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Meu Marido Bombeiro Salvou Primeiro A Amante — Três Dias Depois, Recebeu Minha Certidão De Óbito E Descobriu A Verdade Que Meu Pai Escondeu Por 28 Anos

Mariana ficou olhando para o relógio no pulso do homem refletido no cofre até a imagem começar a perder nitidez diante de seus olhos. Conhecia cada detalhe daquela peça: a pulseira de couro marrom, o mostrador escuro e, principalmente, o pequeno risco junto ao número quatro, feito quando Rafael deixara o relógio cair durante uma viagem a Ouro Preto. Não havia dúvida de que o relógio era dele. A dúvida era pior: aquilo significava que Rafael estava com Camila naquele momento ou apenas que alguém estava usando algo que lhe pertencia?

— Quando essa foto foi tirada? — perguntou Mariana.

Lucas verificou os dados da mensagem.

— Há vinte e três minutos.

Mariana virou o rosto imediatamente para a divisória de vidro.

Rafael estava ali.

Ainda no hospital.

— Então não pode ser ele.

— Ou a foto não foi tirada quando foi enviada — respondeu Lucas.

A frase devolveu o silêncio ao quarto.


Henrique aproximou-se da porta quando ouviu Rafael elevar a voz no corredor.

— Eu sou o noivo dela! Tenho direito de saber onde está o corpo!

Noivo.

A palavra provocou em Mariana uma sensação estranha. Naquela manhã, ela teria dado tudo para ouvi-lo chamá-la assim. Agora parecia pertencer à vida de outra mulher.

— Precisamos decidir rápido — disse Henrique. — Posso manter seu prontuário restrito por enquanto, alegando investigação sobre o erro de identificação, mas não por muito tempo.

Mariana respirou devagar, suportando a ardência nos pulmões.

— Não conte a ele.

Lucas a observou.

— Tem certeza?

Ela pensou em Rafael desviando as botas de sua porta. Pensou em Camila envolvida pela jaqueta dele. Pensou nas centenas de pequenas ocasiões em que aceitara ser colocada em segundo lugar porque sempre encontrava uma justificativa para o homem que amava.


— Quero saber quem tentou me matar antes que essa pessoa descubra que falhou.

Henrique saiu para lidar com Rafael. Pouco depois, a discussão no corredor diminuiu. Mariana ouviu apenas fragmentos: transferência do corpo, perícia, identificação pendente. Finalmente, passos pesados se afastaram.

Lucas abriu novamente a fotografia.

— Tem mais uma coisa.

Ele ampliou a região do cofre. Mariana viu números gravados discretamente na lateral.

— Conhece?

Ela demorou alguns segundos.

— Esse cofre fica na casa do meu pai.

Lucas ergueu os olhos.

A casa estava fechada desde a morte de Augusto Ferreira, onze meses antes. Mariana ainda pagava alguém para cuidar do jardim, mas quase nunca entrava ali. As lembranças eram fortes demais.


— Camila sabia da casa?

— Rafael sabia.

A resposta escapou antes que Mariana pudesse controlar a amargura.

Lucas guardou o celular.

— Então vou até lá.

— Não sozinho.

— Você mal consegue ficar sentada.

— Eu não disse que vou com você.

Mariana pegou o telefone disponibilizado pelo hospital e digitou um número que sabia de memória.

Beatriz Ferreira atendeu no terceiro toque.


— Alô?

Ouvir a voz da irmã mais velha quase fez Mariana chorar. Porém, se Beatriz acreditava que ela estava morta, não demonstrou choque algum porque ainda não havia sido avisada oficialmente. Mariana desligou antes de falar.

— Ainda não — murmurou.

Havia outra pessoa.

— Ligue para doutora Helena Prado.

Lucas franziu a testa.

— Quem é?

— Advogada do meu pai.

Duas horas depois, Helena entrou no quarto usando um sobretudo bege e carregando uma pasta contra o peito. Tinha sessenta anos, postura rígida e uma expressão que mudou completamente quando viu Mariana viva.

— Meu Deus.


Ela aproximou-se da cama, mas não a abraçou por causa das queimaduras.

— Disseram que você tinha morrido.

— Algumas pessoas parecem ter contado com isso.

Mariana explicou sobre o envelope.

Helena empalideceu.

— Augusto me fez prometer que aqueles documentos só seriam entregues a você quando estivesse prestes a se casar.

— Por quê?

A advogada fechou a porta.

— Porque a herança não é simplesmente uma propriedade.

Ela abriu sua pasta e retirou uma cópia da escritura.


A fazenda histórica onde ocorrera o casamento aparecia no documento.

Mariana sentiu o estômago afundar.

— A fazenda?

— Pertencia ao seu avô. Foi vendida há vinte e oito anos através de uma empresa intermediária. Seu pai passou anos tentando provar que a venda foi fraudulenta. Três semanas antes de morrer, conseguiu.

Mariana encarou Helena.

— Por que nunca me contou?

— Porque Augusto descobriu algo que o assustou. Uma das assinaturas usadas na fraude pertencia a alguém ligado à família Almeida.

Rafael.

Ou alguém da família dele.

— O envelope que Camila roubou contém essa prova?


— Não exatamente.

Helena fez uma pausa.

— Seu pai desconfiava que alguém poderia tentar pegar os documentos. Por isso colocou cópias incompletas naquele envelope.

A mensagem voltou à mente de Mariana.

Ela pegou a coisa errada.

— Onde estão os verdadeiros?

Helena olhou diretamente para ela.

— Eu não sei. Seu pai escreveu que você descobriria quando entendesse por que ele nunca confiou em Rafael.

Antes que Mariana pudesse perguntar mais, Lucas recebeu uma ligação. Afastou-se para atender e voltou poucos segundos depois.

— A polícia entrou na casa do seu pai.


— Camila?

— Não estava mais lá. O cofre estava aberto e vazio.

— E Rafael?

Lucas hesitou.

— As câmeras da rua registraram o carro dele estacionado diante da casa ontem à noite.

Mariana sentiu uma pressão dolorosa no peito.

Ontem.

Enquanto ela lutava para sobreviver, Rafael estivera na casa de seu pai.

— Tem imagem dele entrando?

— Ainda estão verificando.


Helena começou a recolher os documentos, claramente perturbada.

Foi então que Mariana percebeu algo estranho.

— Helena.

A advogada parou.

— Como você sabia que o envelope tinha cópias incompletas?

Helena ficou imóvel.

— Seu pai me contou.

— Você acabou de dizer que não sabe onde estão os documentos verdadeiros.

— E não sei.

— Mas sabe exatamente o que estava no envelope que ficou comigo.


Helena apertou a pasta contra o corpo.

Lucas percebeu a mudança no tom e se aproximou.

— Doutora Helena, quem mais sabia que Mariana receberia aquele envelope?

A advogada não respondeu.

Mariana sentiu o medo transformar-se lentamente em desconfiança.

— Quem, Helena?

Finalmente, ela falou:

— Rafael.

O quarto pareceu diminuir.

— Você contou a ele?

— Não. Augusto contou.

Mariana balançou a cabeça.

— Meu pai não confiava nele. Você mesma acabou de dizer.

Helena fechou os olhos por um instante.

— Porque Rafael procurou seu pai seis meses antes da morte dele. Eles tiveram uma discussão terrível.

— Sobre quê?

Helena abriu a boca, mas um som vindo do corredor a interrompeu.

Passos rápidos.

Henrique entrou sem bater.

— Mariana, temos um problema.

Ele fechou a porta atrás de si.

— Rafael acabou de voltar.

— Então mande-o embora.

— Não veio sozinho.

Henrique olhou para Lucas.

— Ele trouxe a polícia. Disse que encontrou provas de que o incêndio foi provocado.

Mariana ficou imóvel.

— Provas contra quem?

Henrique demorou um segundo a mais do que deveria para responder.

— Contra você.

Lucas soltou uma exclamação de incredulidade, mas Henrique continuou:

— Rafael entregou mensagens que supostamente foram enviadas do seu celular para o gerente da fazenda dois dias antes do casamento. Nelas, você pergunta quanto tempo levaria para o fogo alcançar o salão principal.

Mariana sentiu o rosto perder a cor.

— Eu nunca mandei isso.

— Tem mais — disse Henrique. — A polícia encontrou no seu antigo apartamento uma embalagem do mesmo acelerante usado perto do camarim.

Helena recuou um passo.

Mariana percebeu.

— Você acredita nisso?

— Eu não disse isso.

Mas o medo nos olhos da advogada dizia o suficiente.

Então Lucas recebeu outra mensagem do número desconhecido.

Desta vez não havia fotografia.

Apenas um arquivo de áudio.

Ele colocou para tocar.

Primeiro veio um ruído abafado. Depois, a voz de Rafael surgiu perfeitamente reconhecível:

— Quando Mariana morrer, ninguém pode encontrar o segundo testamento.

Outra voz masculina respondeu:

— E Camila?

Rafael permaneceu alguns segundos em silêncio.

Então disse:

— Camila ainda não sabe que ela também está sendo usada.

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