Durante alguns segundos, ninguém naquela sala disse uma palavra.
Eu ainda segurava o telefone junto ao ouvido, embora a ligação já tivesse terminado.
Leandro estava vivo.
Um dos outros dois também.
E o terceiro era, segundo ele, a razão pela qual Brandão me deixara sobreviver sete anos antes.
Tomás foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Mariana, o que exatamente ele disse?
Baixei lentamente o aparelho.
— Que eu não devo ir ao galpão às 23h30.
— Então não vamos — respondeu Vasconcelos.
Olhei para o relógio.
Ainda tínhamos algumas horas.
— Vamos.
O almirante endureceu o rosto.
— Você acabou de receber um aviso de alguém que passou sete anos fingindo estar morto.
— Exatamente.
Coloquei a fotografia sobre a mesa.
— E ele sabia que eu receberia estas coordenadas.
Tomás compreendeu.
— Então Leandro também está acompanhando Brandão.
— Ou está perto dele.
— Você confia nele?
A pergunta doeu mais do que deveria.
Sete anos antes, eu teria respondido sem hesitar.
Com minha vida.
Agora...
— Confio no homem que conheci.
— Isso não respondeu.
— Foi a única resposta honesta que pude dar.
Peguei o mapa do complexo.
— Não vamos entrar às 23h30.
Vasconcelos franziu a testa.
— Você acabou de dizer que iríamos.
— Eu disse que vamos ao galpão.
Apontei para uma estrada secundária que terminava atrás do complexo.
— Só não no horário que eles escolheram.
Às 20h40, deixamos a base por uma rota de manutenção.
Nenhuma ordem digital.
Nenhum comboio.
Nenhum registro.
Vasconcelos permaneceu em um posto de comando improvisado do outro lado da Baía, acompanhado apenas por dois oficiais em quem confiava pessoalmente.
Tomás veio comigo.
Rafael nos encontrou em Niterói.
Estava com um corte na testa e a camisa rasgada.
— Você parece péssimo — eu disse.
— Você também levou um tapa na frente de mil pessoas.
— Mil e quarenta.
Ele sorriu.
— Continua insuportável.
Por alguns segundos, foi quase como antigamente.
Depois ele colocou sobre o capô do carro uma fotografia recente do galpão.
— Movimento diminuiu há uma hora.
Apontou para uma entrada lateral.
— Ferraz continua lá dentro. Helena também.
— Brandão?
— Não apareceu de novo.
— E Bruno?
O sorriso desapareceu.
— O corpo foi retirado.
— Por quem?
— Dois homens num veículo sem placa.
Aquilo confirmava algo importante.
Brandão não estava apenas fugindo.
Estava limpando a própria estrutura.
Entramos no terreno por uma antiga passagem de drenagem indicada em plantas desatualizadas que Rafael conseguira localizar.
Nenhum de nós usava rádio ligado à rede militar.
Apenas comunicação local de curto alcance.
Quando nos aproximamos do galpão principal, ouvi vozes.
Ferraz.
E uma mulher.
Helena.
Aproximei-me de uma abertura entre duas placas metálicas.
— ...você prometeu que ninguém morreria — dizia Ferraz.
Helena respondeu com frieza:
— Eu não prometi nada a você.
— Bruno está morto.
— Bruno escolheu o lado dele há muito tempo.
— E Brandão?
Silêncio.
Ferraz diminuiu a voz.
— Ele vai matar todos nós.
Helena respondeu:
— Se ainda estivermos aqui quando chegar, sim.
Olhei para Tomás.
Aquilo não parecia a conversa de dois aliados seguros.
Então ouvimos outro som.
Um clique metálico.
Arma sendo engatilhada.
Ferraz falou:
— Não se aproxime.
Helena não pareceu assustada.
— Se fosse capaz de atirar em mim, Eduardo, já teria feito.
— Você me usou.
— Brandão usou você.
— E você fez o quê?
A resposta dela veio depois de uma pausa.
— Tentei impedir que ele chegasse até Mariana.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Tomás me olhou.
Helena continuou:
— Sete anos atrás, eu cheguei tarde demais.
Ferraz riu nervosamente.
— E por isso fingiu a própria morte?
— Fingi minha morte porque cada pessoa que tentou reabrir aquela investigação começou a morrer.
Os dez nomes riscados.
Eu senti as peças começarem a se mover.
Helena não estava naquela fotografia porque comandava a rede.
Talvez estivesse ali porque a caçava.
De repente, uma mão tocou meu ombro por trás.
Girei instantaneamente.
Prendi o pulso.
Empurrei o corpo contra a parede.
E congelei.
Leandro Farias.
Mais velho.
Mais magro.
Uma cicatriz atravessava a linha do maxilar.
Mas era ele.
Vivo.
Os olhos dele encontraram os meus.
— Ainda entra no alcance do golpe — murmurou.
Soltei-o.
Por sete anos eu imaginara aquele homem morto.
Imaginei o caixão vazio que nunca pudemos abrir.
Escrevi cartas à mãe dele.
Carreguei a culpa.
Agora ele estava diante de mim.
Minha primeira vontade foi abraçá-lo.
A segunda foi acertá-lo.
Não fiz nenhuma das duas.
— Sete anos.
Ele baixou os olhos.
— Eu sei.
— Você estava vivo.
— Sim.
— E nunca me procurou.
— Se eu tivesse procurado, você teria morrido.
Minha voz saiu quase sem som.
— Explique.
Leandro olhou para Rafael e Tomás.
— Temos pouco tempo.
— Então fale rápido.
Ele respirou fundo.
— Naquela missão, Brandão sabia que tínhamos encontrado os registros de desvio.
— Isso eu já sabia.
— Não tudo.
Leandro se aproximou.
— Os documentos provavam que a rede não vendia apenas armas. Ela também vendia acesso.
— Acesso a quê?
— Operações. Rotas. Identidades. Credenciais.
Pensei nas assinaturas falsas.
— E Paulo?
A expressão dele mudou.
— Paulo morreu naquela noite.
Fechei os olhos.
Ainda havia uma parte de mim que esperara outra resposta.
— Então Caio está vivo.
Leandro assentiu.
— Onde?
— Com Brandão.
Tomás perguntou:
— Como prisioneiro?
Leandro olhou diretamente para mim.
— Não.
Meu peito apertou.
— Não faça isso.
— Mariana...
— Diga.
— Caio trabalha para ele.
As palavras me atingiram com mais força do que o tapa de Bruno.
— Mentira.
— Eu vi.
— Você pode estar enganado.
— Não estou.
Sete anos antes, Caio Nascimento era um dos homens em quem eu mais confiava.
Foi ele quem me arrastou para trás de uma parede quando a primeira explosão atingiu nosso ponto de observação.
Foi ele quem segurou Paulo enquanto eu tentava conter a hemorragia.
— Por quê?
Leandro respirou fundo.
— Porque Caio foi o vazamento.
Nenhum som saiu da minha boca.
Leandro continuou:
— Brandão o recrutou meses antes da operação.
— Então por que Brandão me deixou viva?
Leandro hesitou.
Aquela hesitação me irritou.
— Você me trouxe até aqui. Termine.
— Paulo descobriu.
Meu coração bateu mais forte.
— Descobriu o quê?
— Que Caio estava passando nossas posições.
Leandro baixou a voz.
— Na noite da emboscada, Paulo confrontou Caio antes de você chegar ao ponto de extração.
Uma memória atravessou minha mente.
Paulo desaparecido por quase vinte minutos.
Caio dizendo que ele tinha ido verificar o perímetro.
Depois os tiros.
— Continue.
— Paulo conseguiu copiar parte das comunicações de Caio para um dispositivo.
— Onde está?
Leandro olhou para mim.
— Com você.
Franzi a testa.
— Isso é impossível.
— Não é.
Ele apontou para minhas condecorações.
— Paulo sabia que talvez não saísse vivo. Antes da missão, entregou a você um pequeno distintivo de metal.
Lembrei.
Uma pequena insígnia antiga.
Paulo me dera antes do embarque.
“Para dar sorte, Capitã.”
Eu ainda a guardava.
— Era um dispositivo?
— Um compartimento.
Meu estômago virou.
— Brandão sabia?
— Descobriu depois da emboscada que Paulo havia escondido a prova, mas não sabia onde.
Tudo ficou claro.
— Por isso me deixou viva.
Leandro assentiu.
— Ele precisava descobrir se Paulo havia lhe contado alguma coisa.
— Durante sete anos?
— Durante sete anos ele acompanhou você.
Fotografias.
Movimentos.
A lista.
Meu nome não riscado.
Eu não era apenas um alvo.
Eu era uma chave.
Um barulho vindo de dentro do galpão interrompeu a conversa.
Ferraz gritou:
— Você mentiu para mim!
Um disparo.
Depois outro.
Corremos.
Entramos pela porta lateral.
Ferraz estava no chão segurando o ombro.
Helena permanecia atrás de uma coluna, arma em punho.
Quando me viu, seus olhos se arregalaram.
— Mariana.
Antes que eu respondesse, todas as luzes do galpão se apagaram.
Escuridão.
Então os alto-falantes antigos do complexo ganharam vida.
A voz de César Brandão ecoou por toda parte.
— Finalmente todos reunidos.
Tomás levantou a arma.
Rafael cobriu a entrada.
Leandro olhou para o teto.
Eu permaneci imóvel.
Brandão continuou:
— Helena.
— Leandro.
— Mariana.
Uma risada curta.
— Só falta uma pessoa.
As luzes de emergência vermelhas acenderam.
No andar superior, uma porta se abriu.
Um homem apareceu sobre a passarela metálica.
Mais velho.
Cabelo grisalho.
Uma cicatriz atravessando a sobrancelha.
Mas eu o reconheci imediatamente.
Caio Nascimento.
Vivo.
Ele segurava uma arma.
E apontava diretamente para mim.
— Desculpe, Capitã — disse ele.
— Mas Brandão passou sete anos esperando você trazer a prova até nós.
Meu sangue gelou.
Porque, naquele instante, compreendi uma coisa.
A insígnia de Paulo não estava guardada em algum cofre distante.
Eu a carregava comigo.
Dentro do forro do meu próprio uniforme.
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