Mariana percebeu a ausência de Helena antes mesmo que Lucas terminasse de falar. A cadeira onde a advogada estivera estava vazia, a pasta bege desaparecera e a porta lateral da capela permanecia entreaberta. Do lado de fora, policiais atravessavam o terreno iluminando as árvores, mas ninguém sabia dizer quando Helena havia saído.
— Ela estava aqui há cinco minutos — disse Henrique, enquanto um policial o mantinha afastado.
— Não — Mariana respondeu. — Ela saiu quando todos estavam olhando para Vicente.
Lucas avisou imediatamente a equipe. Outro agente tentou ligar para Helena. O telefone estava desligado.
Rafael aproximou-se de Mariana, mas parou a uma distância respeitosa.
— Beatriz não faria isso.
Mariana lançou-lhe um olhar duro.
— Você conhece minha irmã o suficiente para afirmar alguma coisa sobre ela?
Rafael absorveu a acusação sem responder.
Lucas voltou ao vídeo.
— Precisamos entender exatamente o que ela carregava.
A gravação mostrava Beatriz entrando no depósito com um recipiente semelhante ao acelerante encontrado depois no apartamento de Mariana. Porém, ao ampliar a imagem, surgiu um detalhe: o lacre permanecia intacto quando Beatriz saía.
— Ela pode não ter usado — disse Lucas.
— Então por que estava com aquilo?
Ninguém respondeu.
Mariana pegou um telefone.
Dessa vez ligou para Beatriz.
A irmã atendeu imediatamente.
— Alô?
— Onde você está?
Silêncio.
— Mariana?
A voz de Beatriz se quebrou.
Mariana fechou os olhos.
— Você sabia.
Do outro lado vieram soluços.
— Disseram que você tinha morrido.
— E você não apareceu no hospital.
— Helena disse que não havia corpo para reconhecer. Depois me pediu para esperar.
Mariana sentiu a raiva crescer.
— Onde você está?
— Em casa.
— Não saia daí.
— Mariana, eu preciso explicar...
— A polícia está indo.
Beatriz começou a chorar.
— Eu não provoquei o incêndio.
Mariana ficou imóvel.
Ela não havia mencionado o incêndio.
— Então sabe por que estou ligando.
— Eu estava na fazenda naquele dia.
— Com acelerante.
— Não era meu.
— De quem era?
Uma pausa longa.
— Do papai.
Mariana quase riu de incredulidade.
— Nosso pai estava morto havia onze meses.
— Foi por isso que fui buscar.
Beatriz explicou entre lágrimas que, semanas antes de morrer, Augusto lhe entregara uma chave e instruções: se Mariana insistisse em se casar com Rafael, Beatriz deveria retirar uma caixa vermelha escondida no depósito antes da cerimônia e entregá-la a Helena.
— Por que não me contou?
— Porque papai me fez jurar.
A resposta era familiar demais. Todos pareciam ter feito promessas a Augusto que exigiam esconder a verdade justamente da filha que ele dizia proteger.
— E o recipiente?
— Estava dentro da caixa.
Mariana olhou para Lucas.
— O que mais?
— Cartas, fotografias e uma garrafa metálica. Eu nem sabia o que continha até Helena abrir.
— Você entregou tudo a ela?
— Sim.
— Então por que a câmera mostra você saindo com o recipiente?
— Porque Helena me encontrou no estacionamento. Abriu a caixa dentro do carro e me mandou devolver a garrafa ao depósito. Disse que era perigosa.
Mariana sentiu o frio subir pela nuca.
— E você devolveu?
— Sim. Coloquei numa prateleira e fui embora.
— Ligou para Helena quatro minutos depois.
— Para avisar onde tinha deixado.
Lucas já fazia sinais para os policiais.
— Beatriz, fique em casa. Não abra a porta para ninguém além da polícia.
Mas a irmã não respondeu.
— Beatriz?
Um ruído.
Depois um sussurro:
— Mariana... tem alguém aqui.
A ligação caiu.
Mariana levantou-se tão rápido que a dor quase a derrubou.
— Vamos.
— Você volta ao hospital — Henrique disse.
— Minha irmã pode estar em perigo.
Rafael deu um passo.
— Eu vou.
— Você não vai sozinho — disse Lucas.
Vinte minutos depois, a polícia cercava a casa de Beatriz, num bairro residencial de Belo Horizonte. A porta da frente estava aberta.
Encontraram Beatriz na cozinha.
Viva.
Tremendo, mas sem ferimentos.
— Ela esteve aqui — disse assim que viu Mariana.
— Helena?
Beatriz assentiu.
— Queria a chave que papai me deu.
— Que chave?
Beatriz retirou uma corrente debaixo da blusa. Nela havia uma pequena chave de bronze.
— Da caixa verdadeira.
Mariana ficou sem palavras.
— Outra caixa?
— Papai dizia que documentos podiam ser falsificados. Então guardou a única prova que não podia ser contestada.
— Onde?
— No antigo escritório dele.
A polícia acompanhou as irmãs até a casa de Augusto. Atrás de uma estante, encontraram um compartimento com fechadura de bronze.
Beatriz abriu.
Dentro havia um gravador digital e uma carta endereçada às duas filhas.
Mariana apertou o botão.
A voz do pai encheu o cômodo.
“Se vocês estão ouvindo isso, provavelmente falhei em resolver tudo sozinho.”
Mariana sentiu os olhos arderem.
“Vicente roubou dinheiro da sociedade, mas não agiu sozinho. Eduardo descobriu. Eu também. E cometemos o erro de confiar na pessoa responsável pelos contratos.”
Mariana olhou para Beatriz.
A gravação continuou:
“Helena Prado.”
Beatriz levou a mão à boca.
“Helena alterou documentos da propriedade e criou empresas falsas. Vicente ficou com o dinheiro. Ela ficou com parte das terras. Quando Eduardo ameaçou denunciá-los, Vicente tentou assustá-lo. Mas Helena foi além.”
O áudio chiou.
Então Augusto pronunciou a frase que silenciou todos:
“Eduardo não morreu em um acidente.”
Mariana sentiu Rafael se aproximar atrás dela.
“Tenho uma gravação de Helena confessando que adulterou o carro dele. Se algo acontecer comigo, entreguem isso à polícia.”
O arquivo seguinte continha a voz mais jovem de Helena.
Era suficiente.
Ela descrevia o que fizera.
Vicente sabia da fraude, mas aparentemente não sabia que Helena havia sabotado o veículo.
Lucas chamou imediatamente a equipe responsável pela busca.
Mariana, porém, pensava no incêndio.
— Helena sabia onde Beatriz deixou o acelerante.
Todos ficaram em silêncio.
— Ela também sabia do envelope — continuou Mariana. — Sabia da cláusula do testamento. Sabia que eu estaria presa no camarim se Camila seguisse as ordens de Vicente.
Rafael compreendeu.
— Ela usou o plano do meu pai para esconder o próprio crime.
Lucas assentiu lentamente.
— Se Mariana morresse e Vicente fosse ligado ao incêndio, toda a investigação terminaria nele.
Beatriz começou a chorar.
— Eu levei aquilo até lá.
Mariana segurou a mão da irmã.
— Você não acendeu o fogo.
Então o telefone de Lucas tocou.
Uma viatura havia encontrado o carro de Helena abandonado perto da rodoviária.
Dentro, estava a pasta bege.
Mas Helena não.
Havia apenas um bilhete destinado a Mariana:
“Seu pai cometeu um último erro. A gravação que vocês encontraram não é a única cópia.”
No verso havia um endereço.
Rafael reconheceu primeiro.
— É o antigo apartamento de Teresa.
Lucas recebeu outra chamada quase imediatamente.
Seu rosto mudou.
— Encontraram Helena.
Mariana sentiu o coração disparar.
— Onde?
Lucas desligou lentamente.
— No apartamento de Teresa.
— Prenderam ela?
— Não.
Ele olhou para Rafael.
— Helena está mantendo alguém lá dentro e exige falar com Mariana.
— Quem?
Lucas demorou alguns segundos.
— Camila.
Rafael empalideceu.
Mas Lucas ainda não havia terminado.
— Helena disse que, se Mariana quer saber quem realmente colocou a barra na porta do camarim, deve ir pessoalmente.
Mariana franziu a testa.
— Camila confessou que fez isso.
— Eu sei.
Lucas mostrou a última mensagem enviada por Helena.
Era uma fotografia tirada poucos minutos antes do incêndio.
Camila aparecia no corredor, afastando-se do camarim.
A porta de Mariana ainda estava aberta.
Atrás dela, quase escondida pela fumaça inicial, uma segunda pessoa segurava a barra metálica.
A fotografia capturara apenas metade do rosto.
Mas era suficiente.
Mariana reconheceu a pessoa imediatamente.
Beatriz também.
— Não pode ser...
Mariana ampliou a imagem.
O homem que realmente trancara a porta usava uniforme do Corpo de Bombeiros.
Era Lucas.







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