O sorriso de Vicente foi pequeno, quase cansado, mas bastou para fazer Mariana compreender que sua sobrevivência já não era uma vantagem. Rafael permanecia imóvel diante da capela, os olhos presos nela, como se o cérebro se recusasse a aceitar aquilo que via. Depois deu um passo.
— Mariana...
— Não.
Ela levantou a mão.
Rafael parou.
Por um instante, todo o resto desapareceu: Vicente, Camila, Henrique, a caixa caída no chão. Restaram apenas os dois e aquele corredor tomado pela fumaça.
— Você estava viva — Rafael disse.
— Enquanto você chorava sobre uma certidão, sim.
— Eu achei...
— Você também achou que Camila precisava ser salva antes de mim.
Camila abaixou os olhos.
Rafael fechou a boca.
Não havia defesa possível.
Vicente quebrou o silêncio.
— Podemos resolver o drama conjugal depois. Entreguem o telefone.
Camila segurou o aparelho contra o peito.
— Não.
O sorriso dele desapareceu.
— Você já recebeu muito dinheiro para começar a desenvolver consciência agora.
Rafael virou-se.
— Dinheiro?
Camila não conseguiu encará-lo.
Mariana respondeu:
— Seu pai pagava Camila para ficar perto de você.
Rafael soltou uma risada curta, incrédula.
— Do que você está falando?
— Pergunte a ela.
Ele olhou para Camila.
— É verdade?
As lágrimas apareceram.
— Rafael...
— É verdade?
— No começo, sim.
A resposta o atingiu como um golpe.
— Quantos anos?
— Nove.
Rafael recuou.
Nove anos. Mariana percebeu que era anterior até mesmo ao relacionamento deles.
— Cada pane no carro? Cada crise? — perguntou ele.
— Nem todas.
— Você me fez abandonar Mariana na missa do pai dela.
Camila começou a chorar.
— Vicente disse que Augusto estava tentando colocar você contra sua família. Eu precisava saber o que ele contava para Mariana.
Rafael olhou para o pai.
— Por quê?
Vicente não respondeu.
Rafael pegou a certidão caída junto à caixa.
Seus olhos encontraram o nome Eduardo Nogueira.
— Isso é verdadeiro?
— Não importa — disse Vicente.
— Para mim importa.
— Eu criei você. Dei meu nome. Minha casa. Minha carreira.
Rafael ficou em silêncio.
— Você sabia que Eduardo era meu pai?
Vicente endureceu.
— Eduardo era um irresponsável que teria destruído tudo.
— Tudo o quê?
Mariana observava os dois quando percebeu movimento entre as árvores.
Sombras.
Dois homens aproximavam-se silenciosamente da capela.
— Lucas — ela disse de repente.
Rafael virou-se.
— Ele está vivo.
— Onde?
— No antigo depósito de ferramentas. Ele me seguiu até aqui e tentou impedir que eu levasse a caixa. Houve uma briga, ele caiu e bateu a cabeça. Eu o deixei lá para procurar ajuda.
— Você o deixou ferido sozinho?
Rafael a encarou.
— Eu precisava trazer Vicente até as provas.
— Então por que veio no carro dele?
— Porque ele acreditava que eu ainda estava do lado dele.
Vicente soltou um suspiro.
— Rafael sempre teve essa necessidade infantil de bancar o investigador.
Um dos homens surgiu na porta.
— Senhor Almeida.
Vicente apontou para Camila.
— Pegue o telefone.
Rafael se colocou imediatamente na frente dela.
— Ninguém toca em ninguém.
O homem hesitou.
— Capitão...
— Eu disse para parar.
Sua voz mudou. Era a voz de comando que Mariana ouvira tantas vezes em ocorrências. Por um instante, ela viu o bombeiro em quem confiara.
Mas isso não apagava o homem que a deixara atrás daquela porta.
Camila aproveitou a distração e entregou o telefone a Mariana.
— A gravação está numa pasta chamada “Augusto”.
Mariana abriu.
O áudio começava com a voz de Henrique:
“Ele piorou. Se quiser falar com Augusto, venha agora.”
Depois Vicente:
“Não deixe ninguém entrar até eu chegar.”
Henrique empalideceu.
— Eu liguei porque Augusto pediu para vê-lo.
— Você disse que nunca mais falou com Vicente — acusou Mariana.
— Porque eu tinha vergonha.
— De quê?
Henrique respirou fundo.
— Naquela noite, seu pai queria confrontá-lo.
O áudio continuou.
Havia ruídos hospitalares. Depois a voz fraca de Augusto:
“Se alguma coisa acontecer comigo, Mariana não pode se casar com Rafael sem saber a verdade.”
Vicente respondeu:
“Você não vai destruir meu filho.”
“Ele não é seu filho.”
Rafael fechou os olhos.
Então veio uma frase que mudou o rosto de Henrique.
Sua própria voz:
“Augusto, seu coração não vai aguentar.”
Em seguida, um barulho forte.
O áudio terminou.
— O que aconteceu depois? — Mariana perguntou.
Henrique parecia vinte anos mais velho.
— Vicente avançou sobre ele. Augusto tentou levantar. Teve uma parada cardíaca.
— E você o salvou?
Henrique demorou.
— Tentei.
Vicente riu.
— Agora todos temos nossas pequenas culpas.
Mariana sentiu repulsa.
— E Teresa?
O sorriso de Vicente sumiu.
— Teresa deveria entregar os documentos e desaparecer.
— Quem provocou o incêndio?
Pela primeira vez, Vicente pareceu genuinamente irritado.
— Eu não mandei incendiar aquela fazenda.
Camila falou imediatamente:
— Ele está dizendo a verdade.
Todos olharam para ela.
— Vicente me mandou pegar o envelope e impedir Mariana de chegar à cerimônia. Eu coloquei a barra na porta. Era para Rafael encontrá-la, cancelar tudo e levar os documentos embora na confusão.
— Então quem iniciou o fogo? — perguntou Rafael.
Camila balançou a cabeça.
— Não sei.
Mariana percebeu o detalhe mais assustador.
Se Vicente não ordenara o incêndio e Camila não o iniciara, ainda havia alguém que todos estavam ignorando.
Nesse momento, uma sirene distante cortou a noite.
Lucas apareceu cambaleando atrás dos dois homens de Vicente, com sangue seco na testa e um rádio na mão.
— Polícia! Ninguém se mexe!
Luzes azuis começaram a atravessar as árvores.
Vicente olhou para Rafael.
— Você chamou a polícia?
— Antes de entrar no seu carro.
Os homens de Vicente recuaram.
Minutos depois, a área estava tomada por policiais. Vicente foi levado para prestar depoimento, assim como Camila e Henrique. Rafael entregou a caixa e a certidão.
Quando passaram por Mariana, Vicente inclinou-se discretamente.
— Você ainda acha que isso começou por causa da herança.
Ela sustentou seu olhar.
— O que isso significa?
Ele sorriu novamente.
— Pergunte à sua irmã por que ela esteve aqui duas horas antes do incêndio.
Mariana congelou.
— Beatriz?
Vicente foi levado antes que pudesse responder.
Lucas aproximou-se, apoiado por um paramédico.
— Encontramos as imagens das câmeras externas.
Ele entregou o celular.
O vídeo mostrava a fazenda horas antes da cerimônia.
Às 16h12, Beatriz Ferreira chegava de carro.
Mariana assistiu à irmã entrar pela porta lateral.
Às 17h03, Beatriz saiu.
Carregava uma pequena caixa vermelha.
Quatro minutos depois, outra câmera registrou algo ainda pior.
Beatriz parou junto ao depósito onde a perícia posteriormente encontraria o primeiro foco do incêndio.
Ela olhou para os lados.
Então entrou.
Mariana sentiu as pernas perderem força.
Lucas avançou o vídeo.
Beatriz saiu do depósito sete minutos depois.
Na mão direita, segurava o mesmo tipo de recipiente que a polícia encontrara no apartamento de Mariana.
O acelerante.
E antes de entrar no carro, Beatriz levantou o telefone e fez uma ligação.
Lucas abriu os registros obtidos pela polícia.
A chamada durara quarenta e três segundos.
O número de destino pertencia a alguém que Mariana conhecia muito bem.
Helena Prado.
Mariana levantou os olhos.
A advogada não estava mais na capela.







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