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Meu Padrasto Espancava Minha Irmã Gêmea E A Mim Todos Os Dias — Até Que O Médico Descobriu A Verdade E Mandou Chamar A Polícia

A palavra “pai” pareceu atravessar meu corpo inteiro.

Por alguns segundos, esqueci a dor na cabeça, os hematomas e até a presença de Eduardo do outro lado da porta. Só consegui pensar em Daniel Martins, no rosto que eu mal conseguia reconstruir sem sentir saudade, e nas histórias que nossa mãe contava sobre os últimos meses antes de sua morte.

— Quem é ele? — perguntei.

A policial, inspetora Helena Duarte, hesitou.

— Ele não quis entrar no hospital. Disse que só entregaria os documentos diretamente a vocês ou à polícia.

Clara apertou minha mão.

— Ele disse o nome?

Helena olhou para nós.

— André Martins.

O ar pareceu desaparecer da sala.


Clara ficou imóvel.

Eu também.

Nosso tio André.

Durante anos, aquele nome tinha existido apenas em fotografias antigas e nas lembranças fragmentadas de uma infância que parecia pertencer a outra família. Depois da morte de nosso pai, André havia tentado falar conosco várias vezes. Minha mãe dizia que ele estava obcecado pelo dinheiro de Daniel. Eduardo dizia que ele era irresponsável, perigoso e queria destruir nossa família.

Mas havia uma coisa que ninguém conseguira explicar.

Por que André desaparecera justamente quando mais precisávamos dele?

— Ele está aqui? — Clara perguntou.

— Está no estacionamento. Mas antes que vocês o vejam, preciso perguntar algo.

Helena se aproximou.

— Seu pai deixou algum documento importante para vocês?


Olhei para Clara.

Ela olhou para mim.

Nós duas sabíamos da existência do fundo. Sabíamos das gravações. Mas não sabíamos o que André tinha encontrado.

— Nosso pai deixou um fundo — respondi. — E algumas coisas que deveriam passar para nós quando fizéssemos dezoito anos.

Helena franziu a testa.

— Quanto falta?

— Dois meses.

Ela ficou em silêncio por um instante.

Então perguntou:

— Eduardo sabia disso?


Antes que eu pudesse responder, uma voz surgiu do corredor.

— Ele sabia de tudo.

Era minha mãe.

Beatriz entrou na sala acompanhada por outra policial. Seu rosto estava inchado de tanto chorar. Ela segurava uma pequena bolsa contra o peito, mas agora não parecia estar tentando esconder nada.

Eduardo apareceu atrás dela.

— Beatriz, não faça isso.

Helena imediatamente ordenou que ele permanecesse no corredor.

Minha mãe olhou para mim.

— Ele sabia sobre o fundo desde antes de se casar comigo.

Meu coração afundou.


— Como?

Ela respirou fundo.

— Seu pai me contou antes de morrer.

Clara começou a chorar.

— Então por que você nunca falou?

Beatriz levou alguns segundos para responder.

— Porque Eduardo descobriu que Daniel tinha deixado provas contra algumas pessoas da empresa. E quando ele percebeu que vocês herdariam tudo aos dezoito anos, começou a dizer que precisava proteger o dinheiro de vocês.

— Proteger? — Clara quase riu, mas sua voz saiu quebrada. — Ele nos batia para proteger nosso dinheiro?

Minha mãe fechou os olhos.

— No começo, eu achei que conseguiria controlá-lo.


— E depois?

Ela me encarou.

— Depois eu tive medo.

Aquela confissão doeu mais do que qualquer hematoma.

Eu queria odiá-la.

Talvez fosse mais fácil.

Mas ver minha mãe finalmente admitir aquilo tornava tudo real demais.

Helena se aproximou.

— Senhora Beatriz, precisamos saber exatamente o que Eduardo procurava.

Minha mãe abriu a bolsa.


Tirou de dentro um envelope amarelado.

Meu coração disparou.

— Ele procurava isto.

Clara se inclinou.

Na frente do envelope havia apenas uma frase escrita à mão.

**“Para Fernanda e Clara. Somente depois que a verdade for conhecida.”**

Reconheci imediatamente a letra.

Era do nosso pai.

Helena pediu que Beatriz entregasse o envelope.

Mas minha mãe não soltou.


— Daniel me fez prometer que só entregaria quando tivesse certeza de que Eduardo não poderia mais chegar perto delas.

— E agora?

Beatriz olhou para a porta.

— Agora ele já sabe que vocês têm as gravações.

Eduardo ouviu.

Seu rosto mudou.

— Que gravações?

Ninguém respondeu.

Foi a primeira vez que percebi algo importante.

Ele não sabia que havíamos gravado tudo.


Pelo menos, não até aquele momento.

Helena tomou o envelope das mãos de Beatriz e o guardou em um saco plástico.

— Isso ficará sob custódia até podermos analisar.

— Não — falei.

A inspetora olhou para mim.

— Meu pai escreveu para nós.

— Justamente por isso, Fernanda. Quero garantir que ninguém altere esse documento.

Então alguém bateu na porta.

O homem que entrou parecia mais velho do que eu imaginava. Cabelos grisalhos, barba curta, casaco escuro e olhos cansados. Por um instante, ele ficou parado olhando para Clara e para mim.

Ele não disse nada.


Apenas levou a mão ao rosto.

— Meu Deus…

Clara começou a chorar.

— Tio André?

Ele assentiu.

Deu um passo na nossa direção, mas parou antes de tocar em nós.

— Eu procurei vocês por três anos.

Minha mãe baixou os olhos.

André então olhou para ela.

— Você nunca contou o que Daniel descobriu.


— Eu tentei proteger as meninas.

— Não — respondeu ele, com a voz baixa. — Você tentou sobreviver.

O silêncio ficou pesado.

André tirou um segundo envelope de dentro do casaco.

— O primeiro documento que encontrei estava na conta do seu pai. Mas isso aqui foi entregue a mim três semanas depois da morte dele.

Helena se aproximou.

— Por quem?

André olhou diretamente para mim.

— Pelo advogado de Daniel.

Abri a boca, mas não consegui falar.

André apertou o envelope entre os dedos.

— Seu pai sabia que alguém tentaria controlar o fundo. Por isso deixou uma condição.

— Qual? — perguntei.

André demorou alguns segundos.

— Vocês só receberiam o dinheiro aos dezoito anos… se ainda estivessem vivas.

Clara ficou pálida.

Helena imediatamente virou o rosto para Eduardo.

E, pela primeira vez desde que chegara ao hospital, Eduardo não tentou se defender.

Ele apenas sorriu.

Um sorriso pequeno.

Como se tivesse acabado de perceber que ainda havia uma parte da história que ninguém naquela sala conhecia.

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