As luzes se apagaram por completo.
Durante alguns segundos, só conseguimos ouvir o alarme de emergência e o barulho distante de portas sendo abertas no corredor. Clara apertou minha mão com tanta força que senti seus dedos tremerem. Minha mãe ficou imóvel. André deu um passo na nossa direção, mas Helena levantou a mão.
— Ninguém se mexa.
Uma luz vermelha de emergência acendeu perto da porta.
Helena puxou o rádio.
— Segurança, bloqueiem os acessos ao pronto-socorro. Ninguém entra, ninguém sai.
Uma voz respondeu com interferência.
— Inspetora, temos um problema. A porta dos fundos foi aberta.
Helena olhou para o corredor.
— Quem tinha acesso?
Houve alguns segundos de silêncio.
— Apenas funcionários autorizados.
Então ouvimos passos.
Lentos.
Aproximando-se.
Clara encostou-se em mim.
André ficou entre nós e a porta.
Os passos pararam do lado de fora.
Uma sombra apareceu sob a fresta.
Helena levou a mão até o rádio.
— Identifique-se.
Nada.
— Identifique-se agora.
A maçaneta começou a girar.
O segurança surgiu de repente no corredor, acompanhado por dois funcionários.
— Inspetora! Foi um paciente que saiu da sala de observação. Estamos verificando.
Helena respirou fundo, mas não abaixou a guarda.
— Quero todas as câmeras desse corredor.
— Já estamos tentando recuperar as imagens.
— Tentando?
— O sistema caiu junto com as luzes.
Meu estômago apertou.
Aquilo não parecia uma coincidência.
Helena olhou para meu celular.
— Essa mensagem ainda está aí?
Assenti.
— Não apague.
— Não vou.
Ela aproximou-se.
— Existe alguma possibilidade de seu pai ter deixado outra conta ou outro meio de contato?
Pensei imediatamente no velho celular escondido em casa.
— A conta na nuvem.
André me encarou.
— O que tem nela?
— As gravações.
— Não estou falando das gravações — respondeu ele. — Estou falando da conta. Daniel criou aquilo para vocês?
— Sim.
— Então talvez ele tenha deixado uma segunda camada de segurança.
Clara franziu a testa.
— Como assim?
André se aproximou.
— Seu pai era contador forense. Ele sabia que qualquer arquivo digital poderia ser apagado. Por isso costumava esconder informações importantes dentro de outras informações.
Minha cabeça começou a trabalhar.
Lembrei-me de todas as noites em que verificava as gravações. Havia uma pasta que nunca consegui abrir. Sempre aparecia com o nome “DM-18”.
Eu tinha pensado que fosse algum erro.
— Tio…
— O quê?
— Existe uma pasta que eu nunca consegui abrir.
André empalideceu.
— Qual o nome?
— DM-18.
Ele fechou os olhos.
— Meu Deus.
— Você sabe o que significa?
— Dezoito dezoito.
— Isso não faz sentido.
— Faz para Daniel.
Ele se virou para Helena.
— As meninas completam dezoito anos em dois meses.
A inspetora percebeu imediatamente.
— A pasta só pode ser aberta quando elas atingirem determinada condição?
André assentiu.
— Provavelmente.
Clara olhou para mim.
— Mas se ele morreu há três anos…
— Talvez tenha programado a abertura — completei.
Meu celular vibrou novamente.
Todos olharam para a tela.
A mensagem era diferente.
**“Vocês encontraram a pasta.”**
Meu sangue gelou.
Outra mensagem apareceu.
**“Agora precisam encontrar a chave.”**
Helena pegou o telefone.
— Não responda.
Mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, chegou uma terceira mensagem.
**“A chave está com Beatriz.”**
Minha mãe ficou branca.
— Não.
André virou-se para ela.
— Beatriz, o que Daniel lhe entregou naquela noite?
— Nada.
— Pense.
— Eu já disse que não sei!
Clara se aproximou.
— Mãe, por favor.
Minha mãe fechou os olhos.
Então levou a mão à bolsa.
Por alguns segundos, pareceu incapaz de respirar.
— Existe uma coisa.
Ela abriu o zíper.
Tirou um pequeno objeto metálico embrulhado em um lenço.
Uma chave.
Não era uma chave comum.
Era pequena, antiga, com um número gravado.
**18.**
Helena pegou o objeto com cuidado.
— Onde estava isso?
— Daniel colocou na minha mão naquela noite.
— E você nunca contou?
Beatriz começou a chorar.
— Ele disse que, se alguma coisa acontecesse com ele, eu deveria esconder até vocês completarem dezoito anos.
Clara olhou para ela.
— Por que escondeu de nós?
Minha mãe demorou a responder.
— Porque Eduardo encontrou o lenço uma vez. Eu tive medo de que ele descobrisse.
André observou a chave.
— Isso não abre uma porta.
— Como sabe?
Ele apontou para o número.
— Daniel usava esse tipo de chave para cofres.
Helena imediatamente pediu que os policiais verificassem os documentos encontrados.
Enquanto eles procuravam, meu celular vibrou outra vez.
Desta vez, não era uma mensagem.
Era uma chamada.
Número desconhecido.
Atendi antes que Helena pudesse me impedir.
— Alô?
Do outro lado, ouvi uma respiração.
Depois uma voz masculina, baixa e cansada.
Meu corpo inteiro ficou imóvel.
Eu conhecia aquela voz.
Não porque a ouvisse havia três anos.
Mas porque crescera ouvindo aquelas palavras nas gravações antigas de nossa infância.
— Fernanda?
Meus olhos se encheram de lágrimas.
Clara percebeu minha expressão.
— Quem é?
A voz voltou.
— Não diga meu nome.
Eu mal conseguia respirar.
— Pai?
Houve silêncio.
Então ele respondeu:
— Eu tentei voltar para vocês.
A ligação caiu.
Helena pegou o telefone imediatamente.
— Não ligue de volta.
Mas eu já sabia que aquela chamada tinha mudado tudo.
Daniel Martins podia estar morto.
Podia estar vivo.
Podia até ser alguém usando a voz dele.
Porém, antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa, o tablet sobre a mesa emitiu um sinal.
A pasta DM-18 havia sido aberta.
E, na tela, apareceu uma única frase:
**“Se minhas filhas estão vendo isso, significa que eu falhei em proteger vocês.”**







No comments yet