Mariana ouviu o áudio três vezes. Na primeira, sentiu medo. Na segunda, raiva. Na terceira, percebeu alguma coisa que o choque havia escondido.
— Volta cinco segundos.
Lucas arrastou a gravação.
“Quando Mariana morrer, ninguém pode encontrar o segundo testamento.”
— Outra vez.
Ele repetiu.
Mariana fechou os olhos. Conhecia a voz de Rafael havia sete anos. Conhecia sua respiração quando estava nervoso, a maneira como engolia certas sílabas e até aquele pequeno ruído que fazia antes de dizer algo difícil.
A voz era dele.
Mas havia algo errado.
— Ele não fala assim.
Helena franziu a testa.
— Mariana, é claramente Rafael.
— A voz, sim. A frase, não.
Lucas entendeu primeiro.
— Pode ter sido editada.
— Ou retirada de outra conversa.
Mariana apontou para o início.
— Escuta o ruído atrás.
Havia três sinais curtos, depois uma voz distante anunciando alguma coisa incompreensível.
Lucas aumentou o volume.
Helena empalideceu.
— Isso parece um elevador.
Mariana abriu os olhos.
— Do hospital São Gabriel.
Todos olharam para ela.
— Meu pai ficou internado aqui antes de morrer. Os elevadores antigos fazem três sinais quando chegam ao sexto andar.
Se a gravação tivesse sido feita naquele hospital, poderia ter meses.
Lucas enviou imediatamente o arquivo para análise.
Enquanto isso, a presença da polícia do lado de fora criava outro problema. Oficialmente, Mariana estava morta. Se descobrissem que ela sobrevivera, o verdadeiro responsável pelo incêndio também poderia descobrir.
Henrique entrou novamente.
— Não consigo segurar isso por muito tempo. Os investigadores querem acessar os registros da paciente não identificada trazida na noite do incêndio.
— Quanto tempo temos? — perguntou Lucas.
— Horas. Talvez menos.
Mariana olhou para Helena.
— Quero saber sobre a discussão entre Rafael e meu pai.
A advogada demorou a responder.
— Augusto descobriu que Rafael estava investigando a fazenda.
— Por quê?
— Rafael dizia acreditar que havia corrupção envolvendo antigos proprietários. Seu pai achava que ele estava procurando os documentos da fraude.
— E o segundo testamento?
Helena desviou os olhos.
Esse pequeno movimento foi suficiente.
— Existe um segundo testamento — disse Mariana.
— Existe.
A resposta caiu pesada.
Helena retirou outra pasta de sua bolsa.
— Augusto modificou o testamento onze dias antes de morrer.
— E você nunca me contou?
— Ele deixou instruções específicas.
— Meu pai morreu há onze meses!
— As instruções diziam que você só deveria saber depois do casamento.
Mariana soltou uma risada amarga que imediatamente virou tosse.
— Então todo mundo sabia coisas sobre a minha vida menos eu.
Helena esperou até a crise passar.
— O segundo testamento contém uma cláusula incomum. Se você se casasse com Rafael Almeida antes de tomar conhecimento da fraude, parte dos bens seria transferida automaticamente para uma fundação.
— Qual fundação?
Helena respondeu quase num sussurro:
— Instituto Almeida.
O sobrenome atravessou Mariana como uma lâmina.
O Instituto Almeida era administrado por Vicente Almeida, pai de Rafael.
De repente, o casamento na própria fazenda envolvida na fraude parecia muito menos romântico.
— Rafael escolheu o local — Mariana murmurou.
Lucas virou-se para ela.
— Tem certeza?
— Ele insistiu. Disse que era perfeito porque meu pai gostava de lugares antigos.
Uma memória surgiu: Rafael mostrando fotografias da fazenda meses antes, animado demais. Depois, Vicente oferecendo-se para pagar metade da cerimônia.
Mariana sentiu náusea.
— Se eu tivesse me casado com Rafael naquele dia...
— A cláusula seria ativada — confirmou Helena.
— E depois, se eu morresse?
Helena não respondeu.
Não precisava.
Lucas recebeu uma mensagem da perícia do áudio.
— Encontraram cortes digitais.
Mariana ergueu os olhos.
— Então é falso?
— Não exatamente. Todas as palavras foram ditas por Rafael, mas provavelmente em momentos diferentes. Alguém montou a frase.
Isso mudava tudo novamente.
Se alguém estava fabricando provas contra Mariana e contra Rafael, talvez os dois fossem peças no mesmo jogo.
— Quero falar com ele — disse Mariana.
Henrique protestou imediatamente.
— É arriscado.
— Sem ele saber que sou eu.
Quarenta minutos depois, prepararam uma chamada usando um aplicativo que distorcia a voz. Lucas ligou para Rafael de um número desconhecido.
Rafael atendeu depois do segundo toque.
— Quem é?
Mariana precisou reunir forças.
— Sei que você esteve na casa de Augusto Ferreira ontem.
Silêncio.
— Quem está falando?
— O que você procurava no cofre?
A respiração de Rafael mudou.
— Onde conseguiu esse número?
— Responda.
Outro silêncio.
Então ele disse:
— O segundo testamento.
Mariana apertou o lençol.
— Por quê?
— Porque Mariana morreu sem saber que alguém estava tentando roubar tudo dela.
A frase quase a desarmou.
— Quem?
— Meu pai.
Helena ficou imóvel.
Rafael continuou:
— Vicente descobriu que Augusto havia encontrado provas sobre a fazenda. Eu estava tentando achar o testamento antes dele.
— E Camila?
Dessa vez a pausa foi longa.
— Camila está envolvida.
Mariana sentiu o peito apertar.
— Você a salvou primeiro.
Do outro lado, Rafael parou de respirar por um instante.
— Quem é você?
Mariana percebeu que havia ido longe demais.
Lucas fez sinal para encerrar.
Mas Rafael falou rapidamente:
— Espere. Se você sabe o que aconteceu no incêndio, precisa saber uma coisa. A porta de Mariana não estava trancada quando eu cheguei.
Mariana congelou.
— Estava.
— Não. Havia uma barra metálica prendendo a maçaneta por fora. Eu tentei remover. Então Camila gritou.
A lembrança voltou: as botas mudando de direção.
— E você foi embora.
A voz de Rafael falhou.
— Foi o pior erro da minha vida.
Mariana sentiu lágrimas quentes chegarem aos olhos, mas não permitiu que caíssem.
— Por que Camila estava com a chave?
Silêncio.
— Que chave?
Mariana olhou para Lucas.
Rafael parecia genuinamente não saber.
Então uma voz feminina surgiu ao fundo da ligação.
— Rafael, com quem você está falando?
Camila.
Mariana perdeu o ar.
Rafael respondeu:
— Ninguém.
Lucas encerrou imediatamente.
Segundos depois, chegou outra mensagem anônima.
Uma fotografia antiga.
Nela estavam Augusto Ferreira, Vicente Almeida e uma terceira pessoa diante da fazenda, quase trinta anos antes.
Mariana aproximou a imagem.
O terceiro homem era muito mais jovem, mas ela reconheceu o rosto.
Doutor Henrique Vasconcelos.
Mariana ergueu lentamente os olhos para o médico que havia organizado sua falsa morte.
Henrique não tentou negar.
Apenas fechou a porta do quarto e girou a chave.
— Acho que chegou a hora — disse ele — de você saber quem realmente morreu naquele incêndio.







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