Por alguns segundos, fiquei incapaz de separar as duas verdades que acabavam de cair sobre mim. Gabriel e Rafael eram meus filhos. E Helena, a mulher com quem eu dividia minha casa, minha cama e meu sobrenome, aparecia num documento ligado ao dinheiro usado para manter Natália longe de mim.
“Envie tudo para um endereço seguro”, falei ao telefone. “E não confronte ninguém.”
“Lucas, há mais arquivos.”
“Não abra pela rede da empresa. Tire cópias e me encontre pessoalmente.”
Desliguei.
Natália me observava.
“Helena?”
Assenti.
“Ela assinou junto com meu pai.”
A raiva desapareceu do rosto dela por um instante, substituída por medo.
“Então ela sabia.”
“Talvez. Mas ainda não sei o quê.”
“Eu a vi com Roberto naquela clínica, Lucas.”
Antes que pudéssemos continuar, o médico interrompeu. Gabriel precisava realizar novos exames imediatamente. O possível problema hereditário exigia investigação, mas ele estava estável. A palavra “estável” deveria ter me tranquilizado. Não conseguiu.
Voltei ao quarto.
Gabriel levantou os olhos.
“Você é nosso pai?”
Natália congelou na porta.
Percebi que Rafael estava ao lado do irmão, igualmente atento.
A pergunta mais importante da minha vida havia sido feita por uma criança de seis anos.
Ajoelhei-me diante deles.
“Parece que sim.”
“Você não sabia?”, Rafael perguntou.
“Não.”
“Por quê?”
Olhei para Natália. Ela balançou discretamente a cabeça. Não era hora de entregar às crianças o peso dos erros dos adultos.
“Porque algumas pessoas cometeram erros muito grandes.”
Gabriel franziu a testa.
“Você também?”
A pergunta me atingiu com precisão brutal.
“Principalmente eu.”
Natália desviou o rosto.
Gabriel estendeu a mão devagar e tocou meu pulso, como se quisesse confirmar que eu era real.
“Então você vai embora de novo?”
Senti algo quebrar dentro de mim.
“Hoje não.”
Não prometi mais. Eu não tinha conquistado o direito.
Duas horas depois, quando os meninos adormeceram, Natália e eu fomos encontrar Marcelo numa sala privada do hospital. Ele chegou carregando uma pasta e um notebook que, segundo explicou, nunca estivera conectado à rede corporativa.
“Comece pela VR”, ordenei.
Marcelo abriu documentos societários.
“A empresa foi criada sete meses antes do seu divórcio. O administrador formal era um contador chamado Sérgio Brandão. Mas o capital veio de uma subsidiária controlada pelo seu pai.”
“E Helena?”
“Na época, ela trabalhava para a Fundação Almeida.”
Eu sabia disso. Helena havia sido diretora de projetos especiais da fundação antes de nos aproximarmos. Sempre pensei que tivesse conhecido meu pai apenas profissionalmente.
Marcelo virou o notebook.
Ali estava a assinatura dela numa autorização financeira.
Natália aproximou-se.
“Essa data...”
“O quê?”
Ela apontou.
“Foi dois dias depois de eu contar a Roberto que estava grávida.”
O ar pareceu desaparecer da sala.
“Então meu pai soube.”
“Provavelmente”, disse Marcelo.
Minha primeira reação foi negar. Augusto Almeida podia ser controlador, duro e obcecado pelo nome da família, mas netos eram tudo o que dizia desejar.
Então me lembrei de uma conversa semanas antes do divórcio.
“Você não pode destruir sua vida esperando por uma família que talvez nunca venha, Lucas.”
Na época, achei que ele estivesse tentando me proteger.
Agora aquelas palavras pareciam diferentes.
“Por que meu pai esconderia meus próprios filhos?”
Marcelo não respondeu.
Natália respondeu.
“Talvez ele não estivesse tentando esconder as crianças.”
Olhei para ela.
“Então o quê?”
“Talvez estivesse tentando me esconder.”
O celular de Natália tocou.
Número desconhecido.
Ela atendeu.
“Alô?”
Seu rosto mudou.
“Quem está falando?”
Silêncio.
Então ela colocou no viva-voz.
Uma voz masculina baixa saiu do aparelho.
“Natália, não entregue os documentos ao Lucas.”
Reconheci imediatamente.
Roberto.
Levantei-me.
“Onde você está?”
Ele ignorou minha pergunta.
“Lucas, se você está ouvindo, não volte para casa.”
“Você falsificou documentos em meu nome.”
“Sim.”
Natália fechou os olhos.
“Por quê?”, perguntei.
“Porque seu pai mandou.”
“E Helena?”
Do outro lado, ouvi apenas a respiração dele.
“Roberto.”
“Helena não começou isso.”
“Mas participou.”
“Participou.”
Minha mão se fechou.
“Por quê?”
“Porque Augusto tinha medo do que aconteceria se você descobrisse a verdade sobre aqueles tratamentos.”
Olhei para Natália.
“Que verdade?”
“Os exames de vocês foram manipulados.”
Senti um arrepio.
“Quem manipulou?”
“Não posso explicar por telefone.”
“Então venha até mim.”
“Não.”
“Você me roubou seis anos com meus filhos.”
Minha voz finalmente subiu.
“Você vai me dizer tudo.”
Roberto ficou em silêncio.
Quando voltou a falar, parecia assustado.
“Seu pai descobriu que alguém dentro da clínica estava alterando resultados. Quando tentou descobrir quem, percebeu que o problema era muito maior do que Natália.”
“Maior como?”
“A clínica trabalhava com pessoas ligadas ao seu grupo empresarial.”
Marcelo se aproximou do telefone.
“Quais pessoas?”
“Procurem o Projeto Herdeiro.”
A ligação terminou.
Marcelo e eu nos encaramos.
Nunca ouvira aquele nome.
Natália, porém, empalideceu.
“Eu já.”
Virei para ela.
“Onde?”
Ela abriu lentamente a bolsa e retirou uma pequena chave.
“Depois que os meninos nasceram, recebi uma caixa pelo correio. Não tinha remetente. Dentro havia apenas essa chave e um bilhete dizendo que eu deveria guardá-la caso alguma coisa acontecesse com Augusto.”
“Você nunca abriu?”
“Não sabia o que ela abria.”
Marcelo pegou a chave e examinou a pequena gravação lateral.
Um número.
317.
Seu rosto mudou.
“Eu conheço essa numeração.”
“De onde?”
“Dos cofres privados do antigo escritório do seu pai.”
Meu coração acelerou.
A antiga sede do Grupo Almeida estava fechada havia três anos, aguardando reforma. O escritório de Augusto permanecia praticamente intocado por decisão minha.
Naquele momento, meu telefone recebeu uma mensagem de Helena.
**Lucas, sei que você está com Natália. Antes de acreditar nela, pergunte por que seu pai pagou seis anos para protegê-la.**
Mostrei a tela a Natália.
Ela leu e recuou.
“Isso é mentira.”
Antes que eu respondesse, outra mensagem chegou.
Desta vez havia uma fotografia antiga.
Meu pai estava saindo de um prédio ao lado de Natália. A data registrada era de quatro anos atrás.
Dois anos depois do nosso divórcio.
Dois anos depois do nascimento dos gêmeos.
Olhei para ela.
“Você disse que não sabia que meu pai estava envolvido.”
Natália encarou a fotografia, completamente pálida.
“Eu não sabia que ele estava envolvido com a empresa.”
“Mas você se encontrou com ele.”
Seus olhos finalmente encontraram os meus.
“Sim.”
“Por quê?”
Ela demorou tanto para responder que comecei a sentir medo da resposta.
“Porque Augusto foi a primeira pessoa da sua família a descobrir que Gabriel e Rafael eram seus filhos.”
Meu peito apertou.
“E o que ele fez quando descobriu?”
Natália engoliu em seco.
“Ele me pediu para nunca contar a você.”
Então colocou a chave do cofre 317 sobre a mesa.
“Mas não foi pelo motivo que você está pensando.”







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