Clara deixou o celular cair sobre a cama.
Eu peguei o aparelho antes que escorregasse para o chão e ampliei a fotografia. O cofre estava realmente vazio, mas havia uma coisa que ninguém tinha percebido à primeira vista: no canto inferior da imagem, sobre a prateleira de metal, aparecia um pequeno reflexo.
Uma segunda caixa.
— Espera.
Helena se aproximou.
— O que você viu?
Mostrei a tela.
André ficou pálido.
— Isso não estava ali quando Daniel morreu.
— Você esteve dentro desse cofre? — perguntou Helena.
Ele hesitou.
— Uma vez.
— Quando?
— Dois dias depois do acidente.
Clara encarou o tio.
— Você mentiu para nós.
— Eu procurei evidências — respondeu André. — Achei que Daniel tivesse escondido alguma coisa lá. Não encontrei nada.
Helena pegou o celular e analisou a fotografia.
— Então alguém voltou ao cofre depois de você.
— E deixou aquela mensagem — falei.
André baixou a cabeça.
— Talvez para me incriminar.
— Talvez — respondeu Helena. — Ou talvez Daniel realmente não confiasse em você.
Meu coração apertou.
Por mais que eu quisesse acreditar em André, a frase escrita no cofre continuava diante de nós.
“Daniel nunca confiou em André.”
Então me lembrei de outra coisa.
— O vídeo.
Todos olharam para mim.
— Meu pai disse para não confiar em quem afirmasse conhecer toda a história. E depois falou que a verdadeira herança estava em outro lugar.
Clara começou a pensar.
— O cofre estava vazio.
— Exatamente.
— Então talvez aquilo não fosse o cofre.
André levantou os olhos.
— A chave tem o número dezoito.
— E o prédio antigo tem dezoito andares — disse Helena.
Ficamos em silêncio.
A inspetora imediatamente ordenou que uma equipe fosse até o prédio. André insistiu em acompanhá-los, mas Helena recusou. Pela primeira vez, ele não discutiu.
Minha mãe aproximou-se de mim.
— Fernanda, existe outra coisa que eu preciso contar.
Meu peito apertou.
— O quê?
Ela tirou da bolsa uma fotografia antiga.
Era pequena, dobrada ao meio.
— Daniel me deu isso na noite do acidente.
Abri.
Era uma fotografia nossa quando crianças.
Clara e eu estávamos sentadas no colo do nosso pai.
Atrás de nós aparecia a fachada da antiga casa da família.
Mas havia uma marca vermelha desenhada sobre uma janela do segundo andar.
No verso, Daniel escrevera:
**“Onde começou, termina.”**
Eu reconheci a janela.
Era o antigo quarto das crianças.
— Ele disse que o cofre não estava na casa — falei.
— Sim — respondeu minha mãe. — Mas nunca disse que a prova não estava lá.
Helena ficou em silêncio por alguns segundos.
— A gravação pode estar no lugar onde Daniel começou a guardar documentos quando vocês eram pequenas.
André levantou-se.
— A casa está vazia?
Minha mãe assentiu.
— Desde que Eduardo decidiu vender os móveis.
— Então vamos.
---
A antiga casa parecia menor do que nas minhas lembranças.
A porta rangeu quando Helena a abriu. O cheiro de madeira velha e poeira me trouxe lembranças que eu havia enterrado durante anos. Clara segurou minha mão enquanto atravessávamos o corredor.
Subimos as escadas.
O antigo quarto ainda tinha marcas na parede.
André ficou perto da porta.
— A janela.
Aproximei-me.
Havia uma pequena placa de madeira abaixo do parapeito.
Toquei.
Ela se moveu.
Meu coração disparou.
— Aqui.
Helena removeu a placa com cuidado.
Atrás dela havia um compartimento estreito.
Vazio.
Clara soltou o ar.
— Nada.
Eu passei os dedos pelo fundo.
Então senti uma pequena saliência.
Pressionei.
Um compartimento secreto se abriu na parede.
Dentro havia uma fita de áudio.
E um envelope.
Meu nome estava escrito nele.
**Fernanda.**
Minhas mãos tremiam quando abri.
Dentro havia apenas uma folha.
**“Se você encontrou isto, então Eduardo já sabe sobre o dinheiro. Mas existe algo que ele nunca descobriu: a pessoa que o ajudou a entrar na nossa família.”**
Parei de respirar.
Clara leu por cima do meu ombro.
— Quem?
Virei a folha.
No final havia apenas uma inicial.
**B.**
Minha mãe começou a chorar.
— Não…
Helena olhou para ela.
— Beatriz?
Ela não respondeu.
Foi então que ouvi um barulho vindo do andar de baixo.
Uma porta se fechando.
Helena imediatamente levou a mão ao rádio.
— Ninguém se mexa.
Passos começaram a subir as escadas.
Um.
Dois.
Três.
Clara apertou meu braço.
André ficou diante de nós.
A sombra apareceu no corredor.
E então reconheci o rosto.
Era o homem que havia aparecido na fotografia do carro.
O suposto advogado morto de Daniel.
Ele parou diante da porta.
Olhou para mim.
E disse:
— Seu pai estava certo sobre uma coisa.
Sua voz era baixa.
— Eduardo nunca foi o homem que vocês deveriam temer.
Ele colocou um envelope sobre o chão.
— Era sua mãe.
Beatriz começou a chorar.
— Não escute esse homem.
Ele sorriu.
— Pergunte a ela por que Daniel morreu acreditando que a própria esposa o havia traído.







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