mexeu.
— Rafael?
— Estou aqui.
— Bruno?
— Caiu.
Fechei os olhos por meio segundo.
Bruno podia ter respostas.
Agora alguém estava apagando pontas soltas.
— Não intervenha.
— Entendido.
— Continue observando.
— Mariana...
— O quê?
— O homem que atirou está olhando diretamente para onde eu estou.
Meu sangue gelou.
— Saia daí.
O telefone chiou.
Então ouvi uma segunda voz.
Não era Rafael.
Era César Brandão.
— Você ainda escolhe pessoas leais demais, Mariana.
Levantei a cabeça.
— Onde está Rafael?
Brandão riu.
— Vivo.
Por enquanto.
— O que você quer?
— Que pare de procurar respostas.
— Então você não me conhece tão bem quanto pensa.
A voz dele endureceu.
— Conheço melhor do que você imagina.
Houve uma pausa.
— Quer saber por que os dez nomes da lista foram riscados?
Olhei para o papel sobre a mesa.
— Estou ouvindo.
— Porque todos eles descobriram uma parte da verdade.
Meu olhar ficou preso ao meu próprio nome.
— E eu?
— Você descobriu a primeira parte sete anos atrás.
— Qual era?
Brandão respirou devagar.
— Que o vazamento daquela missão não veio de um traidor isolado.
A linha ficou silenciosa por um instante.
Então ele acrescentou:
— Veio de dentro do próprio comando que enviou vocês.
Senti Vasconcelos se aproximar.
— Quem?
Brandão riu novamente.
— Se eu disser agora, você não vai acreditar.
— Tente.
— Primeiro sobreviva até amanhã.
A ligação caiu.
Fiquei olhando para o telefone.
Tomás foi o primeiro a falar.
— Por que amanhã?
Antes que eu pudesse responder, o técnico soltou uma exclamação.
— Capitã.
Ele abriu um arquivo que acabara de ser recuperado.
No topo havia uma data.
A manhã seguinte.
Abaixo dela, um título simples:
**OPERAÇÃO SILÊNCIO — FASE FINAL**
E logo abaixo...
uma lista de quatro alvos.
Ricardo Vasconcelos.
Tomás Ribeiro.
Matheus Gomes.
Mariana Alves.
No rodapé havia apenas uma frase:
**“Antes das 06h00, nenhum deles poderá falar.”**
Olhei para o relógio na parede.
Tínhamos menos de dezoito horas.
**Continua — clique na Parte 6 para continuar lendo.**







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