A frase permaneceu na tela por alguns segundos, imóvel, enquanto ninguém parecia ter coragem de respirar. Eu sentia o coração bater tão forte que quase não conseguia ouvir o alarme distante do hospital. Clara aproximou-se do tablet e segurou minha mão.
— Continua.
Toquei na tela.
O arquivo abriu.
Era um vídeo.
A imagem mostrava nosso pai sentado diante de uma mesa de madeira, usando a mesma camisa azul que eu lembrava de vê-lo vestir aos domingos. O rosto estava mais magro, os olhos cansados, mas era ele. Não havia dúvida.
Minha mãe levou a mão à boca.
André recuou.
Daniel olhou diretamente para a câmera.
— Se vocês chegaram até aqui, significa que alguém tentou controlar a vida de vocês depois da minha morte. Talvez essa pessoa tenha conseguido por algum tempo. Mas eu preciso que entendam uma coisa: o dinheiro nunca foi o verdadeiro motivo.
Clara começou a chorar.
Eu permaneci imóvel.
— O fundo que deixei para vocês foi apenas uma proteção — continuou Daniel. — A verdadeira herança está em outro lugar.
A gravação parou por alguns segundos.
Depois voltou.
— Fernanda, Clara, não confiem em ninguém que diga conhecer toda a história. Nem mesmo em alguém que tenha provas. Algumas pessoas podem possuir documentos verdadeiros e ainda assim contar uma mentira.
André fechou os olhos.
Meu olhar foi imediatamente para ele.
— Ele estava falando de você — sussurrei.
— Talvez — respondeu.
A gravação continuou.
— Existe um cofre. A chave está com Beatriz. O cofre não está em nenhum banco. Está em um lugar onde vocês estiveram milhares de vezes sem perceber.
Minha mãe começou a tremer.
— Daniel…
— Dentro do cofre existe uma gravação que explica o que aconteceu na noite do acidente. Mas não abram sozinhas. Procurem alguém em quem vocês possam confiar.
A tela ficou preta.
Eu esperei.
Nada.
Então uma última linha apareceu:
**“E não procurem o cofre na minha antiga casa.”**
Clara olhou para mim.
— Onde então?
Antes que eu pudesse responder, André falou:
— A igreja.
Minha mãe virou-se para ele.
— Por quê?
— Daniel costumava guardar documentos na igreja onde fomos ao funeral.
— Você sabia disso?
André balançou a cabeça.
— Não. Estou apenas pensando onde ele esconderia algo que ninguém procuraria.
Helena, que havia assistido ao vídeo em silêncio, pegou a chave.
— Vamos descobrir.
Mas, naquele instante, um dos policiais entrou correndo.
— Inspetora, precisamos falar com a senhora.
Helena saiu com ele.
Minha mãe permaneceu na sala, olhando para o chão.
Eu não conseguia esquecer uma frase.
“Procurem alguém em quem vocês possam confiar.”
— Mãe — falei.
Ela levantou os olhos.
— Você confiava no papai?
A pergunta a destruiu.
Beatriz começou a chorar.
— Mais do que em qualquer pessoa.
— Então por que mentiu durante três anos?
Ela limpou o rosto.
— Porque eu estava tentando cumprir uma promessa.
— Que promessa?
Minha mãe olhou para Clara.
Depois para mim.
— Daniel me fez prometer que, se ele morresse, eu faria Eduardo acreditar que controlava o dinheiro.
Fiquei sem palavras.
— Você deixou Eduardo pensar que teria acesso ao fundo?
— Sim.
— E deixou ele nos machucar?
Ela abaixou a cabeça.
— Eu achei que conseguiria mantê-lo afastado do fundo até vocês completarem dezoito anos. Eu estava errada.
Clara começou a chorar.
— Você poderia ter pedido ajuda.
— Eu tentei.
— Quando?
Minha mãe hesitou.
— Na noite em que seu pai morreu.
André levantou a cabeça.
— Para quem?
— Para a polícia.
O silêncio foi absoluto.
— O que aconteceu? — perguntei.
Beatriz apertou os olhos.
— Alguém atendeu o telefone e me disse que Daniel estava envolvido em uma investigação criminal. Disseram que, se eu denunciasse o acidente, vocês seriam colocadas sob investigação também.
Helena voltou naquele momento.
— Isso nunca aconteceu dessa forma.
Minha mãe a encarou.
— Como sabe?
— Porque acabamos de verificar os registros. A ligação feita naquela noite não foi para a polícia.
Beatriz ficou branca.
— Não.
— Foi para um número privado.
— Mas eu disquei o número da delegacia.
Helena mostrou o registro.
— Alguém redirecionou a chamada.
André ficou imóvel.
— Isso significa que alguém tinha acesso ao sistema telefônico.
— Ou alguém estava esperando aquela ligação — respondeu Helena.
Meu estômago se apertou.
A investigação tinha acabado de mudar de direção.
Helena recebeu outra informação pelo rádio.
— Encontramos o cofre.
Todos ficaram em silêncio.
— Onde? — perguntei.
Ela olhou para mim.
— No antigo prédio da empresa onde Daniel trabalhava.
André balançou a cabeça.
— Isso não faz sentido.
— Faz — respondeu Helena. — Porque alguém tentou abri-lo hoje.
Meu coração disparou.
— Quem?
Ela demorou um segundo.
— A câmera registrou Eduardo chegando lá antes de vir ao hospital.
Minha mãe levou a mão à boca.
— Mas ele estava em casa.
Helena encarou a porta.
— E isso significa que Eduardo não estava apenas escondendo o que fez com vocês.
Ela fez uma pausa.
— Ele estava tentando encontrar a prova que seu pai deixou.
Naquele instante, o celular de Clara vibrou.
Ela olhou para a tela.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
**“Vocês chegaram tarde.”**
Logo abaixo havia uma fotografia.
Era o interior do cofre.
Vazio.
E, sobre a porta metálica, havia uma segunda frase escrita à mão:
**“Daniel nunca confiou em André.”**







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