Dezoito horas.
Era tempo suficiente para evacuar uma base.
Tempo suficiente para esconder testemunhas.
Tempo suficiente para montar uma operação de proteção.
Mas não quando o inimigo podia emitir ordens usando nossas próprias assinaturas.
Observei os quatro nomes na tela.
Ricardo Vasconcelos.
Tomás Ribeiro.
Matheus Gomes.
Mariana Alves.
— Desliguem este computador da rede — ordenei.
O técnico retirou imediatamente o cabo.
— Capitã, ele já estava em uma rede isolada.
— Então desligue tudo.
Ele obedeceu.
Vasconcelos apontou para a porta.
— Quero segurança reforçada aqui.
— Não — respondi.
Ele me encarou.
— Explique.
— Qualquer reforço oficial cria movimentação. Se Brandão tem alguém monitorando a base, saberá exatamente onde estamos concentrando proteção.
Tomás cruzou os braços.
— Então ficamos parados?
— Fazemos o contrário.
Olhei para Vasconcelos.
— Vamos dar a ele o que espera ver.
— Que seria?
— Pânico.
Alguns minutos depois, a ordem oficial foi emitida.
O Almirante Vasconcelos deixaria a base por razões de segurança.
Tomás Ribeiro seria transferido para uma instalação militar protegida.
Matheus Gomes seguiria para um hospital sob escolta.
E eu permaneceria na Ilha do Governador coordenando a investigação.
Tudo registrado.
Tudo visível nos sistemas.
Tudo falso.
Na realidade, Matheus e os outros cinco militares retirados da câmara foram conduzidos por uma rota de manutenção até uma ala médica desativada cuja localização não constava nos registros atuais.
Tomás permaneceu comigo.
Vasconcelos também.
Quanto a mim...
Eu faria exatamente o que Brandão provavelmente queria.
Pareceria exposta.
— Isso é loucura — disse Vasconcelos quando ficamos sozinhos.
— Não.
Peguei a lista dos onze nomes.
— Loucura seria continuar reagindo às decisões dele.
Apontei para os dez nomes riscados.
— Brandão teve sete anos para se preparar.
— E nós temos menos de dezoito horas.
— Por isso precisamos fazê-lo acelerar.
Tomás entendeu.
— Quando alguém acelera, comete erros.
— Exatamente.
Meu telefone vibrou.
Número desconhecido.
Atendi imediatamente.
— Mariana.
Era Rafael.
Vivo.
Sua respiração estava pesada.
— Onde você está?
— Em movimento.
— Ferido?
— Nada que vá me impedir de reclamar depois.
Fechei os olhos por um instante.
— Brandão pegou você?
— Quase.
— E Bruno?
Silêncio.
— Está morto.
Eu já esperava.
Mesmo assim, ouvir aquilo transformou a suspeita em fato.
— Ferraz?
— Fugiu antes do tiro.
— Você conseguiu segui-lo?
— Melhor.
Ouvi ruído de motor.
— Coloquei um rastreador no carro dele antes de me descobrirem.
Tomás se aproximou.
— Onde está?
Rafael respondeu:
— Indo para Niterói.
Vasconcelos franziu a testa.
— Por quê?
— Ainda não sei.
Peguei um mapa e abri sobre a mesa.
— Envie as coordenadas apenas para este aparelho.
— Já mandei.
Um ponto apareceu.
Movia-se pela Ponte Rio-Niterói.
— Não chegue perto — ordenei.
— Nem pretendia.
— Rafael.
— Sim?
— Se perceber Brandão, não tente ser herói.
Ele riu baixinho.
— Você me ensinou isso há quinze anos.
A ligação terminou.
Tomás estudou o mapa.
— O que há em Niterói?
Vasconcelos respondeu antes de mim.
— Instalações antigas.
Armazéns.
Áreas logísticas.
Prédios militares desativados.
Meu olhar permaneceu no ponto em movimento.
— E lugares onde alguém pode guardar coisas sem despertar atenção.
Pouco depois das quinze horas, recebemos o primeiro resultado sobre os dez nomes riscados.
Não era coincidência.
Todos tinham trabalhado, direta ou indiretamente, em uma mesma cadeia de auditorias, inteligência ou logística nos últimos oito anos.
Todos haviam acessado dados relacionados a transferências de armamento.
Todos haviam feito perguntas.
E todos estavam mortos.
Acidentes.
Doenças repentinas.
Suicídios.
Um assalto.
Um desaparecimento no mar.
Dez histórias diferentes.
Uma única linha comum.
— Isso é uma rede — disse Tomás.
— É mais do que isso.
Coloquei as fichas sobre a mesa.
— Redes criminosas roubam para ganhar dinheiro.
— E eles?
— Estão controlando informações, carreiras, investigações e operações.
Vasconcelos ficou em silêncio.
Depois perguntou:
— Para quê?
Eu também queria essa resposta.
Às 16h17, ela começou a aparecer.
O técnico de perícia conseguiu recuperar fragmentos de uma planilha apagada do computador de Bruno.
Havia códigos de carga.
Datas.
Portos.
Unidades militares.
E uma coluna chamada apenas de “Destino B”.
Tomás verificou um dos números.
— Este lote aparece como destruído há quatro anos.
Outro.
— Este também.
Vasconcelos apontou para uma terceira linha.
— Munição apreendida e posteriormente inutilizada.
Balancei a cabeça.
— Não foi inutilizada.
— Foi desviada.
— Durante anos.
O técnico rolou a planilha.
Os números finais eram enormes.
Equipamentos.
Armas.
Sistemas de comunicação.
Componentes que jamais deveriam sair do controle militar.
Bruno não comandava aquilo.
Ele era apenas uma peça.
Eduardo Ferraz cuidava das credenciais.
Outros provavelmente manipulavam inventários.
E Brandão coordenava a estrutura por trás deles.
Mas ainda faltava entender uma coisa.
Por que eu?
Sete anos antes, eu poderia ter sido eliminada junto com meus homens.
Não fui.
Por quê?
O ponto de Rafael parou.
Olhei para o mapa.
— Ferraz chegou.
A localização correspondia a um antigo complexo de armazenagem próximo à Baía de Guanabara.
— Imagens?
Tomás abriu uma base cartográfica.
Três galpões.
Um prédio administrativo.
Um cais.
Vasconcelos apontou para o local.
— Era usado para material naval até doze anos atrás.
— Atualmente?
— Oficialmente abandonado.
— Então provavelmente está cheio.
Meu telefone tocou.
Rafael.
— Tenho visão do local.
— Quantas pessoas?
— Pelo menos oito.
— Ferraz?
— Entrou no galpão principal.
— Brandão?
— Ainda não vi.
Uma pausa.
— Mas chegou um veículo há três minutos.
— Quem saiu?
Rafael ficou em silêncio.
— Isso vai parecer estranho.
— Diga.
— Uma mulher.
— Descrição.
— Uns sessenta anos. Cabelo grisalho. Roupa civil. Dois seguranças.
Vasconcelos me olhou.
— Isso significa algo para você?
Não.
Até Rafael acrescentar:
— Mariana, ela está usando uma bengala de madeira escura com uma faixa metálica perto do punho.
Minha mão parou sobre a mesa.
Tomás percebeu imediatamente.
— Você conhece?
Demorei para responder.
— Conheci.
Vasconcelos se aproximou.
— Quem?
Eu me lembrava daquela bengala.
Lembrava-me porque a vira centenas de vezes durante minha formação.
— Vice-Almirante Helena Monteiro.
O rosto de Vasconcelos mudou.
— Helena Monteiro morreu.
Outra pessoa morta.
Outra pessoa viva.
— Quando? — perguntei.
— Há quatro anos. Câncer.
Rafael ouviu.
— Se morreu, está caminhando muito bem para uma morta.
Meu estômago se contraiu.
Helena não tinha sido apenas uma oficial de alta patente.
Ela havia sido uma das pessoas que aprovaram minha entrada nas operações especiais.
Uma mentora.
Alguém em quem eu confiara.
E, sete anos antes, fora uma das poucas pessoas que conheciam todos os detalhes da missão de Brandão.
— Rafael, recue.
— Mariana...
— Agora.
Dessa vez, ele não discutiu.
Desliguei.
Tomás olhava para mim.
— Se ela está envolvida...
— Então nossa lista de quatro pessoas com acesso àquela operação estava errada.
— Quantas eram realmente?
Olhei para Vasconcelos.
— Pelo menos cinco.
Ele respirou fundo.
— Você, Brandão, Helena...
— E duas outras pessoas.
— Quem?
Antes que eu respondesse, o técnico levantou a cabeça.
— Capitã, recebemos uma mensagem no sistema local.
— Achei que tivesse desligado tudo.
— Desligamos.
Ele parecia genuinamente assustado.
— Ela apareceu em uma impressora que nem sequer está conectada.
Do corredor veio o som mecânico de folhas sendo expelidas.
Tomás puxou a arma.
Vasconcelos fez o mesmo.
Fui até a impressora.
Uma única página estava na bandeja.
No centro havia uma fotografia.
Eu.
Aos trinta anos.
Uniforme coberto de poeira.
Sete anos antes.
Ao lado de três homens que morreriam naquela mesma semana.
Abaixo da imagem havia uma frase impressa:
**“Você ainda acredita que eles morreram por causa de um vazamento.”**
Virei a página.
No verso havia apenas um horário.
**23h30.**
E coordenadas.
Vasconcelos consultou o mapa.
— Complexo de Niterói.
Era uma convocação.
— Ele quer você lá.
— Sim.
— Então não vai.
Olhei para a fotografia.
Algo nela me incomodava.
Não a mensagem.
A foto.
Eu conhecia aquela imagem.
Ela fora tirada depois de uma reunião operacional.
Mas havia algo diferente.
Aproximei-a da luz.
No canto esquerdo, quase cortado da fotografia, aparecia o reflexo de um homem em uma janela.
Ampliei a imagem com o telefone.
Meu peito apertou.
— Não pode ser.
Tomás se aproximou.
— Quem é?
Entreguei-lhe a foto.
— Um dos homens que morreu na emboscada.
— Qual deles?
— Capitão Leandro Farias.
Vasconcelos olhou novamente.
— O que há de estranho?
— Esta fotografia foi registrada três dias depois da data oficial da morte dele.
Silêncio.
Tomás me encarou.
— Está dizendo que ele sobreviveu?
— Estou dizendo que alguém mentiu para mim desde o início.
O telefone seguro tocou.
Não o do gabinete de Bruno.
O meu.
Uma linha cuja existência apenas quatro pessoas conheciam.
Atendi.
Desta vez, não era Brandão.
Era uma voz que eu não ouvia havia sete anos.
Mais rouca.
Mais velha.
Mas impossível de esquecer.
— Mariana.
Minha mão apertou o aparelho.
Tomás percebeu minha expressão.
— Quem é?
A voz continuou:
— Não vá ao galpão às 23h30.
Eu mal consegui dizer o nome.
— Leandro?
Do outro lado houve uma respiração trêmula.
— Se você entrar naquele lugar, vai descobrir por que nós três tivemos que morrer no papel.
Meu coração bateu uma vez, violentamente.
— Onde você está?
— Não posso dizer.
— Caio e Paulo também estão vivos?
Silêncio.
Longo demais.
— Leandro.
Quando ele respondeu, sua voz havia mudado.
— Um deles está.
Fechei os olhos.
— E o outro?
— O outro é a razão pela qual Brandão deixou você viva.
A ligação caiu.
Fiquei imóvel com o aparelho junto ao ouvido.
Sete anos acreditando que três homens haviam morrido sob meu comando.
Agora eu sabia que pelo menos um sobrevivera.
Talvez dois.
E, pela primeira vez, compreendi que a maior mentira daquela operação não era sobre quem nos havia traído.
Era sobre quem realmente tinha morrido.
**Continua — clique na Parte 7 para continuar lendo.**







No comments yet