Helena mal terminou a frase quando André já estava caminhando em direção à saída do hospital.
— Não! — ordenou ela. — O senhor fica aqui.
André parou.
— Se aquele carro ainda existe, preciso vê-lo.
— E justamente por isso não vai sozinho.
Dois policiais seguiram Helena pelo corredor. Minha mãe ficou parada ao lado da parede, abraçada à própria bolsa, enquanto Clara segurava meu braço.
Eu sentia uma mistura estranha de medo e alívio. Pela primeira vez, a verdade parecia estar se aproximando. Mas quanto mais perto chegávamos dela, mais pessoas que amávamos apareciam envolvidas.
— Você acredita nele? — Clara sussurrou.
Olhei para André.
Ele parecia devastado.
— Não sei.
— Eu também não.
Minutos depois, ouvimos passos apressados. Helena retornou com uma pequena caixa transparente nas mãos.
Dentro havia um celular.
— Encontramos isso dentro do carro — disse ela.
André ficou imóvel.
— Esse telefone não é meu.
— Eu sei — respondeu Helena. — Porque encontramos algo ainda mais interessante.
Ela colocou o aparelho sobre a mesa.
A tela estava bloqueada.
— O último registro de atividade foi hoje, às vinte e três horas e dezessete minutos.
Meu coração apertou.
— Enquanto estávamos no hospital?
— Exatamente.
Clara aproximou-se.
— Então alguém esteve no carro hoje.
Helena assentiu.
— E alguém sabia que procuraríamos aquele veículo.
André passou a mão pelos cabelos.
— Eu não estive perto daquele carro.
— Então explique por que a chave que encontramos com o senhor abre a porta.
Ele ficou em silêncio.
Eu olhei para o molho de chaves.
— Tio, você disse que o carro tinha sido destruído.
— Eu achei que tinha sido.
— Como alguém poderia ter a chave?
André baixou os olhos.
— Porque eu entreguei uma cópia para seu pai.
Minha mãe levantou a cabeça.
— Daniel tinha uma chave?
— Sim.
— Por quê?
André não respondeu.
Helena percebeu a hesitação.
— Senhor André, agora não é hora de esconder nada.
Ele respirou fundo.
— Daniel me pediu para guardar aquele carro. Disse que talvez precisasse desaparecer por alguns dias.
— Desaparecer de quem?
— Das pessoas que estavam seguindo ele.
O silêncio voltou.
Eu senti um frio percorrer minhas costas.
— Então meu pai sabia que estava em perigo.
— Sabia.
— E mesmo assim voltou para casa naquela noite?
André assentiu.
— Porque precisava buscar alguma coisa.
Clara perguntou:
— O quê?
André olhou para nós.
— Um arquivo.
Helena abriu a caixa metálica encontrada no carro de Eduardo.
— Este?
André ficou pálido.
— Não.
Ele apontou para o pequeno compartimento inferior.
— O arquivo que Daniel procurava não estaria ali.
O policial abriu o compartimento.
Estava vazio.
Minha garganta apertou.
— Então alguém chegou antes de vocês.
Helena assentiu.
— E sabia exatamente onde procurar.
Minha mãe começou a chorar.
— Isso nunca vai acabar.
Clara virou-se para ela.
— Vai acabar, mãe.
— Você não sabe disso.
— Não — respondeu Clara. — Mas agora sabemos onde procurar.
Ela olhou para mim.
Naquele instante, percebi que minha irmã tinha recuperado algo que Eduardo havia tentado destruir durante anos.
Determinação.
Helena recebeu uma mensagem no rádio e saiu por alguns minutos.
Quando voltou, segurava um envelope.
— Encontramos uma câmera no estacionamento.
Ela abriu o envelope e retirou algumas fotografias impressas.
A primeira mostrava o carro de André.
A segunda mostrava um homem entrando nele.
A terceira fez meu sangue gelar.
O homem estava usando um casaco escuro.
Mas o rosto estava parcialmente coberto.
— Não dá para identificar — disse Helena.
André pegou a fotografia.
Ficou olhando por vários segundos.
— Eu conheço essa postura.
— Quem é? — perguntei.
Ele não respondeu.
— Tio.
André finalmente falou:
— É o advogado do seu pai.
Minha mãe soltou um suspiro.
— Não pode ser.
— O advogado morreu há dois anos — disse Helena.
André balançou a cabeça.
— Eu fui ao funeral dele.
Helena examinou novamente a fotografia.
— Então temos um problema.
Ela colocou a imagem sobre a mesa.
— Porque essa gravação foi feita hoje.
Clara apertou minha mão.
Antes que pudéssemos reagir, meu celular começou a vibrar.
Era um número desconhecido.
Uma mensagem apareceu na tela.
**“Vocês estão procurando a pessoa errada.”**
Meu coração disparou.
Outra mensagem chegou imediatamente.
**“Daniel não morreu naquela noite.”**
Clara levou a mão à boca.
Minha mãe deixou a bolsa cair no chão.
André ficou completamente imóvel.
Então chegou uma terceira mensagem.
**“Se quiserem saber onde ele está, não confiem em ninguém dentro desse hospital.”**
No mesmo instante, as luzes do corredor se apagaram.







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