Henrique permaneceu diante da porta trancada por alguns segundos, enquanto Mariana sentia o quarto mudar ao redor dela. Até então, aquele homem representava segurança. Fora ele quem escondera sua sobrevivência, quem controlara o acesso ao prontuário, quem mantivera Rafael e a polícia afastados. Agora, a fotografia mostrava que ele conhecia seu pai e Vicente Almeida havia quase três décadas.
Lucas deu um passo à frente.
— Destranque a porta.
— Se eu quisesse machucá-la, senhor Martins, teria tido três dias para fazer isso.
— Então comece a falar — Mariana disse.
Henrique puxou lentamente uma cadeira.
— A mulher declarada como Mariana Ferreira chamava-se Teresa Nogueira.
Helena levou a mão à boca.
Mariana percebeu.
— Você conhece esse nome.
A advogada não respondeu.
Henrique respondeu por ela.
— Todos nós conhecíamos.
Ele apontou para a fotografia antiga.
— Aquela fazenda não pertencia apenas ao seu avô. Existia uma sociedade informal entre três famílias. Ferreira, Almeida e Nogueira. Seu avô administrava as terras. Vicente cuidava dos investimentos. Teresa era filha de Eduardo Nogueira, o homem responsável pela contabilidade.
— E você?
— Eu era estudante de medicina. Eduardo era meu tio.
Mariana tentou organizar as informações.
— Então Teresa era sua prima.
Henrique assentiu.
— Vinte e oito anos atrás, Eduardo descobriu desvios financeiros. Antes que pudesse denunciar, morreu em um acidente de carro. Pouco depois, a fazenda foi vendida. Teresa sempre acreditou que as duas coisas estavam relacionadas.
— E meu pai?
— Augusto também desconfiava. Passou décadas reunindo provas.
Helena finalmente falou:
— Teresa me procurou depois da morte dele.
Mariana virou-se para ela.
— E você escondeu isso de mim também?
— Ela pediu proteção. Disse que alguém a seguia.
Henrique continuou:
— Na noite do seu casamento, Teresa foi à fazenda porque recebeu uma mensagem dizendo que finalmente receberia uma cópia dos documentos originais.
— Quem enviou?
— Não sabemos.
— E ela morreu usando meu nome.
— Porque estava com sua bolsa.
Mariana ficou imóvel.
— Minha bolsa desapareceu do camarim.
— Foi encontrada perto de Teresa — disse Henrique. — Seus documentos estavam dentro. Foi por isso que os paramédicos acreditaram que ela era você.
Uma imagem perturbadora começou a se formar. Camila entrara no camarim, roubara o envelope e a pulseira. Em algum momento, sua bolsa também desaparecera. Depois, Teresa surgira com ela e morrera.
— Camila deu minha bolsa para Teresa?
— É possível.
— Por quê?
Ninguém tinha resposta.
Mariana voltou-se para Henrique.
— E a certidão de óbito? Foi um erro ou você fez de propósito?
Henrique sustentou seu olhar.
— No começo, foi um erro. Quando Lucas chegou dizendo que você era a verdadeira Mariana, percebi que havia duas possibilidades: corrigir imediatamente o sistema e anunciar que você sobrevivera... ou ganhar tempo.
— Então deixou Rafael acreditar que eu estava morta.
— Sim.
— Sem me perguntar.
— Você estava sedada.
A raiva subiu pelo peito de Mariana.
— Não tinha esse direito.
— Não.
Henrique aceitou a acusação sem se defender.
— Mas Teresa morreu porque alguém queria que todos acreditassem que Mariana Ferreira estava morta. Quando percebi isso, pensei que talvez sua única vantagem fosse permitir que essa pessoa continuasse acreditando que conseguiu.
A lógica era terrível.
Mas fazia sentido.
Lucas aproximou-se da fotografia antiga.
— Quem tirou isso?
— Teresa — respondeu Henrique.
— Ela não aparece.
— Usou um temporizador.
Lucas virou a fotografia.
No verso havia uma data escrita à mão e uma frase quase apagada:
“Se um de nós desaparecer, procure a capela.”
Mariana reconheceu imediatamente a caligrafia do pai.
— Existe uma capela na fazenda.
Helena assentiu.
— Foi fechada durante a restauração.
Mariana sentiu o coração acelerar.
Talvez o verdadeiro documento nunca tivesse estado em sua casa.
— Meu pai escondeu alguma coisa lá.
Henrique destrancou a porta.
— Se estiver pensando em ir, esqueça. Você não consegue atravessar este corredor sem ajuda.
— Então Lucas vai.
— Não sozinho — disse Helena.
Mariana observou a advogada.
— Você não vai.
— Por quê?
— Porque ainda não sei em quem confiar.
A frase atingiu Helena, mas Mariana já aprendera o preço de ignorar suas próprias suspeitas.
Lucas saiu naquela noite.
Durante quase duas horas, Mariana ficou sozinha com pensamentos que não conseguia controlar. Rafael escolhera Camila no incêndio. Isso era real, independentemente de conspirações, heranças ou documentos. Nenhuma revelação poderia apagar aquele instante.
Mas talvez Rafael não tivesse provocado o fogo.
E essa possibilidade era quase tão dolorosa quanto acreditar que sim.
Às onze e vinte, o telefone seguro tocou.
Lucas.
— Encontrei a capela.
A voz vinha acompanhada pelo som do vento.
— E?
— A porta estava arrombada antes de eu chegar.
Mariana fechou os olhos.
— Alguém chegou primeiro.
— Sim. Mas não encontrou tudo.
Ouviu pedras sendo movidas.
— Atrás do altar havia um compartimento. Encontrei uma caixa metálica.
— Abra.
Segundos de silêncio.
— Tem fotografias, extratos bancários... e uma fita cassete.
— Mais alguma coisa?
Lucas demorou.
— Uma certidão de nascimento.
Mariana franziu a testa.
— De quem?
— Rafael Almeida.
Seu coração bateu mais forte.
— O que tem de estranho?
Lucas respirou fundo.
— Vicente Almeida não aparece como pai.
Mariana ficou imóvel.
— Quem aparece?
Antes que Lucas respondesse, ouviu-se um estrondo do outro lado da ligação.
— Lucas?
Nenhuma resposta.
Depois passos.
— Lucas!
A ligação continuou aberta.
Uma voz masculina distante surgiu.
— Você não deveria ter vindo aqui.
Mariana reconheceu imediatamente.
Rafael.
Segundos depois, a chamada terminou.
Ela tentou ligar novamente. Nada.
Então recebeu uma fotografia enviada pelo celular de Lucas.
A caixa metálica estava aberta sobre o chão da capela. Ao lado da certidão de nascimento havia uma fotografia de Augusto segurando um bebê.
No verso, uma frase escrita pela mão de seu pai:
“Rafael precisa saber quem é seu verdadeiro pai.”
Mariana ampliou a certidão.
Onde deveria estar escrito Vicente Almeida, havia outro nome.
Eduardo Nogueira.
O pai de Teresa.
O homem cuja morte, vinte e oito anos antes, dera início a todo o segredo.







No comments yet