O sorriso de Eduardo foi o que mais me assustou.
Não era um sorriso de nervosismo. Não era de alguém encurralado pela polícia. Era um sorriso de quem acabara de ouvir uma informação que confirmava alguma coisa que já sabia.
Helena percebeu no mesmo instante.
— Por que está sorrindo?
Eduardo levantou as mãos.
— Não estou sorrindo.
— Está, sim.
— Talvez porque tudo isso seja absurdo.
André deu um passo à frente.
— Você sabia da cláusula.
Eduardo olhou para ele.
Por um segundo, nenhum dos dois disse nada.
Então Eduardo respondeu:
— Você demorou três anos para aparecer.
— Porque fui impedido.
Minha mãe começou a chorar novamente.
— André…
— Não agora, Beatriz.
A voz dele não era agressiva. Era cansada. Como se carregasse três anos de perguntas sem resposta.
Helena ergueu a mão.
— Todos vão me explicar isso, mas separadamente. Eduardo, você vem comigo.
Ele obedeceu, porém, antes de sair, olhou para mim.
— Fernanda, você acha que sabe o que está acontecendo. Não sabe.
Senti um arrepio.
Clara segurou meu braço.
— Não olha para ele.
A porta se fechou.
André permaneceu perto da janela.
Eu não conseguia tirar da cabeça as palavras dele.
“Se ainda estivessem vivas.”
— Meu pai realmente escreveu isso? — perguntei.
André assentiu.
— Não exatamente com essas palavras. A cláusula foi redigida pelo advogado. Mas Daniel sabia que havia um risco.
— Que risco?
Ele tirou os óculos e passou os dedos pelos olhos.
— Antes de morrer, seu pai descobriu movimentações financeiras estranhas dentro da empresa onde trabalhava como perito.
Clara franziu a testa.
— Pessoas roubando dinheiro?
— Era mais complicado. Havia empresas de fachada, contratos falsos e transferências feitas através de contas que pareciam legítimas.
Meu coração acelerou.
— E Eduardo tinha alguma coisa a ver com isso?
André não respondeu imediatamente.
Esse silêncio foi suficiente.
— Tinha? — repeti.
— Eu não sei até onde ele estava envolvido.
— Mas você suspeita.
— Suspeito.
Clara virou o rosto.
— Então por que nosso pai morreu?
A pergunta caiu na sala como um objeto pesado.
André ficou imóvel.
Minha mãe levou a mão à boca.
— O acidente de Daniel nunca me convenceu — disse ele finalmente.
Eu senti as lágrimas surgirem.
Durante três anos, ouvimos que nosso pai havia perdido o controle do carro numa estrada molhada.
Acidente.
Uma palavra simples para encerrar uma vida inteira.
— Você acha que ele foi assassinado? — perguntei.
— Acho que alguém queria que parecesse um acidente.
Minha respiração ficou presa.
Helena voltou à sala naquele momento.
— Precisamos conversar.
Ela colocou um pequeno gravador sobre a mesa.
— Eduardo mudou a versão três vezes.
André cruzou os braços.
— Sobre o quê?
— Sobre a noite de hoje. Primeiro disse que estava na sala. Depois afirmou que estava no andar de cima. Finalmente disse que estava dormindo quando vocês caíram.
Clara olhou para mim.
Nós duas sabíamos que aquilo era impossível.
Eduardo nunca dormia quando nos atacava.
Helena continuou:
— Mas existe algo ainda mais estranho. O telefone dele registra uma ligação feita quarenta e sete minutos antes de vocês chegarem ao hospital.
— Para quem? — perguntei.
Ela hesitou.
— Um número que pertence a uma empresa.
André ficou pálido.
— Qual?
Helena mostrou a tela.
André pegou o telefone com mãos trêmulas.
— Isso não pode ser.
— Você conhece a empresa? — perguntei.
Ele assentiu lentamente.
— Era uma das empresas que Daniel estava investigando.
Minha mãe começou a tremer.
— Então Eduardo…
— Talvez — disse Helena. — Mas ainda não temos provas suficientes.
Foi quando ouvi um som vindo do corredor.
Passos.
Depois uma voz masculina.
— Inspetora, encontramos uma coisa no carro dele.
Helena saiu rapidamente.
Eu tentei me levantar da maca.
— Fernanda, não — disse Clara.
— Preciso saber.
André me segurou pelo ombro.
— Você está ferida.
— Passei três anos sem saber nada. Não vou ficar deitada agora.
Ele me ajudou a caminhar até a porta.
No corredor, dois policiais estavam junto a uma pequena mesa. Sobre ela havia uma caixa metálica.
Helena abriu a tampa.
Dentro havia vários documentos, um pen drive e um molho de chaves.
Mas não foi nada disso que me chamou atenção.
Havia uma fotografia.
Eu a peguei.
Era uma imagem antiga do nosso pai entrando em um prédio.
Ao lado dele estava Eduardo.
Meu estômago virou.
— Eles se conheciam antes de ele se casar com nossa mãe?
André pegou a fotografia.
Seu rosto perdeu a cor.
— Não.
— Então por que estão juntos?
Ele virou a foto.
Havia uma data escrita no verso.
**Dois meses antes da morte de Daniel.**
E, abaixo da data, uma frase que fez minhas mãos começarem a tremer.
**“Se alguma coisa acontecer comigo, não confie em Eduardo. Mas também não confie em André.”**
Olhei lentamente para o meu tio.
Ele ficou em silêncio.
Clara apareceu atrás de mim.
— O que está escrito?
Eu não consegui responder.
André leu a frase.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Seu pai sabia que eu estava seguindo Eduardo.
— Para proteger a gente?
Ele balançou a cabeça.
— Não.
A voz dele quase desapareceu.
— Para descobrir se eu também estava envolvido.







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