Mariana leu o nome até as letras parecerem se separar umas das outras. Eduardo Nogueira. Se aquela certidão fosse verdadeira, Rafael não era filho biológico de Vicente Almeida. Era filho do homem que descobrira os desvios na fazenda e morrera antes de denunciá-los. Mais do que isso: Teresa, a mulher que morrera no incêndio carregando os documentos de Mariana, era irmã de Rafael.
A ligação de Lucas permanecia muda.
— Lucas?
Nada.
Mariana tentou novamente. O telefone estava desligado.
Ela chamou Henrique, mas foi Helena quem entrou primeiro. Mariana mostrou a fotografia.
A advogada precisou se sentar.
— Eu sabia que existia uma criança — murmurou.
— Que criança?
— Eduardo teve um filho fora do casamento pouco antes de morrer. Augusto descobriu anos depois, mas nunca soube onde ele estava.
Mariana apontou para a tela.
— Estava na casa dos Almeida.
Helena ficou pálida.
— Então Vicente sabia.
Uma nova pergunta surgiu imediatamente.
— E Rafael?
— Provavelmente não.
Mariana lembrou-se da obsessão de Rafael pelos documentos da fazenda, da discussão com Augusto, da ida à casa de seu pai depois do incêndio. Talvez ele estivesse procurando respostas sobre si mesmo.
Ou talvez já soubesse tudo.
— Preciso sair daqui.
Henrique apareceu na porta.
— Não.
— Lucas pode estar em perigo.
— Você mal consegue respirar sem medicação.
— Então encontre outra maneira.
Vinte minutos depois, Mariana estava numa cadeira de rodas, usando máscara, casaco largo e um lenço cobrindo parte do rosto. Henrique concordara com uma única condição: ela permaneceria dentro do carro enquanto ele verificava a capela.
Mas, quando chegaram à fazenda pouco depois da meia-noite, o lugar estava silencioso.
A área destruída pelo incêndio ainda cheirava a madeira molhada e fuligem. As rosas brancas do casamento continuavam presas a algumas estruturas externas, agora marrons nas bordas. Mariana viu o espaço onde deveria ter caminhado até Rafael diante de cento e vinte convidados.
Parecia pertencer a outra vida.
Henrique entrou na capela.
Dois minutos depois, voltou.
— Não há ninguém.
— Lucas?
— Nem Rafael.
Mariana saiu do carro apesar dos protestos.
Cada passo exigia esforço, mas ela continuou até a pequena construção de pedra. A porta estava aberta. O altar havia sido deslocado e o compartimento secreto permanecia exposto.
A caixa metálica desaparecera.
No chão, porém, havia sangue.
Pouco. Algumas gotas.
— Lucas estava ferido? — perguntou Mariana.
Henrique se abaixou.
— Não sabemos de quem é.
Então ouviram um carro.
Faróis atravessaram as árvores.
Henrique puxou Mariana para trás da parede lateral.
O veículo parou diante da capela.
Camila desceu.
Sozinha.
Mariana sentiu uma raiva tão intensa que por alguns segundos esqueceu a dor. Camila usava roupas escuras e segurava uma lanterna. Entrou apressadamente na capela e começou a procurar.
— Ela não sabe que a caixa foi levada — sussurrou Mariana.
Camila aproximou-se do compartimento vazio.
— Droga.
Então pegou o telefone.
— Ele chegou antes.
Pausa.
— Não, Rafael não está comigo.
Mariana e Henrique trocaram um olhar.
Camila continuou:
— Lucas encontrou a certidão. Se Rafael viu, acabou.
Outra pausa.
— Eu fiz tudo o que você mandou. Peguei o envelope, a pulseira, tranquei a porta...
Mariana sentiu o corpo inteiro endurecer.
Ali estava.
A confirmação.
Camila a trancara.
— ...mas eu não sabia que Mariana ainda estava lá quando o fogo se espalhou!
A voz dela tremia agora.
— Você disse que seria só para assustá-la e cancelar o casamento.
Mariana apertou os dedos contra a parede.
Camila não provocara necessariamente o incêndio.
Mas trancara a porta.
— Não vou continuar fazendo isso — disse Camila. — Teresa morreu. Mariana morreu. Chega.
Silêncio.
Então Camila recuou.
— Não. Não encoste no Rafael.
A chamada terminou.
Ela ficou parada alguns segundos, respirando rápido.
Mariana saiu de trás da parede.
— Você sempre teve facilidade para chorar quando precisava dele.
Camila virou-se.
A lanterna caiu de sua mão.
Seu rosto perdeu completamente a cor.
— Mariana?
O nome saiu quase sem som.
— Surpresa?
Camila recuou até o altar.
— Você está morta.
— Era essa a ideia?
— Não.
— Você me trancou.
Camila começou a chorar.
— Eu não sabia do incêndio.
— Mas roubou meus documentos.
— Eu precisava.
— Para quem?
Camila fechou a boca.
Mariana aproximou-se mais um passo.
— Rafael?
— Não.
— Vicente?
O olhar de Camila respondeu antes das palavras.
— Ele me procurou meses atrás — confessou. — Disse que você estava tentando tomar uma propriedade da família. Pediu que eu recuperasse documentos antes do casamento.
— E você acreditou?
— No começo.
— E depois?
Camila abaixou a cabeça.
— Depois ele começou a me ameaçar.
Mariana sentiu pouca compaixão.
— Você poderia ter contado ao Rafael.
Camila riu amargamente.
— Rafael nunca acreditaria em mim se soubesse por quê.
— Por quê?
Camila levou a mão ao bolso e retirou uma pequena chave.
— Porque eu não me aproximei dele por acaso.
Mariana ficou imóvel.
— O que isso significa?
— Vicente me pagou durante anos para ficar perto do Rafael.
A revelação atingiu Mariana de maneira inesperada.
Todas as crises. Todas as emergências. Toda aquela dependência constante.
— Para quê?
— Para garantir que ele nunca descobrisse quem era.
Camila olhou para a certidão fotografada no celular de Mariana.
— Rafael começou a investigar Eduardo Nogueira há quase um ano. Vicente entrou em pânico. Foi quando seu pai percebeu que Rafael estava chegando perto da verdade.
— Onde está Lucas?
Camila hesitou.
— Rafael o levou.
— Para onde?
— Para encontrar Vicente.
Henrique surgiu atrás de Mariana.
— Onde?
Camila olhou para ele e ficou ainda mais assustada.
— Você.
Henrique franziu a testa.
— O quê?
— Foi você quem ligou para Vicente naquela noite.
O silêncio caiu.
Mariana virou lentamente para o médico.
— Que noite?
Camila engoliu em seco.
— A noite em que Augusto Ferreira morreu.
Henrique ficou imóvel.
— Isso é mentira.
Camila tirou outro celular do bolso.
— Tenho a gravação.
Antes que pudesse entregá-lo, faróis apareceram novamente entre as árvores.
Desta vez eram dois veículos.
Camila olhou pela janela e perdeu a cor.
— Precisamos sair.
— Quem é?
— Vicente.
Mariana ouviu portas de carros se fechando.
Então outra figura desceu do segundo veículo.
Rafael.
Ele caminhava ao lado do pai, carregando a caixa metálica encontrada por Lucas.
Mas Lucas não estava com eles.
Rafael parou diante da capela.
Pela primeira vez desde o incêndio, seus olhos encontraram diretamente os de Mariana.
A caixa caiu de suas mãos.
— Mariana...
Ela esperou choque, lágrimas, talvez alívio.
Mas Rafael olhou imediatamente para Vicente e disse apenas:
— Pai, você mentiu. Ela está viva.
Vicente não demonstrou surpresa.
Sorriu.
— Eu sei.







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